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segunda-feira, 28 de maio de 2018

Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [51]

[We just bought it! - Pinterest]

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Um raio rasgou o céu, de uma ponta da casa à outra, iluminando a violência do vento e da chuva para lá das amplas janelas. O chão tremeu. O som entrou pelos ouvidos como uma locomotiva em descarrigalamento.
De entre a fúria da natureza, surgiu o tom azul e logo de seguida um tom vermelho. Piscavam cores lá fora. Abri a porta de madeira, inchada e pesada, as dobradiças deram sinal de horrores e a miúda tentou desprender-me os dedos da sua pequena mão. Era escusado ter medo do que desconhecia se nunca lhe desse uma oportunidade... espreitei com a garota à frente e vi uma figura feminina, fardada, sair do carro de pistola em punho. Escondia-se por trás da porta, sob a chuva gelada, com os relâmpagos a cair atrás de si.
Conseguia sentir a difícil respiração daquela agente, sobre as toneladas de água, os barulhos rasgados e as vibrações sonoras que se acompanhavam de um espetáculo de luzes.
-- Se queres viver volta para trás! -- gritei-lhe com a arma apontada à criança chorosa, com a mãe a arrastar-se ensanguentada em plano de fundo.
A agente aproximou-se, cuidadosamente.
-- Larga a arma e solta a criança! -- gritou-me, com um paço firme.
-- Jéssica... querida! -- descobri-lhe no rosto.
-- O que fazes aqui!? -- parou, surpreendida, com o dedo ainda no gatilho.
-- A acabar um serviço, e tu? -- sorri-lhe, olhando Joana.
-- Fui chamada devido a assalto e tentativa de homicídio.
-- Vieste à casa certa!
-- Hã? Porquê? -- perguntou de arma apontada para o chão, lançando o olhar entre mim e a garato, e a mãe que tentava pedir ajuda numa voz já sem força.
-- Vais-me ajudar a arrumar esta desgraça toda ou...?
-- Que valente merda que tu fizeste!!! -- gritou-me. Num só movimento, empurrou-me para trás, quase como um soco no peito.

Entrou, furiosa, arrumou a arma, e olhou em volta. No momento em que seguiu o rasto de sangue da mãe galinha, parou a marcha. Digeriu o rasto de destruição por toda a sala. Pintado no chão, nos tapetes, nos móveis virados, no sofá ensaguentado, nas mulheres de corpo e alma destruidas. Enraivecida, voltou a atenção para mim, de mãos nas ancas.
-- OLHA-ME SÓ PARA ESTA MERDA!!! VÊ O QUE FIZESTE!!! Não sei se te consigo safar desta... Pedi-te para não voltares a fazer mais nada do género, e nem um ano passou e voltas ao mesmo!? Eu devia-te ter prendido logo na primeira vez! Mas és meu irmão... ODEIO-TE TANTO!!!


Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [52]
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sábado, 1 de julho de 2017

A corda que trago em mim...


Olha para a minha gravata. Vês o negro que se abraça à volta do meu pescoço? É feito da mesma escuridão de onde vêem os meteoritos. Este nó apertado à volta da respiração, traz um fogo até aos pulmões, onde são abotoados pela camisa às riscas de linhas delineando as curvas do meu corpo.

Despir o casaco, permitindo à luz dos teus olhos crescer de desejo. A camisa, inquieta a vontade de me tocares. A respiração que se realça no peito apertado pelo tecido, provoca a aceleração do arfar, da respiração calórica que te escorre em suores frios de prazer pelo pescoço até às mãos suadas e sedentas.

A grava-ta alarga-se, e aproxima-se ao corpo dos teus sentidos. Cai ao chão, ela e as tuas pernas. Queres um beijo? Recebe o toque e sente o olhar que com a mão na face te os guia a mim.
Sinto os tremores no teu corpo quererem subir pelo meu braço. Recompõem-te, espera, limpa a boca, em breve estarei tão junto de ti, que respirar te será dificil. Mexer, um esforço. Este peito que te elouquece, amarra-te numa dança que perdes a cada músculo preso por mim na corda que é a minha lingua.

Esta gravata, é o inicio do teu prazer mais transcendente...
Agora que te enforca, vou-te despir.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [50]

[Stepping in her body - Pinterest]

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Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [49]

-- O que queres de nós? Dinheiro?
Soltei uma gargalhada.
-- Achas que me faz falta o dinheiro? -- respondi.
-- Não toques na Joana! Ela não te fez mal nenhum! -- gritou-me a mãe.
-- Não te preocupes com a Joana, a filha da nossa querida Madalena vai-lhe fazer companhia!
A cara dela ficou vermelha de raiva. A fúria crescia visivelmente nas veias dos seus braços, no arfar cadenciado no seu peito e atirou-se a mim como se a vida da filha dependesse daquele momento. E dependia. Mais ou menos...
Com um murro bem calculado, atirei-a ao chão, através do estômago. Contorceu-se e cuspiu-se toda, sentido as entranhas arderem por dentro.
-- Não te preocupes querida Madalena, a tua filha vai seguir o mesmo caminho que a mãe. O de puta!
Ela não respondeu, limitou-se a cair ao chão encolhida em dores. Tentou balbuciar qualquer coisa, mas nem conseguiu abrir a boca.

Ouvi a porta da casa de banho, do piso de cima, começar a bater novamente. A voz de Joana estava distante. Os relâmpagos caiam lá fora e a chuva abafava qualquer som que viesse de dentro de casa. Ninguém estaria perto o suficiente para ouvir gritos, tiros, moveis a cair e vidros a partir. Apontei a arma à amante de Jesus Cristo e os olhos focaram-se na minha arma. O medo cresceu lentamente em volta dos seus olhos, à medida que o chão tremia debaixo dos meus pés.

Disparei.
Gritou.
Sentiu uma dor no ombro.

Caminhei até ao andar de cima, arrombei a porta com o pé, depois de muito tentar dialogar com uma mulherzinha cheia de medo de mim, mas não adiantou. Agarrei a criança por um braço e empurrei-a para que fosse à minha frente. Chorava, desconsoladamente, sempre olhando para trás, por cima do ombro. Foi então que correu desenfreada pelas escadas, numa tentativa de me fugir, mas uma bala alojou-se a poucos metros mais abaixo, ultrapassando os seus pés rápidos e parou; Como uma estátua ficou imóvel. Ali, no meio das escadas.
-- JOANA!!! -- gritas-te tenebrosa. Nesse momento nem os relâmpagos tem faziam jus à força da voz. Foi revigorante sentir o timbre feminino aflito descer-me pela espinha.
-- Joana, Joana, Joaninha...  -- chamei, descendo degrau a degrau, soletrando cada palavra em cada passo. -- Se não te portas bem, a próxima será na tua mãe. -- avisei. Agarrei-lhe no punho, e trouxe-a até à sala. Deixei-me ficar no hall, para que mãe e filha se olhassem.
-- Minha filha! Querida!
-- Vamos todos dar um passeio? -- perguntei às mulheres. -- Queres ir dar um passeio Joana? -- questionei, erguendo-lhe o pulso para que tomasse atenção ao que dizia e me olhasse nos olhos.
A face vermelha acagaçada de medo, de olhos pequeninos e quase sem brilho olharam-me e cruzaram-se de novo com os da sua progenitora. Chorou nesse momento, enquanto a minha mão a apertava e arrastava para longe da mãe galinha.

Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [51]
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quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Intensifica-o, e tudo o resto se desmorona...

[Death white Cow - Pinterest]

Hoje, o mundo morre um pouco mais, e eu choro mais do que nunca. Ficando a garganta entupida de soluços sofridos. O peito arde e a dor cria um terror medonho no meu cérebro. O ar não passa, não consegue entrar, não pode descer, e a combustão intensifica-se nos pulmões.
Há dor maior do que não morrer? Dor maior do que estar vivo?
Há maior pecado que desejar morrer? Desejar a morte do Eu?
As lágrimas desbotam a máscara branca de um carnaval que nunca foi feliz.
Há sofrimento suficiente no mundo para perceberes que a vida nunca deveria ter germinado? Não é suficiente a extinção dos seres vivos para compreenderes que já nada tem valor?
Há algo neste planeta digno de ser amado? Digno de ser apreciado?
Embalo a criança dentro de mim, no colo mais quente e reconfortante que possuo dentro de mim. Ela chora, morre, cai e quebra-se. Nada do que lhe possa dar para tirar as incertezas, o sofrimento e as feridas nos joelhos, a manterá viva pelo sorriso das coisas.
A mascara branca perde a cor, o elástico e deixa de existir com o tempo. O sofrimento da alma enaltece cada músculos do meu corpo. Olhar o horizonte e observar a morte do mundo, em dor, em sangue, num misto de frio e nevoeiro, arranca de mim toda a consciência.
A cinza que me criou, o barro que me deu forma, trouxe com eles um defeito: Medo.

domingo, 2 de outubro de 2016

Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [49]

[Standing on her neck - Pinterest]

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Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [48]

-- Não me mates por favor! -- gritou, berrou, esperneou, enquanto a arrastava pelos cabelos para fora da cozinha.
-- Na cama não gemias tanto... -- comentei, sentindo o peso do seu corpo incomodar-me o cotovelo.
Atirei-a para o sofá e tapei-lhe a boca com fita-cola. Prendi os membros com Zips. Vê-la assim amarrada, de cara vermelha e em pânico acendia uma chama em mim que já não controlaria durante muito tempo. Esta noite será memorável!
Tranquei a porta da frente, ajeitei os cortinados, apaguei as luzes e subi as escadas. A mãe da criança arrastava-se pelo chão, até à casa-de-banho onde a sua filha gritava por si. O chão manchava-se de sangue e a maçaneta da porta movia-se violentamente, sincronizada com a vosita de Carolina.
-- O que quer de nós? -- gritas-te, com raiva, seguindo-se um choro descontrolado e derrotista de ti mesma. Ias morrer, ouvias a Morte aproximar-se.
-- Não preciso de nada vosso, por enquanto. Mas levarei a tua filha comigo...
Vi a raiva surgir na tua cara em volta do nariz e o teu franzir de sobrancelhas. Se não tivesses levado um tiro no ombro, acredito que naquele momento terias tentado atirar-me ao chão.
-- Não abras a porta Joana!
-- Mamã! -- gritou a criança indefesa.
-- És patética. -- levantei-a pelo ombro ferido. Gemeu e gritou de dores. -- Ainda não te convenceste de que não há nada de que eu não possa fazer. Continuas a acreditar que tens salvação. O que pensas? Que um raio vai entrar por aquela janela e matar-me!? -- nos milésimos de segundo que passaram, o quarto iluminou-se com um clarão do exterior, seguido de um estrondo que fez o soalho tremer.
-- MAMÃ! -- gritou a miúda assustada, forçando ainda mais violentamente a maçaneta.
-- Quem diria... -- respondi admirado. -- Joana, se não te calas, EU MATO A TUA MÃE! -- gritei. Os gritos histéricos pararam de imediato.

Sinto a ferida no ombro aprofundar-se e uma dor aguda intensificar-se. Não conseguia controlar o meu corpo com tanto sofrimento. Agarrou em mim, arrastou-me até às escadas e atirou-me por elas a baixo. Senti a cabeça bater em cada degrau. Senti-me um saco cheio de ossos partidos. Não me conseguia levantar.

Deitei-te no chão, atei os braços e as pernas. construí a cena de um crime perfeito e bastava agora dar-te um tiro na cabeça.
Madalena seria acusada de triplo homicídio e ocultação de cadáver, pois Joana nunca mais seria encontrada. Em tribunal, as investigações revelariam que tudo tinha sido um acto de ciúmes, comprovados por emails e telefonemas trocados entre um homem e a patroa.
Enquanto me investigassem, Joana estaria escondida na minha cave, por pouco tempo obviamente, até poder mudar de país e a declarar como minha filha.
Fui buscar a tua funcionária e soltei-a. Estava assustada, vidrada no teu corpo nu coberto de sangue.
-- Estás bem? -- perguntou a amiga.
-- A Joana! Vai buscar a Joana!
Madalena olhou-me nos olhos e pisei-lhe a cabeça com a bota.
-- Ninguém vai a lado nenhum. -- proibi.

Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [50]

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [48]

[Door broken open - Pinterest]

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Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [47]

-- Se lhe tocas... -- ameaçou-me a galinha depenada.
-- Matas-me? -- sorri.
Dei-lhe um tiro no ombro, do mesmo braço que permanecia amarrado, e o pintainho fugiu para o canto de olhos abertos e cara pálida. Ela gritou, sangrou e sentiu a morte pisar-lhe o peito. Aproximei-me dela, do canto da cama e da sua "mais que tudo". Atirou o braço bom às minhas pernas e agarrou as calças. Em vão. Peguei na Carolina, que esperneava desenfreada.
-- NÃO!!! -- gritou óbvia a mãe.
-- Ninguém vos consegue ouvir. Já viste a tempestade lá fora? Está de matar! -- soltei uma gargalhada. -- Se não paras de te mexer a tua mãe leva outro tiro. -- cessou de imediato, com o seu olhar triste colado ao meu e às dores da mamã. Tranquei a miúda na casa de banho, e regressei ao quarto. Lá de baixo, ouço o bater na porta. Espreitei pela janela e vi um 2º carro estacionado à tua porta. A puta da tua amiga apareceu finalmente! Abriu a porta e escondi-me na casa de banho com a tua Carolina.
-- Já cheguei! -- gritou, encharcada e quase despenteada. O chapéu de chuva pingava a entrada da porta, e o vento varria os cortinados. Chamou o teu nome. Procurou-te na cozinha e encontrou a Joana, ainda abalada e a recuperar o fôlego.

Tentei marcar o 112 mas o sinal estava fraco. Ajudei aquela desconhecida a sentar-se na mesa e dei-lhe um copo de água.
-- Quem és tu? O que te aconteceu e o que fazes aqui?
-- Você tem de telefonar para a policia! -- exigiu-me  a rapariga.
-- Não tenho rede! O que fazes aqui!?
-- Corremos perigo! Fuja e peça ajuda! Ele vai mata-la também!
-- O quê? Quem? -- não percebia nada do que esta estranha estava a gritar-me, mas percebia no seu tom de voz e na sua cara que o assunto era sério. Muito sério. Procurei uma faca nas gavetas, mas estavam todas vazias. Para onde raio foram as facas todas!?
-- Onde estão as facas? -- perguntei-lhe.
-- Não há facas na casa? -- perguntou-me, aflita, vasculhando de novo o que já tinha visto.
-- O que se está a passar?
-- Ele veio matar a Carolina e a mãe dela! Não suba, fuja! Fuja e peça ajuda por favor!
-- Ele veio matar a Carolina? Mas quem raio é ele?
-- O homem que lhe ofereceu esse colar!
Foi então que tudo bateu no fundo.

-- Madalena, que surpresa! -- felicitei-a à porta da cozinha, com a faca de novo na mão e a pistola repleta das impressões digitais de Joana. -- Ainda bem que te juntas-te à festa! -- dei um tiro na cabeça da miúda. Madalena caiu ao chão, sentindo a onda de choque no peito e o jato de sangue e cérebro gravar-se nas suas retinas.
Atirei-lhe a arma para as pernas e presenteei-lhe o meu peito.
-- Mata-me!
Sem hesitar, pegou no peso proibido e premiu o gatilho dezenas de vezes até se aperceber que já não havia balas.
-- São cartuchos vazios sua burra de merda! Obrigado por a apanhares, agora tem as tuas impressões digitais... -- contei-lhe, arrancando-lhe o doce das mãos.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [47]

[Red lips - Pinterest]

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Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [46]

-- Porque gritas tanto? Porque esperneias tanto? Tu pediste isto, lembraste? -- removi o pano de entre os dentes. Respirou fundo, sem tirar a olhar de mim, e disse com dificuldade:
-- A minha filha não era para aqui chamada! Conheces a minha rotina, sabes bem que hoje não era o dia mais indicado, principalmente porque Madalena vem cá a casa!
-- Mas minha querida, hoje é o dia perfeito! Hoje é o dia da tua morte...
Ela rasgou as pupilas, num brilho intenso, de choque. As bochechas ficaram pálidas, seguindo-se tudo o resto como um fogo. Enfiei-lhe o trapo goela a baixo e soltou os seus típicos guinchos, enquanto me via sair do quarto, de faca na mão, imaginando o pior. Desci as escadas e abri a porta da dispensa, onde as duas meninas se abraçavam.
-- Vem comigo. -- pedi ao rebento, já menos assustado, de olhos vermelhos e secos. -- Vem comigo, ou mato a tua mãe! -- sussurrei ao ouvido.
-- O que vais fazer? -- perguntou a Joana. Agarrei no braço da miúda e puxei-a para mim. -- O que vais fazer com a Carolina!? -- exigiu num grito.
-- O inimaginável! -- respondi-lhe. De costas para ela, senti uma dor aguda nas costelas. Quase caí ao chão. Virei-me para ela e defendi um segundo murro. A cachopa foge-me entre os dedos e entro numa luta de submissão, e controlo, por uma pequena colher que lhe tiro da mão com um soco no peito. Arranco-lhe o ar dos pulmões, ela arfa de olhos abertos como um cavalo assustado e cai em cima de uns sacos de batatas. -- Desiludes-me! Volto, quando acabar o que viemos fazer. -- Tranquei a traidora adolescente e corri para o quarto principal. Sem esperar, vi o botãosinho ajudar a mamã a tirar as ultimas cordas do braço esquerdo.
A faca reflectiu nos olhos da criança emocionalmente violada.

sábado, 21 de maio de 2016

Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [46]

[Suffocation - Pinterest]

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Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [45]

ACTUALMENTE

-- Não me faça mal. -- pediu docemente limpando as lágrimas do rosto com a sua mãozita.
-- Não querida, claro que não!
-- Não faça mal à minha mamã!
-- Não faço, prometo. -- sorri.

-- Ele seria incapaz. -- reforçou uma voz por trás de mim.
-- Mãe! -- gritou a filha com as lágrimas pingarem nos pulsos apertados pela minha cúmplice. Os olhos embaciados da miúda rabugenta acordavam a minha perversa criatura.
As duas cabritinhas sairam do quarto, e voltei-me para a matriarca da casa. Aflita, regurgitava o pano em gritos abafados, lutando na cama, enquanto a sua "mais-que-tudo" desaparecia no horizonte escuro e ruidoso.
Com os relâmpagos a caírem lá fora, e o vento a dobrar as árvores, a tristeza da mãe camuflava-se na casca medonha da raiva que me perseguia de olhos em chama pelo quarto. Era um farol, que chamava a atenção do meu olhar sobre o seu corpo arfando oxigénio.
-- Não faças essa cara. A tua filha está em excelentes mãos! Confia em mim. Oh espera. Não podes! -- soltei uma ligeira risada. -- Mas agora a sério, a Joana só a foi trancar na despensa. -- aproximei-me da cama. Pousei um joelho no colchão revirado e gatinhei sobre Ti. O teu cheiro vibrava nas minhas narinas. Os teus movimentos arrepiavam-me em prazer. Lutares pela vida fazia-me sentir vivo! -- Anseio este momento desde o dia em que te vi entrar no parque de estacionamento. Oh meu deus! Um diamante! Mas para te matar, o crime tinha de ser bem feito... Estudar-te. Conhecer-te. Assim que conheci a tua Madalena, sabia que Judas estaria por perto. Deves estar a pensar que isto não vai dar certo, porque a tua querida amiguinha vai chegar não tarda. Ligar para a polícia e nós vamos presos e tu ficas para "sempre" a salvo, não é minha totinha? Mas estás tão enganada... Quando ela chegar, vai-te encontrar morta. Vou levar a tua filha comigo, para outra cidade, e a tua Madalena vai ficar com as culpas todas. Vão perceber que te matou por ciúmes. Não achas uma ideia brilhante ter pegado fogo à casa e tu teres-lhe dado a chave da tua? E sabes quem engendrou tudo isso? -- apontei para mim -- exactamente. Eu. O teu assassino!

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [45]


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Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [44]

Aproximou-se da sua primeira vítima, de cigarro entre os lábios e olhou-a, pálida, roxa, sem vida. Pingando da mesa para o chão. Com o telemóvel, tirou algumas fotografias ao corpo. Procedeu depois à remoção da faca, com alguma dificuldade, e poisou-a em cima da mesa com outro material cirúrgico.
Passou-se uma hora até que o assassino voltasse. O carro passou novamente junto ao muro do armazém, travando sobre as pedras. A porta fechou-se. Correu o portão ligeiramente e fechou-o atrás de si.
Joana, sentada na cadeira onde antes tinha estado amarrada, olhou fixamente para o seu professor e disse-lhe:
-- E agora? Como nos livramos do corpo?
-- Vejo que tomaste banho; e que estás a usar uma das minhas camisas... e boxers. -- a aprendiz manteve-se séria, obrigando-o a responder. -- Tenho um forno industrial, antigo, que dará conta do recado. Fica na outra divisão.
A expressão na sua face tornou-se mais suave, e respirou fundo, enquanto olhava para o cadáver em decomposição.
-- Como foi? -- perguntou-lhe.
Joana limitou-se a olhar para o sangue a pingar, impávida, sem qualquer expressão, sem dizer uma única palavra.
-- Está tudo bem? -- toquei-lhe no ombro, mas ela recusou o toque. Vi-lhe então o telemóvel nas mãos e arranquei-o. Ela ficou a olhar muito séria para mim, pedindo-o vezes sem conta. Abri-o, retirei-lhe o cartão SIM e joguei as peças para cima do cadáver. -- Nunca mais tires fotos! Principalmente com telemóveis pessoais! Queres ir presa!?
Ela continuou séria e afastou-se. No espaço de tempo que ela levaria a digerir toda a situação e a acabar de fumar o resto do maço de tabaco que me roubara, eu fiz o que fazia melhor. Destruir um morto. Fazê-lo desaparecer... enrolado em plástico, com as roupas dentro de um saco, incluindo a lavagem dos instrumentos em água e lixívia a ferver. Ela voltaria, já o forno estava ligado e a corpo se derretia como manteiga, espalhando pelo ar o cheiro a carne queimada.
-- Não te tornas algo novo sem deixar algo para trás. Se queres matar, tens de ser paciente. Tens de conhecer-te a ti para poderes manipulares os outros. Se não souberes como funcionas, não podes desmontar a personalidade da tua vítima em pequenos objectivos, que se derrubados na ordem certa ou correctamente, te tornarão no titereiro. -- ela olhou para mim, sentindo na cara o calor do forno. -- Para fazermos isto bem, vais ter de fazer exactamente como eu te digo. Não há erros neste mundo; Pois o mais ínfimo detalhe que nos escape ou erro que cometamos, temos a policia à perna.

sábado, 30 de abril de 2016

A fã...

[Ksenia Morozova - Pinterest]


Aproximou-se da mesa negra e deitou o queixo sobre os braços cruzados. Olhou-me vidrada, com brilho, com sedução, com provocação nos lábios e no inspirar do nariz. Suspirou. Sorrio-me.
-- Adoro o teu cabelo! Adoro... a tua face, e a barba. Adoro!
-- Obrigado. -- respondeu o rapaz claramente inexperiente em elogios.
Os olhos da fã fanática da sua aparência, colavam-se à sua divindade como super-cola. O cabelo liso que lhe caia sobre a pálida face, de maçãs redondas e rosadas de amor platónico, bloqueavam todo o mundo à sua volta. Os ouvidos filtravam o ar e dirigiam toda a sua atenção ao seu ídolo.
-- Costumas ser assim com toda a gente?
-- Não. -- respondeu prontamente. -- Só contigo! -- rasgou o sorriso.
O síndrome de Estocolmo começava a abraçar-me; Sentia-me enfeitiçado pela forma em como me jurava fidelidade. O largo olhar penetrava-me o sangue. O seu perfume reagia vorazmente com os meus sentidos.
Agarrou-me a mão fria com o seu coração quente e o chão desapareceu-me dos pés. Fui sequestrado.
-- Queres ir passear? A mim apetece-me ir passear. Vamos aproveitar o sol! -- puxou-me.
A razão voou, para bem longe, escorraçada pelo distúrbio sinistro da paixão de um amor à primeira vista.

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A partir do momento em que virem a foto original, esta deixará de ter tanto impacto.
E até essa, não será nada comparada com esta.

sábado, 23 de abril de 2016

Até te vais borrar de medo! [2]

[The moment - Pinterest]


Hoje não vais dormir.
Eu sou a besta que guarda as chaves da tua prisão. Vou arrancar-te a pele dos ossos e quando encontrarem o teu corpo, vais estar triturado no fundo de um pântano.
Rasgar-te o sorriso da cara nunca me fez sentir tão em casa. Estás com medo de mim agora? A morte ao meu lado é mais misericordiosa! O tempo será uma tortura.
Junta os teus amigos e vem lutar pela tua cabeça. Levanta os braços, desta não vais parar ao chão, nem ao hospital, mas trouxe um caixão para cada um!
Vou matar o número Um! Caçar o líder da revolução inconsciente e irreverente. Ainda te sentes com sorte? Ainda te sentes com força?
Se entrares na escola, junto o grupo à tua volta, pois eu vou entrar com a manada atrás de mim!
Junta as pedras, que de paus não tenho medo de usar. Protege a cara ou ficarás irreconhecível.
Sou O lobo solitário que te arrancará do coração da alcateia. Sentes o medo tornar a visão turva? Cheiras a morte? Antevês o teu fim? Delicio-me com o teu sofrimento!

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [44]


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Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [43]

A faca atravessava o peito da inimiga, que soluçava sangue da boca, olhando fixamente para o tecto enquanto o frio lhe percorria o peito. Sentia o coração bater cada vez mais devagar e a respiração arfante de Joana mesmo ao seu lado.
Cuspiu-lhe em cima. Olhou para as suas mãos, pintadas de sangue e esfregou-o na própria cara. Tinha libertado o monstro; Encontrado a raiva perdida do seu animal interior.
-- "Vou matar o Gonçalo!" -- decidiu.
Vitoriosa, afastou-se, desligou o aviso do telemóvel e procurou uma casa de banho, em especial com chuveiro de água quente. Despiu-se, evitou confrontar-se no espelho mas foi capaz de reter uma breve imagem de si, da sua cara pintada, das mãos e dos braços salpicados. A água bateu-lhe na nuca, desceu os cabelos e cobriu o corpo em forma de abraço caloroso. Sentiu algo na consciência, um peso de culpa, mas uma grande satisfação na morte. Na raiva extravasada, no ódio infligido, na morte assistida. Os gritos e grunhidos da vítima agarravam-se às suas pernas trémulas, mas a satisfação que era saber que a causa da morte da mãe estava agora morta, que se tinha feito justiça... parecia que todo o peso e saudade do mundo lhe aliviavam as costas, os ombros, as dores de pescoço. O seu corpo renascia. O valor da vida nunca lhe tinha sabido tão bem. O duche de breves minutos libertavam-lhe a mente do casulo, do castelo que fizera crescer. A água lavava da cara não só o sangue mas todas as máscaras que usara até àquele pequeno momento de vislumbre. Tirar a vida, bem merecida, deu-lhe uma razão para viver e saborear. 

Banho tomado, olhou para o relógio: O assassino estava a demorar-se. Junto a uma parede, abriu um cacifo alto, velho e em ferro, onde encontrou um maço de tabaco de uma das vítimas. Ao lado, em pequenos sacos de plástico com fecho "zip", amontoavam-se os bens pessoais das vítimas do seu futuro namorado. Pareciam provas de crime, o que de facto eram! Se alguma vez alguém as encontrasse ou fossem entregues à policia, especialmente as cartas de condução ou documentos de identidade de cada um dos sacos de carne e osso, à polícia, facilmente iriam relacionar as imagens e os nomes com as mais de 30 pessoas desaparecias nos últimos 10 anos.
Retirou um cigarro, com o filtro branco marcado por batom, e acendeu-o. O prazer inflou-lhe o peito, em cada um dos pulmões, e com o fumo a querer sair expirou uma epifania que lhe subiu ao cérebro. Segregava tanta dopamina com um só "travo" -- do cigarro -- que o prazer da acção se associava à memória curta: os olhos perderem o brilho e a cara estagnar numa só expressão.
Olhou para trás, para a montra da morte, e com um certo escárnio nos olhos odiou o corpo defunto, de lábios roxos.
As câmaras continuariam a gravar até deixarem de ter espaço no cartão de memória.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [43]

[Classy B&W - Pinterest]

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Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [42]

Matar alguém é difícil, principalmente para quem nunca matou, como a Joana. Mas como se costuma dizer: "Só custa a primeira vez." Depois do hábito, cresce a facilidade de controlar os sentimentos que nos gritam "Não!", mas tudo se estranha e entranha. Nem todos são assassinos, mas eles descobrem-se com facilidade quando se olha para eles nos olhos. Quando se sentam na esplanada sozinhos, a olhar para as pessoas.
Matar alguém é fácil, o sentimento de culpa que vem a seguir é a pior parte. Eu? Tive sorte. Não me foi difícil ver matar, nem ver morrer. Não é difícil imaginar nem as ouvir gritar. A vida deu-me a dádiva de saborear as palavras chorosas, os corpos pálidos e as mãos ensanguentadas. É fácil para mim recordar as caras delas, mas o hábito mata o prazer, que exige cada vez mais de mim. Olhando então para esta loira, que desabafa a dificuldade da amiga, excita-me de uma maneira tão penetrante e provocante, só usando a sua voz e a maneira como usa a cara, o corpo e as mãos para comunicar, que a vejo cada vez mais como uma escrava e rainha da minha consciência, das minhas ideias e desejos. Esta mulher vai ser a minha morte!
-- ... tiveram-me a dizer da seguradora que vão demorar alguns meses a apurar o que aconteceu. Activar seguros, falar com os bancos, com a segurança social e mais não sei o quê, que não percebi bem, e sugeriram-lhe para ela ficar em casa de algum familiar mas...
Olhei para ela com um ar de desconfiado, sentindo-lhe na voz que não estava muito contente por ter a "amiga" na sua casa, sabendo que poderia haver conflitos de mulheres por eu namorar a patroa, e a filha da Madalena ser uma má influencia para a sua filha mais nova.
-- Mas...? -- perguntei, incentivando-lhe as palavras a sair da boca.
-- Mas eu estou contigo. Gosto da nossa privacidade, e a filha dela não é um grande exemplo para a minha filha em termos de comportamento. Estou a falar da filha mas a mãe também não é nenhum exemplo! -- vincou a opinião dela.
-- Talvez seja bom para ambas. -- tentou contrapor, mas parou para me continuar a ouvir a opinião. -- Talvez a Madalena e a filha dela precisem de alguém que as guie. Afinal de conta passaram por algo traumático e esta é a melhor altura para poderem aprender com este erro ou consciencializarem de que estavam a ir por um mau caminho. -- olhei para ela, duvidosa das suas decisões e finalizei. -- Não tens nenhuma obrigação para com elas. Não és mãe, és só uma amiga do trabalho, que por acaso também é patroa, mas um líder tem de dar também um pouco de si. Vez as coisas por esta perspectiva: Se tu algum dia precisares de um favor, ela não hesitará em fazê-lo porque... tu deste-lhe um tecto e ajuda quando ela mais precisava. Basicamente deve-te a vida. Por assim dizer. Estarás a usá-la, mas também é para o teu bem. Estás a sacrificar a tua privacidade, as tuas coisas, o teu tempo e paciência, para a poderes ajudar. Afinal de contas, vocês são amigas certo? Gostas dela apesar de ser uma chata, de não pensar bem nas coisas que faz mas...
-- Sim, é minha amiga. -- confirmou, com uma expressão menos preocupada no rosto. -- Tens razão. Estou a ser invejosa. Desculpa, tens toda a razão.
-- Estou só a tentar ajudar. Esta situação também não é fácil para ti. E não te esqueças de lhes dizer as regras da casa. Precisam de ajuda, sim, de serem guiadas, mas também de ganhar uma rotina, ganhar... Regras pessoais. Percebes o que quero dizer?
-- falar com ela era tão fácil como falar com uma criança a leste do mundo que os adultos vêm mas que as crianças têm dificuldade em compreender, em antever. Digamos que eu via todos os detalhes da pintura, e ela apenas as figuras.
-- Sim. Obrigado por tudo isto. Fui apanhada de surpresa e com este último trabalho, cheio de exigências... -- bufou, num suspiro. -- que mês! -- desabafou em stress.
-- Vá! -- aconcheguei-a. Aproximei-me mais do seu corpo, confortável num casaco preto e vestido vermelho. -- Estás a fazer um excelente trabalho. E conhecendo como te conheço, vais gerir bem estas confusões e contratempos. -- abracei-a. Ela respondeu com um olhar feminino, submisso. Beijou-me e completou o abraço.

Agora... Como estará a minha "boca de boneca"?