sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Vou sentir saudades tuas...

[Im Fine. - Pinterest]
[Be gente. - Pinterest]


(played during a thunderstorm)


Deixa-me ajudar-te...
Quero ouvir-te, e saber que os meus olhos te dão alento.
Tocar o teu rosto de mão quente e deixar que te deites na palma da minha alma.
Conta-me os medos que te assombram. Os receios que te controlam a vida e o espírito de quem és, que te suga a força e a vontade de seres, de te inspirares.
Desabafa o receio de te perderes de ti, do que já foste.

Sem ti, não consigo respirar!
Apareces em todos os recantos das minhas memórias, como personagem de fundo... E quando penso no nosso último beijo, no ultimo abraço, no ultimo "adeus"; O aperto no peito faz-me chorar a saudade que sinto todos os dias por ti.
É do teu olhar de sorriso tenurento, que vou sentir mais saudade. Dos teus lábios tocarem os meus gentilmente. Do conforto que foi chorar no teu peito, do reconforto que foi ser abraçado por ti.
É o desejo de te voltar a sentir junto de mim, minha, princesa, meu amor eterno...

Que a tua face não desapareça da memória.
Que o teu cheiro e doçura não esbote da minha pele.
Que a tua essência abrace para sempre quem sou.
Foste tu a minha amada. A minha paixão de uma vida, a parte de mim que nunca fui capaz de ser.
És a luz que me ilumina a escuridão do vazio que hoje, neste dia sombrio e frio, se abate sobre mim, me rasga o peito e enche de lágrimas num sofrimento mudo, num mundo que já não faz sentido.

Já senti amor, mas foste tu a primeira que mexeu comigo.
A primeira amizade por quem lutei mais.
A personalidade com quem mais cresci e amadureci.
Que não seja um acabar. Que não seja um adeus. Que o até já esteja ao virar da esquina, e todo o tempo que perdemos nos reencontre, com o mesmo amor e paixão do nosso primeiro beijo, do nosso primeiro abraço, ao pôr do sol, nas Portas de Coimbra, no sitio mais bonito que foi conhecer-te, descobrir-te e amar-te. Um momento ao qual me agarro, pois tudo o que é mais sagrado, aconteceu ali, junto de mim, por ti e para ti.


"Sê gentil contigo, estás a fazer o teu melhor que podes."

sábado, 1 de julho de 2017


Os altifalantes da estação falaram e um comboio verde deslizou à sua frente, num guincho metálico, sustendo a sua paragem.
Entraram no intercidades, caminho a Lisboa. Subiram as escadas de metal e procuraram os lugares previamente comprados online. Sentaram-se, num conforto que lhes custava apenas mais 5€ no preço final do bilhete.
Cecilia esperava ver maioritariamente homens de negócios, engravatados e de fatos imaculados, portáteis abertos e telemoveis de luxo sobre as mesas, mas para seu espanto, sem se decepcionar muito, descobria algumas pessoas a dormir, uma senhora de palavras cuidadas ao telemovel. Jovens de phones nos ouvidos e um ligeiro barulho de fundo de conversas e contra-conversas, que respeitavam os ouvidos de cada um dos passageiros.

Levou largos e longos minutos para descobrir os sons da caixa de metal. Eis então que nas colunas surge a voz do comandante a avisar a proxima paragem.
Sentiu a força no corpo, e a barriga pesar. Tinham acabado de parar em mais uma estação do qual desconhecia o nome e que os colocava cada vez mais próximos do seu destino.

A corda que trago em mim...


Olha para a minha gravata. Vês o negro que se abraça à volta do meu pescoço? É feito da mesma escuridão de onde vêem os meteoritos. Este nó apertado à volta da respiração, traz um fogo até aos pulmões, onde são abotoados pela camisa às riscas de linhas delineando as curvas do meu corpo.

Despir o casaco, permitindo à luz dos teus olhos crescer de desejo. A camisa, inquieta a vontade de me tocares. A respiração que se realça no peito apertado pelo tecido, provoca a aceleração do arfar, da respiração calórica que te escorre em suores frios de prazer pelo pescoço até às mãos suadas e sedentas.

A grava-ta alarga-se, e aproxima-se ao corpo dos teus sentidos. Cai ao chão, ela e as tuas pernas. Queres um beijo? Recebe o toque e sente o olhar que com a mão na face te os guia a mim.
Sinto os tremores no teu corpo quererem subir pelo meu braço. Recompõem-te, espera, limpa a boca, em breve estarei tão junto de ti, que respirar te será dificil. Mexer, um esforço. Este peito que te elouquece, amarra-te numa dança que perdes a cada músculo preso por mim na corda que é a minha lingua.

Esta gravata, é o inicio do teu prazer mais transcendente...
Agora que te enforca, vou-te despir.

terça-feira, 13 de junho de 2017

O Rei sem Coroa...


Não governa em lado nenhum e em lado algum se deixa governar.
Há nele a vontade de viver da honra de não ser dominado e de não se deixar dominar.
A morte é o unico rio que não consegue parar, que não conseguu beber ou controlar.
A velocidade, a força e o caudal envenenam-lhe o espírito, que sem reino seu, se descontrola e deambula pelas florestas de pantanos escondidos em cada caminhada que faz com os seus pensamentos e desvaneios.

Não há palácio a não ser um buraco para si.
Não há amigos a não ser a solidão e o silêncio.
Não há vida que brilhe nos seus olhos a não ser a do fogo, na escuridão que cobre a vela de uma chama que um dia lhe saltava do peito.

Não há coroa, não há vida, não há legado que deixe de si, neste mundo que foi só dele e por ele vivido.

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Data: 12/06/2017
A fazer: Passeio com Ana Teresa - Porto
Local: Estação de comboios de Aveiro: 20h - 20h30
Inspiração: Pinterest - A king without a crown (writing prompts).

domingo, 28 de maio de 2017

Disseram-me que não podia correr...

[]

Disseram-me que eu não podia correr com os homens. Que as mãos das mulheres não eram grandes o suficiente para agarrar o punho da espada, e que os braços não tinham força para a erguer sobre a cabeça.
Fora feita para cuidar da casa, das crianças, da comida, dos velhos, dos animais, mas não para a guerra.
-- As mulheres lutam de maneira diferente.  -- disse o meu marido. -- Lutam cada vez que dão à luz. Carregam um pequeno milagre que um dia se tornará numa dona de casa ou num lutador.
Porque nos damos nós mulheres, ao trabalho, de cuidar e acarinhar um filho, se ao fim de 18 primaveras, se não fôr mais cedo, o vêmo-lo partir para uma guerra que poderá não o trazer de volta? Se ele vai por mim, sua mãe, eu quero ir por ele, e por todas as mulheres que não podem acompanhar os seus filhos nesta corrida sem retorno.

Ao vestir a cota de malha por cima da pequena blusa, senti as chicotadas rasgarem-me as costas. O frio do metal apertava-me os ossos e tornava tensos os músculos "frágeis", mal treinados, dos meus braços. O cabelo atado em puxo aquece-me num bafo incómodo as costas. Quando eu vestir tudo o resto, e o elmo me cobrir a cara, bastará não dizer uma única palavra e todos pensarão que serei mais um deles. Talvez um agricultar das terras vizinhas, ou um jovem ajudante de padeiro.

Disseram-me que as batalhas são feitas e travadas entre homens. Deste lado da fileira, não imaginam que uma mulher lhes vai arrancar a espada e o escudo das mãos. Quando descobrirem quem sou, Liliane, mãe de cinco filhos e duas filhas, irão fugir! Irão sentir o grito de guerra nos seus ouvidos.
Hoje eu marcho ao lado de pais e avós.
Hoje eu marcho por eles e pelos meus filhos.
Hoje lutarei pela liberdade.

O dia começou...


Saio do trabalho, meio-dia, sábado. O sol toca-me na pele, aquece-me pelos braços despidos. Hoje sinto-me inspirado.
Desejoso por chegar a casa e ver-te de mangas arregaçadas, debruçada sobre os tachos a fumegar. Ansioso pelo teu sorriso e o olhar cansado, de quem pede um carinho, um mimo, um beijo e um abraço.
Passo a mão no teu rabo, subindo gentil com as pontas dos dedos por cada nó de osso nas tuas costas e delicio-te com um beijo de saudade.
Enrolo-me de abraço no teu corpo, e deslizo as mãos sobre as tuas, lavando as mãos com as tuas, no escorrer que me acalmava a vontade. Beijo-te de novo.
Nas pernas sinto então umas mãos pequeninas, enchendo a casa de gargalhadas e risos pequeninos. Os caracóis mexiam com rebeldia enquanto o corpo se colava ao meu, com saudade, com amor, da mesma forma que eu me agarrava a ti.
Apanhei-a no meu colo, assim como quem pega num bebé, e enchi de beijos o que nos era tão especial; tão traquina; tão irrequieto.
Acabaste a louça, mexes-te o tacho fumegante e correste para nós, já sem avental, já sem os olhos cansados, já sem a tristeza no rosto.

O sol atravessa a sala conquistada por bonecos. Os desenhos lutam na caixa mágica e os pais sobre o sofá. Tenho saudades de ti, amor. Tenho saudades do tempo.

domingo, 26 de março de 2017

Red Room - Show, don't tell...

[Random Inspiration 124 - Pinterest]

A escuridão do pequeno escritório era interrompida por uma dança de luzes, provenientes da televisão parada ao centro, sobre um móvel. O espaço ia-se revelando com a mudança de plano das câmaras no ecrã.
Agarrou no comando ao lado do cigarro sobre um cinzeiro de vidro, e apertou o botão do som. Suavemente, vozes começaram a surgir da pequena caixa de madeira, e a figura forte, sentada numa cadeira de cabedal, cujas costas tocavam quase a parteleira de livros atrás de si, ouvia a entrevista no mais absoluto silêncio.

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Um rapaz novo, de roupa casual aparecia em destaque perante a imagem da câmara, com o seu queixo ligeiramente acima do ombro de uma figura feminina. Sorriu.
-- As pessoas comparam-te à ex-estrela Mia Kalifa, que tal como tu, de um momento para o outro se tornou numa estrela! O que achas a que se deve este sucesso? Consegues explicar?
-- Bem... -- Ri-se ligeiramente envergonhada. A câmara foca a cara de uma jovam de 25 anos, de cabelo escuro e uma cara muito jovem e oval, fazendo questão de fazer sobressair do seu vestido um decote bastante assentuado. -- Tem haver com estas duas armas! -- responde, levantando os seus peitos com ambas as mãos. -- Não é só por causa das mamas, que são "naturais". -- continua, utilizando as mãos para indicar aspas entre a palavra. -- Eu sou uma rapariga que acabou os estudos em Psicologia. Dei aulas durante 2 anos, e sempre fui uma excelente aluna apesar de ser complementamente louca em várias partes do cérebro. Sou uma rapariga bonita, inteligente e muito safada. -- riu-se.
-- Usas-te a expressão "naturais". O que queres dizer com isso? São falsas mas parecem naturais? -- perguntou o rapaz.
-- Fiz uma operação, sim, para aumentar. Foram-me muito caras! Às vezes para termos o que gostamos, temos de aceitar coisas que não são as melhores no momento. Sacrifiquei muito de mim para as poder fazer.
-- Em que sentido? Monetário?
-- Sim, e também a nivel emocional. Tive me mentalizar que uma vez operada não voltaria atrás. Sou uma mulher decidida!
-- Sentes-te confortável com o tamanho delas?
-- Não têm selicone, o que já por si é o melhor. Ao toque são naturais! Não é incrivel!?
-- Foi por isso que foram tão caras?
-- Muito caras! Mas valeram a pena e adoro o tamanho! Sinto que já nasci assim! -- riu-se.

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Um telefone antigo de corda, fez a mesinha tremer, acompanhando-se de um destinto som metálico. A figura pega-lhe com um só gesto e leva-o ao ouvido.
Em silêncio por breves segundos, numa voz grossa e claramente zangada, tentando manter a calma, falou:
-- Sim, estou a ver. Ela fala de mais. Está a atrair demasiada atenção. Façam-lhe uma visita. Dá o trabalho ao Touro. Ele que a faça desaparecer. -- pausou a voz por um momento e continuou. -- Limpo! E segue o jornalista. Quero saber a que restaurante costuma ir comer. -- da mesma forma que pegou no telefone, pousa-o, sem dizer uma única palavra a mais.

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Show, don't tell - Writing tips
Show, Don’t (Just) Tell

segunda-feira, 6 de março de 2017

Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [50]

[Stepping in her body - Pinterest]

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Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [49]

-- O que queres de nós? Dinheiro?
Soltei uma gargalhada.
-- Achas que me faz falta o dinheiro? -- respondi.
-- Não toques na Joana! Ela não te fez mal nenhum! -- gritou-me a mãe.
-- Não te preocupes com a Joana, a filha da nossa querida Madalena vai-lhe fazer companhia!
A cara dela ficou vermelha de raiva. A fúria crescia visivelmente nas veias dos seus braços, no arfar cadenciado no seu peito e atirou-se a mim como se a vida da filha dependesse daquele momento. E dependia. Mais ou menos...
Com um murro bem calculado, atirei-a ao chão, através do estômago. Contorceu-se e cuspiu-se toda, sentido as entranhas arderem por dentro.
-- Não te preocupes querida Madalena, a tua filha vai seguir o mesmo caminho que a mãe. O de puta!
Ela não respondeu, limitou-se a cair ao chão encolhida em dores. Tentou balbuciar qualquer coisa, mas nem conseguiu abrir a boca.

Ouvi a porta da casa de banho, do piso de cima, começar a bater novamente. A voz de Joana estava distante. Os relâmpagos caiam lá fora e a chuva abafava qualquer som que viesse de dentro de casa. Ninguém estaria perto o suficiente para ouvir gritos, tiros, moveis a cair e vidros a partir. Apontei a arma à amante de Jesus Cristo e os olhos focaram-se na minha arma. O medo cresceu lentamente em volta dos seus olhos, à medida que o chão tremia debaixo dos meus pés.

Disparei.
Gritou.
Sentiu uma dor no ombro.

Caminhei até ao andar de cima, arrombei a porta com o pé, depois de muito tentar dialogar com uma mulherzinha cheia de medo de mim, mas não adiantou. Agarrei a criança por um braço e empurrei-a para que fosse à minha frente. Chorava, desconsoladamente, sempre olhando para trás, por cima do ombro. Foi então que correu desenfreada pelas escadas, numa tentativa de me fugir, mas uma bala alojou-se a poucos metros mais abaixo, ultrapassando os seus pés rápidos e parou; Como uma estátua ficou imóvel. Ali, no meio das escadas.
-- JOANA!!! -- gritas-te tenebrosa. Nesse momento nem os relâmpagos tem faziam jus à força da voz. Foi revigorante sentir o timbre feminino aflito descer-me pela espinha.
-- Joana, Joana, Joaninha...  -- chamei, descendo degrau a degrau, soletrando cada palavra em cada passo. -- Se não te portas bem, a próxima será na tua mãe. -- avisei. Agarrei-lhe no punho, e trouxe-a até à sala. Deixei-me ficar no hall, para que mãe e filha se olhassem.
-- Minha filha! Querida!
-- Vamos todos dar um passeio? -- perguntei às mulheres. -- Queres ir dar um passeio Joana? -- questionei, erguendo-lhe o pulso para que tomasse atenção ao que dizia e me olhasse nos olhos.
A face vermelha acagaçada de medo, de olhos pequeninos e quase sem brilho olharam-me e cruzaram-se de novo com os da sua progenitora. Chorou nesse momento, enquanto a minha mão a apertava e arrastava para longe da mãe galinha.

Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [51]
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terça-feira, 24 de janeiro de 2017

[Bright Star - Pinterest]

Amor, chora comigo.
Abraça-me o corpo,
Coloca as mãos à volta da minha cara.
Sentes a dor no meu soluçar?
O medo de te perder num piscar.
O receio de me morreres num arfar.

Abraça-me,
Toca-me os lábios.
Olha-me,
Assim comigo, sem disturbios,
Sentir o cabelo como algodão,
Entre estas cobertas no meio de um nevão,

Quatro beijos,
Quatro caricias,
Quatro sorrisos,
Quatro suplicias.

Vem, estrela brilhante,
Deitar-te sobre o meu peito,
Soltando um suspiro amoroso,
E deixando para trás, o medo, distante.

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Abbie Cornish (Fanny Brawne)
Edie Martin (Toots)
Bright Star (2009) directed by Jane Campion

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Intensifica-o, e tudo o resto se desmorona...

[Death white Cow - Pinterest]

Hoje, o mundo morre um pouco mais, e eu choro mais do que nunca. Ficando a garganta entupida de soluços sofridos. O peito arde e a dor cria um terror medonho no meu cérebro. O ar não passa, não consegue entrar, não pode descer, e a combustão intensifica-se nos pulmões.
Há dor maior do que não morrer? Dor maior do que estar vivo?
Há maior pecado que desejar morrer? Desejar a morte do Eu?
As lágrimas desbotam a máscara branca de um carnaval que nunca foi feliz.
Há sofrimento suficiente no mundo para perceberes que a vida nunca deveria ter germinado? Não é suficiente a extinção dos seres vivos para compreenderes que já nada tem valor?
Há algo neste planeta digno de ser amado? Digno de ser apreciado?
Embalo a criança dentro de mim, no colo mais quente e reconfortante que possuo dentro de mim. Ela chora, morre, cai e quebra-se. Nada do que lhe possa dar para tirar as incertezas, o sofrimento e as feridas nos joelhos, a manterá viva pelo sorriso das coisas.
A mascara branca perde a cor, o elástico e deixa de existir com o tempo. O sofrimento da alma enaltece cada músculos do meu corpo. Olhar o horizonte e observar a morte do mundo, em dor, em sangue, num misto de frio e nevoeiro, arranca de mim toda a consciência.
A cinza que me criou, o barro que me deu forma, trouxe com eles um defeito: Medo.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Tu festejas o ano novo?

[Girl feeding chickens - Pinterest]

Tu festejas a passagem do ano novo? Com passas, roupa interior colorida, em cima de uma cadeira, ou a fazer outra parvoíce supersticiosa qualquer?

És burro(a)!

Imagina-te numa daquelas aldeias do interior, pequena, mais ao menos perto ou sobre as costas do monte. Muitos avôs e avós a fazer as suas pequenas grandes coisas, vagarosamante, sem grandes detalhes e preocupações com a perfeição de como arrancam as ervas, atiram o milho às galinhas ou comem o pequeno-almoço. Não existem anos, nem meses nem semanas; não existem dias nem horas, apenas Dia e Noite. E muito menos precisam do relógio para ver as horas, eles guiam-se pela posição do sol, das nuvens, do vento, e das aves para saberem se vem lá bom ou mau tempo para o dia de amanhã ou para o fim de semana. Verás que raramente se enganam!


Agora que tens esta imagem na cabeça, imagina-te também no campo, como a fotografia acima.
É de tarde, vais apanhar flores, aproveitar o sol e passear um pouco pelo terreno que te viu correr desde que eras pequenina(o). O que farás a seguir não interessa para agora. Imagina apenas essa paz e esse sossego. Estás parada no tempo, e mesmo que não aproveites tudo hoje, amanhã é um novo dia e poderás voltar a dar de comer ás galinhas, aos coelhos e passear pelo campo verde debaixo do sol reconfortante.

Continuas a pensar que logo à noite é a "passagem do ano"?


Então imagina-te na pré-história, onde não havia qualquer conceito de hora, de dia da semana, do mês. Apenas que estava sol ou estava escuro e alguma outra estação do ano.
Caças, comes, olhas para o céu e não tens nada no pensamento. E não tentes não pensar em nada, simplesmente limpa a tua mente e sente o dia mundano e repetitivo, todos os que já viveste foram iguais e todos os que viverás serão gémeos dos que já passaram.
Conseguiste abstrair-te? Conseguiste sentir a calma? De que, amanhã será apenas mais um dia complemente igual a qualquer outro que já viveste e que viverás?

Se não te dissessem que logo à noite seria "passagem do ano", para ti seria simplesmente apenas mais uma noite à lareira, sem nada de extraordinário para acontecer por ser a passagem da noite para o dia. Se não te ensinassem, se não vendessem a ideia de "novo ano", de um "novo ciclo", da conclusão de um círculo, de uma "etapa" da vida, para ti, tudo seria para sempre contínuo.
Só que o contínuo não vende. Viver todos os dias como uma melhoria do dia anterior, não faz parte desta nova natureza humana que "vive" e "respira" de ciclos que pode concluir, ou tentar concluir, durante 365 dias.


Essa é a minha convicção! Viver todos os dias de forma serena, sem obrigações para comigo e deixar seguir. Como um Neanderthal a apreciar o que a vida me dá. Tenho tempo, tenho dinheiro, tenho liberdade. Não festejo dias, festejo isso sim, silenciosamente, as minhas vitórias, os meus pequenos objectivos que com os anos me levam e me transformam. Que me colocam precisamente onde eu quis estar à anos atrás. Eu não luto mais porque sou um "calmeirão", porque quero saborear tudo à minha volta. Eu evoluo, cresço, aprendo e exijo de mim quase todos os dias, para que um dia me transforme precisamente na pessoa que sempre quis ser ou alcançar a maturidade de projectos ao qual sempre dei muito de mim.
Não festejo natais, nem ano novo, páscoa, carnaval, e qualquer outro dia; pois para mim todos os dias são dias novos em que aprendo e melhoro quem sou e o que faço.

[Boy holding teddy bear - Pintertest]

Não há para mim, através da minha linha de pensamento, razão para festejar o lusco-fusco da rotação da terra sobre o Sol. E é sobretudo absurdo que 29 de Fevereiro, que só acontece a cada 4 anos, não seja festejado com a mesma intensidade que o dia de Natal ou Ano Novo, ou até mesmo o Carnaval e a Páscoa. Mas como sempre: o que não vende, não interessa.

Mas acima de tudo, sabem o que isso significa!? A vossa vontade de festejar? De que não são felizes verdadeiramente. De que todos os dias não tentam sorrir, ver e aprender com vontade de um dia serem melhores, de ensinarem melhor.
Significa que precisam de "resets" na vida ao invés de re-escreverem a forma como são. Vocês não tentam melhorar, não tentam amadurecer, tentam pôr pensos por cima de feridas mal cicatrizadas e que lambem vezes e vezes sem conta, todos os dias. Não estão em paz, satisfeitos e realizados com aquilo que alcançaram. Mas tudo o que precisam de saber é reconhecer de que podem começar com passos pequeninos em direcção ao que desejam, e não falo de metas nem de objectivos; Falo da vontade de serem algo que ainda não sabem como ser mas que o desejam. A vontade de ter e de conquistar algo que sempre tentaram ou que sonharam fazer o resto da vida.

Não precisam de um ano novo para começar a fazer as coisas, precisam de vontade! Poderia dizer-vos todos os dias, durante 365 dias do ano, para lavarem os dentes 3 vezes por dia, que não iria fazer nenhuma diferença a longo prazo. O verdadeiro segredo está no exacto momento em que decidirem vocês mesmos! Porque não é esperar que o filho nasça para começarem a ler livros sobre bebés e crianças, é fazê-lo antes! É prepararem-se! É anteciparem-se!
Se não vêm a vida como um pergaminho que se desenrola debaixo dos vossos pés, cobrindo o caminho que seguem, e no qual escrevem todas as conquistas e derrotas que experiênciam, qual é o propósito de estarem vivos sequer!? Qual é a razão de sorrirem e festejarem se não usam o passado, as vossas experiências boas e más para construir um futuro melhor que tenham prazer e felicidade em viver? Não fujam do vossos passado, e também não te estou a pedir para o abraçar, mas apenas para o aceitar de que foi e é um marco importante na tua vida, muito possivelmente até uma das melhores piores coisas que te aconteceu para poderes hoje estares onde estás. Se usaste o teu passado para lutar e exigir de ti mesmo, não te esqueças que o futuro são só mais 24h das quais não controlas mas que poderás beneficiar a longo prazo. Porque outro dos segredos, não é fazer tudo num só dia, e tornares-te e realizares os teus "sonhos" numa questão de horas ou semanas. Essas coisas demoram anos!

Tu festejas o ano novo? Com bebidas e fanfarras? Eu prefiro lutar todos os dias e celebrar em silêncio, em segredo, todas as derrotas e conquistas que alcanço de tombo na minha vida.

Porque eu nunca erro ou perco. Ou aprendo ou conquisto!