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terça-feira, 6 de dezembro de 2016

O pai não sabe, mas vamos procurar e aprender os dois...

[Little girl reading - Pinterest]

Existe algo de diferente em ti. Não neste momento, ou neste dia, mas desde que te peguei pela primeira vez. Os olhos azuis que herdaste da tua mãe expandiram-se como o universo, e tocas-te-me por dentro, como um dedo no coração, curiosa.
E vendo-te na nossa cama, debruçada sobre uns livros que comprei há anos a pensar neste preciso "agora", te vejo completa. Um sonho realizado. Uma batalha incessante para que cresças rodeada de estímulos, de risos e sorrisos, de bons e maus exemplos. De oportunidades para ver e aprender. Viver!

A tua mãe novamente me dirá que penso demasiado, que me preocupo demasiado, que te encho de mimos e atenção, que te estrago de certa forma. Mas um dia quando tiveres a consciência daquilo que foste, daquilo que recebeste, daquilo que fizemos juntos, prefiro que estejas farta do meu carinho, do que negligenciada, abandonada e mal amada.
Prefiro estar contigo todos os dias da minha vida a teu lado e deixar-te aventurar sabendo que estou por perto. Tenho medo de te perder. Medo que te percas nos sofrimentos que passei; Mas o mundo não é cor-de-rosa; Não é bonito, nem simpático.

Tira só mais um livro querida. Pergunta-me, explica-me, mostra-me! O pai também quer aprender a forma como vês o mundo. Lê, escreve, desenha, pinta! O pai ama tudo o que crias, tudo o que imaginas, tudo o que inventas nesse mundo fantástico que não acaba.

Ama. Aprende.


quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

As saudades de um tempo...



Crepitava a lareira quente e confortável, aos pés de um sofá ocupado por um homem de grandes barbas brancas. De cachimbo na boca, respirava levemente, apreciando o momento que se fazia acompanhar pelos seus dois netos, um casal de gémeos, tímidos e aventureiros, mas naquele preciso momento, olhavam o seu avô com muita atenção, à espera de mais uma história mágica com um moral que levariam para sempre nas suas mentes.
O fogo dançava, sobre o olhar do velho cansado que descansava os olhos daquele fatídico dia de prendas e surpresas. As crianças olharam-se entre si e, sem exigir histórias ou atenção, deixaram-se levar pela lareira que o seu avô acendera logo pela manhã, para aquecer a casa, de troncos grandes e secos; O aconchego daquele quadrado reluzente, que iluminava uma sala quase às escuras, levava a sua mente a imaginar contos e fábulas, lidos pelos seus pais à hora de dormir.
Não havia televisão, telemóveis, consolas de jogos ou tablets. Aquele pai natal, mesmo que cansado e parcialmente barrigudo, proporcionava-lhes uma diversão que anos mais tarde lhes chamariam: Nostalgia.

O poder mais forte que existe! Não há amor que se equipare, perfumes ou músicas que tenham a mesma força quando usadas sozinhas. A nostalgia, as nossas recordações de infância, são o ponto máximo do nosso amor, do nosso desejo, na futura educação aos nossos filhos, e o respeito pelos sentimentos e memórias dos outros.
As saudades de um tempo... em que o pouco valia tanto!

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Clepsidra I


A lua espreitava por entre os cortinados semi afastados entre si, esvoaçando com a brisa quente que fazia lá fora, aquecendo o ambiente do quarto perfumado de incenso. Ouvi a maçaneta da porta, e surgiste por trás dela com um sorriso e o cabelo quase seco depois do banho. Atiraste a toalha para cima da cama e caminhaste confiante até mim. Beijaste-me, enrolando os teus braços à volta do meu pescoço.
«Quero-te…» - sussurraste-me ao ouvido, molhando-o.

Sabíamos que se tratava de uma posse vertiginosa de nós. Querermo-nos em nada constituía Razão, era uma busca infindável daquilo que ultrapassa o mundo lá fora, que observava-mos atentamente. E perdíamo-nos como as luzes movimentadas dos carros e das estações de comboio sobrelotadas.
«Tens-me!» - pronunciei-te igualmente ao ouvido. Passando os lábios pelos teus cabelos cujo aroma se confundia com a fragrância ambiente do quarto. Estava escuro. A minha mente iluminava-se de ti. Nada mais somos do que aquilo que sentimos. Os meus dedos estremecem quando te sinto. Sou o estremecer de ti.
O homem do correio chegara e eu despia-te a pele, afogando-te em pétalas de beijos e abraços por toda a tua essência visível. Ignoramo-lo. Que interessavam as cartas? De que nos serviam as palavras quando nos marcávamos daquele modo tão clemente?
Senti que te escorria veneno por entre as tímidas pernas, enquanto te elevava contra a parede que te arrefecia delicadamente a coluna vertebral perplexa de prazer.

Olhavas-me nos olhos, controlando-me as mãos na parede, impedindo a satisfação do tacto. Beijavas o meu peito, sentindo-o na tua pele suave. Sorriste. Levaste a boca ao meu pescoço e mordeste-o de prazer. Um súbdito acorrentado às tuas garras provocantes que me provocavam numa intensa sedução física. Ajoelhaste vagarosamente, serpenteando o teu peito explícito, acelerando o meu coração. Sentiste-o bater forte e quente na mão, que me enregelou. Lambeste a ponta do gelado e devolveste de novo as minhas mãos à parede. Ergueu-se e caiu sobre a tua língua que o esperava.

O carteiro bateu de novo e vi a sua silhueta afastar-se da porta, espreitando a janela aberta. Não sei o que acreditou ter visto. A tua cabeça movia-se, lubrificando horizontalmente a peça importante do meu ser que te enchia de uma energia invisível potente e carente. Olhei para ti, e vi o azul do controlo penetrar-me. Imóvel, tentando partir as correntes em que me deixavas, ouvia a saliva e o ar sair-te da boca, imitando uma lambidela apressada a um gelado que se derretia nas tuas mãos agora quentes e confortáveis.

O estafeta afastou-se. Finalmente livre, beijei-te a boca, sentindo o sabor que resistia nos teus lábios. Troquei de posição contigo e de mãos no teu peito, acariciei a seda limpa pelo lago de onde surgiste. Beijei-te os seios, saltitando por eles até à barriga, segurando-te firme pelo rabo. Beijei-te o pescoço, acalmando os ciúmes ao irmão do lado oposto a quem dei um presente húmido. Rocei-te a barba na delicada tez de ti e agarraste-te a mim, marcando o momento com os vergões vermelhos da tua suplicia vibrante. Despi no teu peito, uma massagem que te aquecia para uma corrida a que já me havias deixado preparado. Dissequei o teu corpo com a ponta da minha língua e cozi o que restava dele com a ponta dos meus dedos frios que te arrepiavam o sensível paraíso que transformaria o santo que sou num diabo eloquente, incapaz de resistir ao doce carnal que escondias timidamente de mim.

Suspiros. Berrávamos o silêncio que ninguém podia escutar. O libido transportava-se exteriormente às paredes pacatas daquele canto. E o canto das aves apoiava-nos com uma força cobiçada. Deixei-a cair em rios de mim. Os rios levavam ao mar que eu tanto queria mergulhar e emergir nela como se lhe fosse os braços, as pernas e a camisa que agora lhe vestia delicadamente. Escrevíamos rosas e violetas em jarros de porcelana chinesas e as abandonadas camélias invejavam-nos. Adormecermo-nos era como despertar para a realidade que não nos queria felizes. O estremecer transformou-se na clepsidra que indesejavelmente tomava-nos em cada amanhecer da vida. Arcadas de beijos. Também te quero assim.

A respiração soprava ao meu ouvido, cansada. Deitada para mim, deixavas-te adormecer numa morte que nos unia no meio dos lençóis. A temperatura do teu corpo subia em cada pedaço de sonho que partilhavas com um toque brusco dos teus dedos no meu braço. O fogo do meu sangue, extinguia-se, esquecido por mim que te maravilhava a face de sorriso confortável. Ver-te adormecer no meu regaço, ao som mudo que se desligava em candeeiros, transportava-me em viagens cujo único destino seriam os teus braços. Fechei os olhos e adormeci, partilhando um sopro dessincronizado. Toquei-te levemente e ali me deixei ficar.

domingo, 1 de junho de 2014

Selei com um beijo...



Sentia a gravata apertar-me a camisa contra o pescoço e uma impressão digital, em forma de peso, nos meus lábios. No peito, o meu coração batia nervoso, recordando-me do sorriso gentil que me lançaste no dia em que te vi pela primeira vez, com o sol a iluminar-te a cara e a reflectir no teu corpo. Ainda me lembro das aventuras, dos sorrisos, das surpresas e dos presentes. Eras mágica! E fizeste-me teu príncipe, enfeitiçando-me a mente com a tua sedução, as tuas mordidelas, os olhares que me fazias à distância e as caretas que me animavam. Reconhecia-te na multidão, mesmo de costas, e abraçava-te sem nunca te perder de vista.
A melodia começava, devagarinho. Os pássaros cantavam e as flores acordavam. Estava na hora. Na porta de entrada vi uma rainha de branco. Sorrias para mim, nervosa, sem nunca perder o brilho contagiante que salpicavas por todos os que te viam desfilar levitando. Estavas magnifica! Elegante e com o mesmo balançar na anca que me deixava louco por ti. Estava entusiasmado e não via a hora de a festa acabar e te levar para o nosso paraíso, onde as águas cristalinas banhavam a praia que chamava por nós e o sol se acanhava um pouco para não nos queimar de amores.

Selei com um beijo nos teus lábios, a promessa que desejava cumprir desde o dia que te conheci. Fazer de ti minha esposa, de anel dourado que te abraçava a mim e me manteria junto de ti. Promessas que fazias com um simples olhar, um pequeno gesto entrelaçado nos meus dedos, uma caricia pela minha cara, a tua presença ao meu lado devorando um livro e sonhando com o futuro, vivendo o presente, com um descalçar dos sapatos à porta de casa e uma massagem nos pés num momento de carência e exigência. Bela! Graciosa! Provocante e deliciosa.

És a melhor prenda que o mundo alguma vez me deu.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

O viajante solitário...


Hoje (22-05-2014), tive um sonho, que tinha tido quando era muito pequeno. Cerca de 4 a 5 nos de idade. No tempo em que ainda dormia no quarto gigante com os meus pais e o meu irmão, cada um num lado da cama. Lembro-me de dormir sempre o lado direito, para quem olhasse de frente para ela (cama), apesar de o meu pai me garantir que todos os dias trocávamos de cama. Segundo nos veio a dizer mais tarde: Conheceu um senhor que na altura em teve filhos, dormia também com cada um do lado da cama. Mas, com o tempo, foi-se apegando mais ao filho que dormia do lado dele do que dormia do lado da mãe. Como o meu pai não queria que isso lhe pudesse acontecer, trocava-nos; Daí a explicação para um acto que podiam achar "estranho".

O sonho em si, talvez não vos diga nada, mas como vejo as coisas de maneira diferente e tento examinar tudo o que me rodeia, vejo, ouço, digo, sonho, vou ter mesmo de pôr por escrito aquilo que vi e porque razão este sonho, há muito esquecido, me é tão... intrigante.
Poderia dizer que era só mais um dos sonhos recorrentes que todos temos ao longo das nossas vidas. O que é perfeitamente "normal", e há até quem estude isso, como é abordado no documentário "NOVA - What Are Dreams?". A primeira coisa que me surgiu à cabeça, foi um sentimento de déjà-vu. Eu próprio me apercebi de que reconhecia o sonho, aquele cenário e mais importante ainda, das emoções.
Bom, terei de dizer que segundo neurologistas, os déjà-vu são um erro do cérebro. Eu não acredito que o meu cérebro tenha erros ou construa falhas. A nossa capacidade de nos relembrar-mos de certas cenas e emoções, esta directamente ligada à memória e à previsão de eventos, o que é imperativamente importante para a nossa sobrevivência. Portanto, dizer o que cérebro tem falhas a esse ponto de déjà-vu, é para mim um erro.

O sonho transportava-me para o interior de uma nave oval branca, como uma espécie de bola de rugby, mas todo o interior estava vazio e o chão parecia feito de azulejos quadrados mais ou menos do tamanho do meu pé. Tinha algo como 14/16 anos, e conseguia ver o universo através de amplas janelas. Não sabia se a nave estava a andar, porque tudo lá fora parecia parado. Um sentimento de solidão abatia-se sobre mim. Estava sozinho. Não ouvia vozes, não existia mais ninguém. Não havia quartos, balcões de cozinha, mesas, comida. Apenas eu, dentro de uma nave ao qual não sabia o destino.
Numa idade em que nunca tinha visto filmes de guerras espaciais ou sobre o universo, apesar de o meu pai me falar disso e possivelmente ter visto alguma imagem na capa de um livro, não tinha o conceito de viajem no espaço ou sequer de uma nave, apesar de reconhecer que conhecia muito bem a sensação de abandono e solidão. Foi um sonho muito vivido na altura, apesar de não o compreender quando acordei. Hoje, quando voltei a sonhar com o mesmo, senti exactamente os mesmos sentimentos. Principalmente a de vazio. Sei que é difícil compreender, e ainda mais difícil é para mim explicá-lo, mas quer eu queria acreditar quer não, isto, não foi um sonho, mas uma memória de uma vida passada. Não, não sou uma reencarnação, mas este sonho é tão intenso, tão real, tão emocionalmente detalhado, que quando acordei, julguei tratar-se de uma memória verdadeira e não só de um sonho que tive quando era criança.

Este viajante solitário, numa nave desprovida de ornamentos, relembrava-me o filme "2001 Odisseia no Espaço", baseado num livro com o mesmo nome, escrito por Arthur C. Clarke. Um filme que viria, muito pouco, já depois dos meus 14/16 anos, e finalmente aos 22 em mais detalhe. Percebi hoje mais tarde, de uma possível explicação para o sonho. Este viajante nunca poderia ser um organismo orgânico, porque não havia comida na nave, e muito facilmente sucumbiria à paranóia do silêncio e da inexistência de contacto físico, tão característico e necessário nos animais. Seria um robô. Uma supra-inteligência que vagueava pelo espaço, de estrela em estrela, de planeta em planeta, à espera do Big-Crunch. Seria um viajante, construído à milhões de anos por uma espécie já extinta. Um viajante sobrevivente a alguns Big-Crunchs, e que existia com um único propósito: Repopular os planetas. Talvez dê um livro, e posso dizer que já o ando a escrever à algum tempo, mesmo antes de ter este sonho. Foi uma inspiração, não haja dúvida, mas também um momento muito estranho para o meu cérebro, para a minha personalidade e percepção daquilo que é a realidade, as memórias e os sonhos.


Um aparte:
Sonhos são uma outra dimensão "física". Quase como um "13º Andar".
Ou serão histórias criadas por nós, para ocultar o que realmente se fez do outro lado?
Outra teoria é a de que nos sonhos, todos nos juntamos.
Serão memórias de vidas passadas?
Talvez também uma maneira de manter o relógio biológico actualizado?

Fui capaz de dissecar o sentido emocional e psicológico de dois sonhos, e todos tinham uma razão. Todos me fizeram re-viver emoções ou aprendizagem, como acontece no dia-a-dia. Cada conversa, cada expressão, cada cena e cenário tinham uma razão psicológica de ser. Como já o disse: mostravam-me coisas que já tinha vivido, visto, ouvido, e situações de interacção humana.
Acredito que sirvam para nos ajudar a continuar a evoluir, errar e aprender. Servirão também para nos ajudar a compreender melhor um problema, visto que o nosso cérebro está mais imaginativo e mais activo durante os sonhos.
Não estamos a dormir, estamos a evoluir.
É também uma forma de treinarmos as nossas capacidades para lidar com situações de stress, violência, vergonha, saudade e felicidade. E podemos revivê-lo várias vezes, sem nunca morrer realmente.

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terça-feira, 13 de maio de 2014

Não são sonhos...


Os horrores que dizes sonhar, que dizes ver e imaginar durante a noite, não são imaginações ou fantasias que desconheces a origem. Não foi um sonho, foi uma experiência que viveste. Estiveste lá. Foste a personagem principal e sentiste no teu cérebro todos os arrepios do corpo. Sentes a tristeza, a saudade, o ciúme, a ansiedade e o medo. Não são apenas sonhos, são memórias do teu outro eu, perdido algures noutro universo. Não são previsões, são o passado de um eu que não recordas. Que não te faz mas que se torna e vai tornando, na fantasia irrealista da vida que levas de olhos abertos. Aquilo que és não existe nesta escuridão que te surge de olhos fechados. Não cresce, mas morre, perseguido e afogado, medroso e ranhoso, fugitivo para sempre do teu próprio Eu, que não sabes ouvir ou ver. É de ti quem foges quando te perseguem.

Não são invenções "estranhas" na tua cabeça. São emoções e recordações do monstro horrendo que foste antes de fechar os olhos, e na personagem dos sonhos dos outros cada vez que os abres. Não existes verdadeiramente, até sentires na garganta o sopro da vida e o medo em forma de adrenalina acordar o teu corpo do sono profundo, que muito lentamente, deixaste substituir a realidade ilusória. É uma falsa ideia que te cresce na mente, e não a criação de liberdade. Não são teus, porque nunca foste verdadeiramente deles.

Encontrei beleza na escuridão...

domingo, 15 de dezembro de 2013

No limite da imaginação...



Cada passo me aproximava mais da entrada guardada por dois vultos encapuçados. O chão liso reflectia a minha figura de forma desfocada e o vidro fosco pintava-se de branco. O corredor pintado de leite, apertava-se sobre mim, pesando nos ombros como um arrependimento agudo. A consciência ficava para trás, deixando-me em piloto automático, incapaz de delinear uma ideia sobre o que estivesse no fim daquela caminhada iluminada. Era quase como se o mundo termina-se naquele rectângulo impenetrável pela minha mente, e me fizesse entrar numa dimensão irreconhecível por todos os sentidos evolutivos que me trouxeram até aqui. Sentia em mim mesmo, a estranha sensação de que o que quer que eu fosse, de onde quer que eu tenha vindo, a evolução de uma espécie, não faria o menor sentido ali dentro. Como um caracol que rasteja pelo chão sem nunca vir a saber onde se encontra.
Os vultos, rapidamente se confundiam com o preto pesado dentro daquele hall de entrada, desaparecendo por completo a já escassos metros, acabando por serem trocados pelo som forte de chuva a cair. Nos vidros bateu uma rajada de vento, seguido de um grande tufão. Perante uma fuga irracional que fervilhava sobre os meus pés e pernas, olhei o interior receando o desconhecido. A violência no exterior, para lá das janelas que escondiam o perigo sem rosto, entrava tocando os trovões pelas minhas costas, fazendo desenhar na minha imaginação um comboio em rota de colisão. O corredor tornou-se cinzento, as suas paredes racharam em fissuras sugerindo tijolos velhos que acabariam por desaparecer numa escuridão infinita, sem tecto ou chão. A parede à minha frente, levemente como o bater de asas de uma borboleta, transformou-se num céu estrelado, aproximando-se depressa de uma grande nuvem dourada de pós de estrelas.
Um arrepio cerebral efervesceu no meu peito, deslumbrou-me a mente. Fascinou-me. Conquistei o espaço em volta com o meu olhar e percebi então o segredo daquele quarto misterioso no momento em que os dois vultos voltaram a aparecer diante de mim.
-- Não posso fazer mal, pois eu não sei o que é. A vida é apenas uma visão. Um sonho... Nada existe. Um espaço vazio, e tu... não passas de um pensamento.
-- Bem vindo à fronteira. Aqui começa o que o teu pensamento se torna incapaz de ver. O universo é infinito enquanto o teu pensamento o conseguir visualizar e lhe der um significado.

Somos um intervalo no tempo que não avança e o espaço que não existe.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Evoluímos ou Evoluímos-nos?



Quem trabalha e faz trabalhos com madeira, costuma dizer que a madeira dará o objecto para o qual nasceu para ser.

Nesta pequena curta-metragem, um objecto de madeira com características humanizadas, cria um retrato do seu oposto.
O ponto importante neste pequeno filme, não é apenas o facto de ensinar de uma forma muita fácil e transparente, que não devemos mudar ou moldar à força quem amamos, mas sim também, a razão de um objecto criado "humano" ser capaz de criar através da sua imaginação, sonhos e fantasias, o seu oposto. Um oposto que nunca viu e que nunca conheceu.
É então razão para dizer e constatar, que apesar de nunca termos visto algo, não quer dizer que não exista ou que não possa ser inventado. Mas isso significa que a ideia "abstracta", foi-nos implantada através de "poder divino", ou foi algo que realmente teve origem nas profundezas da nossa mente?
Sendo todos os animais capazes de sonhar, de recordar, de reconhecer e se adaptar, mesmo que apenas psicologicamente, significa que são também eles criadores de ideias abstractas? De dar origem na sua mente, no céu cérebro consciente, imagens que nunca viram?

Existe uma espécie de macacos, capaz de criar/inventar, desenvolver e aperfeiçoar ferramentas. Mas segundo os cientistas, têm dificuldade em passar à geração seguinte essa informação. Será, porém, que a sua capacidade "única" de transpor fisicamente uma ideia inexistente na matéria do cosmos, ser de origem divina e não através de um processo evolutivo no qual teve origem, não só o seu instinto de sobrevivência que obrigou a desenvolver planos de fuga ou de conseguir visualizar antecipadamente a sua rota de fuga, mas também em tornar eficaz uma tarefa? Como comer ou correr?
Não é no fundo, no fim e ao cabo, a evolução, uma construção, degrau a degrau de inovações? De uma melhor capacidade de previsão de uma acção, como por exemplo do tempo ou de um trajecto de fuga entre uma densa floresta?
Não é também uma evolução psicológica e emocional de ideias e pensamentos? Que de geração em geração se tornam mais nítidas e fáceis de compreender?
Significa então que é o nosso cérebro que nos adapta? Que não é a exigência do ambiente mas a capacidade que todos os seres vivos são capazes de objectivar, planificar e criar do nada, uma solução e/ou uma alternativa para aquilo que vêm?

Colour is in the eye of the beholder
Horizon - Do You See What I See (Part 1)
Horizon - Do You See What I See (Part 2)
Horizon - Do You See What I See (Part 3)
Horizon - Do You See What I See (Part 4)

Segundo o documentário "Do You See What I See" produzido pela BBC Horizon, as cores que o nosso cérebro consegue ver, encontram-se ligadas ao nosso vocabulário. Quanto mais nomes formos capazes de dar a cada cor, melhor será a sua visualização.
Comprovando que não é o ambiente que nos evolui, mas a mente.

Sendo então a resposta a uma pergunta que nunca foi feita e que por essa razão não existe:
Só somos de capazes de manipular o que nos rodeia, quando formos capazes de o entender? Quando consciencializarmos intrinsecamente que uma pedra não é só uma pedra, mas uma ferramenta de caça?
Que um conjunto delas não servirão apenas para enterrar os mortos, mas também para edificar um abrigo contra o vento, a chuva e o frio?
Só avançamos na árvore da evolução, quando na nossa mente der algum tipo de "clique"?

Explicar psicologicamente, a capacidade que este objecto humanizado teve para criar alguém seu semelhante, torna-se difícil, a partir do momento em que tento perceber de onde e como surgem os meus sonhos, principalmente aqueles que nunca vivi. Isso não é capacidade de projectar um pensamento no futuro, é algo muito mais.

Se mudar alguém não deve ser um objectivo da cara metade, melhorá-la não será a mesma coisa? E se então não há maneira de duas pessoas interagirem de forma positiva, isso impõe duas questões.
A alma gémea não se tornará com o tempo, um aborrecimento? Porque, se gostam de "tudo" e fazem "tudo". Esse entusiasmo e todas essas experiências têm uma razão para existir? Não evoluímos através da partilha de informação e da educação dos iliterados?
Como poderão duas pessoas conviveram se a maneira como vêm e sentem o mundo não pode ser aproximada através de um melhoramento da psicologia do outro? Se não há partilha, se as arestas não são limas, como poderão duas peças coe-existir? Não está em causa a leia da atracção, mas a capacidade emocional, mais do que psicológica, de suavizar as nossas decisões, ideias e opiniões.
Mas... significa então que deixaríamos de ser nós mesmos, apenas e só para um "bem maior"? E neste caso, o que está em casa? A sobrevivência da espécie ou uma escolha emocionalmente egocêntrica e instintivamente social?

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O caranguejo que viu o mundo morrer...



No horizonte, subia sozinho lentamente entre nuvens no céu azul, um Sol como nunca antes tinha nascido. A manhã escura, naquela praia invadida por pedras negras, iluminou lentamente a conquista que a natureza construía em cada buraco e saliência do paredão natural.
A maré subia com a luz, vagarosamente, em silêncio. Não se ouvia o vento nem a natureza, as aves ou as árvores. Por entre o rebentar das ondas, sentia-se o vazio do planeta. Não havia criaturas por perto para testemunhar o silêncio, se não o único caranguejo laranja que surgia inesperadamente debaixo de uma das pedras submersas pela água.

Subia a costa de lado, e ao chegar a terra seca, virou-se de frente para a grande pirâmide que ainda bloqueava o Sol. As cores no céu, antecipavam uma dança sombria. A morte do mundo. A morte das coisas, do calor, dos amigos e dos inimigos, do vento e da chuva. Sem qualquer forma de saber explicar, sentiu dentro de si o fim. Invadira-o como uma calma, um pensamento vazio, um odor agradável e um conforto caloroso. Hoje, será o ultimo dia que verá o Sol. Será o fim da pesca e das caminhadas, será a extinção inaudível da árvore da vida.

A água tocou-lhe os olhos e a onda puxou-o com ela. Deixou-se levar, envolto no cobertor transparente que espelhava a ultima viajem das nuvens. A escuridão abateu-se sobre ele, sentindo-se esquecido numa morte fulminante das cores, voltando então a ser recebido em êxtase pelo círculo milagroso da origem da vida. O calor apertava-lhe a carapaça e afundou-se, descendo ao fundo do oceano que o germinou. Ao fundo que levaria de volta, por direito, as carcaças de uma enorme evolução natural.
E sendo Nak, fruto da imaginação de um humano, ao interiorizar o fim de tudo, choraria com medo do seu desaparecer invisível, da calma com que se tornaria mais um na grande extinção à escala global. Porque estar sozinho, no fim, seria uma das maiores dádivas merecidas por todo o valor que nunca trouxe ao mundo. Mas saberia reconhecer! Porque deslumbrar o ultimo dia do universo, sentir o ultimo raio de luz entrar nos seus olhos e logo depois a escuridão gelada que nunca foi capaz de imaginar, faziam-no, não um humano de consciência, mas um animal que no fim dos seus dias, sentiu o seu fim.

Numa viajem até às profundezas do oceano que o viu nascer, fugiu assim ao contar das horas, dos minutos e dos segundos que lhe levariam os sonhos e as memórias.
Lá em cima, onde o Sol subia os céus, e cada molécula podia vibrar com vida, surgia já velha a escuridão, pesando em cada piscar de olhos, os fardos perdoados. O pano do teatro do pó das estrelas, fechava-se assim, no esquecimento gélido pintado pelas galáxias longínquas.


É na morte, que a natureza ressuscita...

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Desvanece...


Dois corpos, nus na escuridão de um espaço infinito. Abraçados um ao outro, de olhos fechados, sentindo os seus corpos frios, sensíveis. As emoções deslizavam sobre a pele como seda, acarinhando-se mutuamente com os seus dedos melancólicos. Ouvia a respiração dela sobre a dele, arfante, quase como um gemido. Aproximaram-se, sentiu o cabelo dela na sua cara e deixou-se absorver pelas ondas que lhe limpavam a alma, que lhe acalmavam a mente. Afastavam do seu consciente a tristeza de um adeus e aproximavam-se os sorrisos pequeninos da sua mulher, as corridas, as brincadeiras, a comida e as paisagens.
Os pulmões dela encheram-se de ar, beijada no peito, agarrada, acariciada. Deixou-se levar, guiar por entre a erva alta de um prado verde. Sentia a brisa fresca no peito, os cabelos bater-lhe nas orelhas e o sol descansar sobre a almofada de estrelas. A terra húmida sobe os seus pés, as mãos trémulas que lhe acariciavam o corpo, a cara, a cintura.
Um foco de luz ténue incidiu sobre eles, serpenteando sobre os seus corpos como uma vela soprada pelo ar de um anjo, hipnotizada por um beijo, bêbeda.

-- O que sou eu para ti?
-- Tudo o que quiseres ser...

Os lábios tocaram-se, as mãos sentiram a cara e a chama morreu, perdendo o brilho à medida que se emaranhava na escuridão.

terça-feira, 25 de junho de 2013

O momento em que respirei pela primeira vez...


Desde o momento em que respirei pela primeira vez, os meus pulmões encheram-se de esperança. Recebi o "dom" da sobrevivência. Fui condecorado e aplaudido de entre os milhões que me acompanhavam no seu ultimo momento de vida.
Chorei, berrei, esperneei e gritei em plenos pulmões, um grito de guerra, que tinha jurado fazer-se ouvir desde o grão microscópico que me constrói e envolve. As mãos tinham força suficiente para agarrar o ar, mas também a vida, pelos colarinhos, o vento e os sentimentos. De apertar-lhe os ossos com força e mostrar o ferro de que sou feito. Os olhos castanhos comuns, iriam ver o mundo e as pessoas de uma maneira completamente diferente. As orelhitas entretiam-se com a voz de embalar da mãe, com os pijamas e o timbalalão (cabeça de cão, orelhas de gato, não tem coração).

Não sou um, são milhões, com perspectivas e objectivos diferentes. Guerreiros do passado que se preparam para a batalhada do futuro. Cada parte de mim foi desenhada para sobreviver, para lutar e trepar. Cada parte de mim é irracional, não possui tempo mas uma história. Um caos lutador que luta, que se levanta e repara. Uma sopa caótica de gerações e hereditariedades, de experiências que se juntaram numa pequena caixa. O meu corpo grita, rasga e esperneia, na tentativa de hoje conseguir agarrar a vida pelas roupas, de a apertar e segurar nos braços com convicção suficiente para a fazer perceber de que se também ela quer uma vida "fácil", que não me aperte demasiado os atacadores dos sapatos e me invoque os joelhos ao chão demasiadas vezes. Pedir ao vento para que as chapadas não sejam tão fortes e frias como as de agora. Que a natureza me deixe respirar, descansar e sonhar de alivio.

Voltar à tona de água, e sentir um fervilhar percorrer-me o corpo, como se não respirasse à centenas de anos, apesar de nunca ter esquecido como se fazia. O oxigénio apertava contra as costelas os pulmões roxos pela fome do grito da vida. Pelas ordens dos milhões de músculos, de sentir nas pernas os músculos correrem por mim, e as mãos penetrar o inimigo.

No momento em que respirei pela primeira vez, o território desconhecido e inalcançável, era irrelevante. Todos os estímulos, todas as palavras, todas as memórias, tinham um tempo de vida muito inútil. A inocência da minha mente frágil, esponja e muito carente, é agora, um caderno já velho, um pouco mal cuidado como as guerras que já combati e perdi. Tivesse eu nunca nascido, desconhecer o passado e o futuro, e o presente seria mais tolerável, mais fácil, mais interessante. A dificuldade do jogo muda. Sou eu quem o mudo, não é o mundo ou a vida, pois esses ainda os seguro com força. Acredito eu. Um ser incapaz, que até na coisa mais comum do mundo, respirar, o faz mal.
As guerras da respiração, o deslumbre ao abrir dos olhos sobre as paisagens de perder a vista e a fala, envelhecem com o tempo, escondendo-se cansados, na escuridão mais triste e sossegada das minhas conversas, das minhas memórias e experiências.

A primeira vez em que parei de lutar, percebi que não queria lutar sozinho, mas ao lado de alguém como tu, que vale a pena. Que me faz sorrir e esforçar. Agarrar nos meus sonhos como uma espada e correr pelo campo fora, de peito e cabeça erguidos. De te agarrar pela mão e criarmos juntos algo extraordinário. Porque foi no momento em que respirei pela primeira vez, que não fazia sentido viver tão longe de e sem ti. Acompanhas-me a voz e ajuízas a mente ainda criança. E se errar é uma maneira de dizeres "está atento", então direi que tens uma paciência extraordinária e uma mente ainda mais bela.


Bastou um momento para saber quem tu eras.

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Lengalengas

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Venham comigo...




A mãe acordou-me, o sol cumprimentou-me e corri pela casa com a fome na barriga. Apanhei o pão já feito do meu pai e fugi até ao sofá, onde me sentei e me perdi. As conversas indistintas aconchegavam-me como almofadas, mas as palavras que me faziam pular e sorrir de alegria, eram aquelas que se chegavam ao pé de mim, devagarinho, como os gatinhos? e me sussurravam: "Vamos dar uma volta...".
Os meus pais, de braços abertos, recebiam-me, presenteando-me o seu colo como uma cadeira de princesa até ao seu coche mágico. Um coche que viaja pelo mundo inteiro, e que voltava a casa sempre sem se perder. O meu sono de beleza, surgia sem avisar, obrigando-me a desligar do mundo, a perdê-lo de vista. Deixava de o deslumbrar, de o ver passar.
Os parques e as florestas faziam-me correr por todo o lado, cheia de energia e curiosidade. Mas as caminhadas pela montanha? Pelos prados largos e planícies verdes? Esses, faziam-me sentar e sonhar. Observar a natureza, ouvi-la, senti-la, respirá-la, conhecê-la de longe pela paisagem e de perto pelo toque da relva. Deitar-me à sombra e ver o céu compor-se de nuvens. Um abraço, um carinho e um beijinho.
A mamã e o papá deitavam-se, riam-se, rebolavam e brincavam como duas crianças apaixonadas. O seu eterno amor iria para sempre ficar comigo. Rugiam sobre mim, como leões desesperados por cócegas, acabando sempre com beijinhos e palavras meigas aos meus ouvidos. Uma paixão que me fervilhava nas veias a cada beijo deles. Um sentimento que me arrepiava as costas por cada olhar ternurento. Recordações  com um cheiro a perfume de Pai e Mãe.

Adoro o vento soprar-me na cara e fazer os meus cabelos voar como uma bandeira da praia. De o  chilrear me penetrar no corpo como o timbre acolhedor da voz dos meus dois botões. Sentir o sol aquecer-me a cara e levar-me da mente a pomba branca da liberdade. Sentir na cara e no nariz, a face do papá e o nariz da mamã. Ser o centro dos pequenos e grandes momentos. Sentar-me nos bancos do jardim e receber nas mãos de migalhas, pombas e andorinhas. Pintar de todas as cores o retrato que faço do mundo e  rebolar de máquina fotográfica na mão para apanhar os sorrisos envergonhados daqueles que todos os dias me amam.

Venham comigo, vou-vos ensinar a voar outra vez...

terça-feira, 7 de maio de 2013

Adivinha o quanto eu gosto de ti...



Seguro-te nos braços com a vontade de nunca te deixar partir. Desejo para mim, que fiques para sempre assim, pequeno o suficiente para te segurar, atirar ao ar e levar pelo dedo.
Os olhos profundos que herdaste da tua mãe, olham-me acompanhado de um grande sorriso e do riso mais carinhoso que me encanta todas as vezes que te fazemos uma careta. A tua mãe, ela que te é tão dedicada, derrete-se ao ver-me mudar-te a fralda, a brincar com os teus brinquedos junto de ti ou a ouvir-me ler-te umas histórias de animais encantados.
Tornas os ombros do pai, num cavalo que orgulho em te fazer cavalgar e conquistar o mundo em redor.
À noite permaneço ao teu lado até adormeceres, enquanto a tua mãe te canta uma canção de embalar. Enches de alegria, uma vida já tão rica em abraços e beijinhos. Exiges e aventuras-te por sítios,  que sendo-te completamente desconhecidos, não temes em apalpar, agarrar e conquistar.

A caminho do super-mercado, cantamos as cantigas que aprendes na escola que eu e a tua mãe fazemos um esforço para aprender. Já lá vai o tempo em que as sabia de cor... Danças sem medo e cumprimentas sem vergonha, todos os meninos e meninas com que te cruzas. Atiras-te à fruta e gritas-lhes os seus nomes. Já sabes tirar o saco e escolher as cores da roda dos alimentos que a tua mãe tanto te ensina durante as horas do banho. Corres de um lado para o outro, e só paras quando encontras a tua secção favorita, ou a dos brinquedos ou a dos livros enfeitiçados com criaturas e personagens mágicas. Desfolhas livros medievais, de astronomia. Debruças-te sobre os de pintora, anatomia e de lendas antigas. Mostra-me o que descobriste, ensina-me o que aprendeste...

Tocas em tudo, aprendes e devoras o feitiço do desconhecido. Sento-te ao meu colo, e contamos as nuvens, rimo-nos para a mamã e beijas-nos com um grande abraço nos nossos pescoços. O perfume da mãe "cheira sempre muito bem" e não te cansas de dizer o quando gostas de nós. Fico com ciumes, e às vezes medo, que ela me troque por um príncipe perfeito que tanto me esforço em afastar dos sapos.

-- Papá! -- Não me vês chorar, mas é o que acontece cada vez que te vejo receber-me empolgado de braços abertos. Corres de mim no recreio do ATL para junto das outras crianças, mas assim que o Sol troca com a Lua, sabes que as cócegas e os aviões de colher estão a chegar. Largas tudo o que estás a fazer e corres para nós, que te esperamos impacientemente, orgulhosos e completos, ao portão que serve de entrada para o teu pequeno reino.
A tua mãe, quando sai mais cedo do trabalho, aparece de surpresa no escritório do pai, onde acabas sempre por fazer as delicias de toda a gente, enquanto te observo ao longe, com a mãe galinha sempre por perto.
Levar-te a navegar pelas ruas, pelos monumentos, museus e bibliotecas, delicia-nos. Colas-te aos vidros e tentas sempre mexer em tudo. Queres descobrir, saber o porquê e como funciona. Já seguras na máquina fotográfica, aplicas os dotes que a tua mãe te costuma ensinar e tiras as fotos mais trémulas e engraçadas que inocentemente te esforças em tirar.

Que traquina! Todos os fins de semana saltas e abraças os pais já cansados. Já não temos a tua energia, mas esforçamos-nos para te acompanhar em tudo o que desejas e te empenhas em fazer. Sabes o abecedário e contar até 20. Deixas todos de boca aberta quando lhes respondes de onde vêm os bebés ou como aparecemos na Terra. Não te escondemos nada e esforçamos-nos para que compreendas tudo.
Lá me vês então, eu ou a tua mãe, a desfolhar nos livros grossos o significado de alguma coisa, quando as perguntas que antigamente eram tão fáceis de responder, se tornam autênticas demandas do conhecimento.
Ensino-te a pintar e a desenhar. Já não deixas que te segure na mão como antigamente... és tu, por ti, sozinho. Demos-te liberdade e ensinamos-te que a vida nem sempre é fácil. Tu escolhes, tu decides. Demos-te opinião. Mostramos-te e explicamos-te para que decidas e aprendas por ti. Mas és cabeça dura, sais à tua mãe...

Odeio quando ralho contigo e te ponho de castigo, e até a tua mãe sofre cada vez que te dá uma palmada nas mãos. Deixamos-te sozinho durante um bocado, que para nós parece uma eternidade, a pensar no que fizeste. Conversamos contigo, abraçamos-te e beijamos-te.
És uma criança cheia de vida e sempre com amor para dar. Ensinas-nos o que fingimos por vezes esquecer, só para teres o prazer de ensinar e explicar. De poderes por breves momentos, seres tu o pai e a mãe.

Amo-te com todas as forças que tenho e ensino-te tudo o que aprendi e aprendo, cada vez que te vejo crescer...

sexta-feira, 15 de março de 2013

Floresce sem medo...

[Green by ~melsvai]

Existe uma casa abandonada, para onde eu posso fugir. De mim. Onde posso estrebuchar e zangar-me. Rebentar e atirar às paredes com grandes ouvidos, as palavras que não autorizo que me saiam da boca.
Atiro as pedras para longe com a força que querer ir com elas. Com a garra de arranhar a vida na cara e deixar o seu peito a arder. Lutar contra ela e sair vitorioso. Ver a vida deixar de ser cabra e passar a ser justa. Sentar-me ao lado dela, lê-la, interpretá-la e tentar ser sua amiga.

Tenho uma casa, onde gente que gosta de me ouvir, me espera, quase todos os dias, com vontade de saber o que não interessa, o que não tem valor e o que não melhora a vida de ninguém. Não ficamos mais ricos, mais inteligentes ou mais corajosos. Comunicamos sem prazos, sem obrigações, sem cronómetros  Abandonamo-nos entre os pilares que sustêm a velha casa e acompanhamo-nos mutuamente entre o soalho velho, enquanto o cheiro da terra e das árvores perfuma os corredores. O sol do inicio da tarde penetra pelas janelas e portas velhas. Uma sala antiga, ampla, de livros velhos e perdidos, no chão ou nas prateleiras  com acesso a um jardim colorido, constrói o melhor cenário para contemplarmos a "vida" e representarmos os nossos erros mas também o sucesso do que somos.

Não sendo aquele espaço a nossa casa, podemos dançar, imaginar, correr, chorar e partilhar. No verão desdobramos o local todo com sessões fotográficas, de desenhos e pintura, ateliês de colagens e de poemas... de mil e uma histórias, contos e livros. O sol ilumina-nos o espírito, recarregando energias perdidas das saudades. Uma amizade que na realidade não existe... não tem emoções nem memórias. Uma amizade que se constrói nos momentos mais íntimos  dos nossos fracassos, das nossas tristezas e solidão. Uma amizade montada paço a paço, sem manuais ou revistas, publicidades ou horóscopos  sem concelhos publicitários ou promoções. Como um puzzle.

Vivemos a tentar ser a favor da corrente, pelo fácil e seguro, com medo de errar ou cair do barco. Teremos cordas e coletes, mas ser livre realmente, é poder chorar por algo tão simples como o pôr ou o nascer do sol... Maravilhoso, mágico, grandioso, gigante, colorido, quente, poderoso... Sentir no peito a força fugaz do bater de asas de uma ave. Ser livre e viajar, embalados numa canção que embale o ouvido e não o coração. Mas que crie uma revolta no nosso cérebro, capaz de nos fazer deslumbrar o mundo visível que tornamos invisível  penosamente. Tornando, sem medos, o balançar da erva e das folhas das árvores na maior paisagem, na mais grandiosa criação da natureza, na colossal epifania sentimental, como se despertássemos de um sonho do qual não queríamos acordar. Uma visão aterradoramente platónica, poética... equiparando o respirar da natureza, nas profundezas longínquas do universo.

Existe um senhor, neste pequenino planeta, que todos os dias vive como se fosse a primeira vez... Cada olhar para o sol, as nuvens, o ouvir dos passarinhos e até a cara da sua mulher. Todos os dias vê o mundo, como se fosse a primeira vez que acordasse.
Existe um senhor, que não tendo memórias de quem é, de quem foi ou do que soube, tem, sem saber, o melhor presente que alguém da sua idade pode ter, num fim da sua vida. Um senhor cansado, que caminha para a morte, com o prazer de saborear o mundo tal como ele é. Epifânico...


O Sol nasce, o Sol morre... e tudo recomeça de novo.
Seremos para sempre crianças ingénuas...

"Sê diferente, mas consciente!"

domingo, 17 de fevereiro de 2013

A tua mente num frasco...


Nós que somos incapazes de ter limites, podemos desejá-los até mesmo suplicar que aconteçam, para que os políticos ganhem finalmente asas?
Escolher e já não submeter-se.
Ser finalmente livres. 
Há que recordar que a sociedade também é uma obra nossa e que temos de começar pelo indispensável revolução do espírito, das mentalidades.
Cada um de nós deve encarnar, acompanhar e até mesmo exigir a mudança que quer ver nascer, contribuir com uma música íntima para fazer dançar o mundo. 
O síndrome Titanic
"Mudar" o mundo, é algo que "todos" gostavam de poder fazer. Mudar para melhor, obviamente, implementar sucesso, vacinas e paz pelo mundo, acabar com "todas as doenças" e a "fome". É bonito dizer-se. Porém, é necessário perceber que a estrutura que governa e faz o mundo mover-se, é inalterável e não pode, de maneira alguma, ser alterada, melhorada, para bem, para o bom senso, para o respeito, para a amizade e cooperação. Não somos animais "calmos", somos animais territoriais. Não somos animais pacíficos, somos interesseiras e invejosos. As nossas hormonas guerreiam com as do vizinho do lado numa batalha que já dura à mais de 300 000 mil anos.
Será por tanto, impossível, instintivamente, travar algo que nos é natural.
Existe outra parte, que engloba a psicologia do individuo. A maneira como comunica, como vive, como ouve e compreende. Aquilo que é capaz de discernir de "importante", "urgente" dos bens de "primeira necessidade". Os bens de primeira necessidade, têm-se vindo a alterar, para pior. É verdade que uma pequena parte da população ainda possui um cérebro e coloca-o a funcionar sempre que pode, para não apanhar pó, mas os restantes 99%, esperam que lhes seja dito o que pretendem, o que devem comprar, de quem devem gostar, o que devem fazer, com quem podem dialogar, o que devem odiar, que tabus ter, que grau de sabedoria académica é preciosa para o seu futuro. Já que toda a sua vida se resuma especial e unicamente à entrada da universidade, às notas e à sua média, poder-se-á dizer que a sua vida é patética e insignificante. E posso afirmá-lo, pois 80% dos alunos, são cerebralmente afectados única e exclusivamente para se dedicaram ou não aos estudos, mas não a mais do que isso. E como um amigo meu me disse recentemente: "Eles poderão de lá sair com notas altas, com mestrados, licenciaturas, diplomas disto e daquilo, mas muitos desses, irão saber muito menos do que tu ou eu.". Não foi pelo facto de ter tirado melhores notas, foi e é pelo facto de não fazer dele, o barro imoldável, imutável, criado pela sociedade, uma ferramenta. Uma auto-ferramenta. Não fazer de si algo. E ele tem razão no que diz, e já eu dizia o mesmo. Não digo que não haja gente boa, porque há, mas se as à, o que fazem de si? Que projectos têm? O que podem vender quando saírem de um curso? Ao fim de 3 ou 4 meses esquecem "toda" a matéria que assimilaram. É um facto, a não ser obviamente que goste muito daquilo que faça e que tenha aprendido. Mas até o meu professor de programação era e é um dos melhores programadores, que sabe programar em várias linguagens diferentes, e por vezes, na altura em que me dava aulas, esquecia-se de como fazer certas coisas. Tinha de ir para casa e estudar, ou pesquisar na internet. Dizia-nos ainda, nos testes, que podíamos usar apoio, usar o caderno, mas não o telemóvel. Óbvio.
Escolher e já não submeter-se. -- O síndrome Titanic
Porque ninguém, mesmo ninguém, hoje em dia tem o poder de escolher e de decidir por si. Ninguém é capaz de usar os seus próprios sentimentos, criados de raiz e envoltos em memórias. Ao contrário disso, usam o que lhes foi incutido. Emoções e opiniões manipuladas. Ideias implantadas, cerebralmente agrafadas como o Abecedário. É o que se denomina de "Mensagem Subliminar".
Da Vinci tornou-se conhecido por contar mensagens escondidas nos seus quadros, no publico em geral, quando o livro "O Código Da Vinci" saiu em formato de livro e mais tarde como filme.
Stanley Kubrick é um dos, se não mesmo o primeiro, realizador a transformar todos os frames do seus filme com algum tipo de mensagem escondida. O filme mais conhecido será o The Shining, escrito pelo famoso escritor de contos de terror, Stephen King.
No filme-documentário "Room 237", afirmam que Stanley Kubrick estudou e leu, para além de ter contactado várias agências de publicidade que usavam mensagens subliminares nos seus anúncios. Estudo de fio a pavio toda a história do subliminar, para poder incorporar nos seus filmes, tudo o que pudesse sem que ninguém se apercebe-se à primeira. Pelo que dizem, ainda no mesmo filme, foi necessário quase 7 ou mais de 7 anos para que as pessoas pudessem ver o filme com outros olhos, unindo os pontos. Eyes Wide Shut é um desses casos, que usa uma história "normal" e que no entanto, cada imagem, cada frame contém informações que se descontextualizam da história em si. Objectos, palavras, quadros de parede, carpetes, padrões, música, fotografias, sombras, figurantes, cores, formas...

"Nós que somos incapazes de ter limites, podemos desejá-los até mesmo suplicar que aconteçam[...]" -- O síndrome Titanic

O filme Branded, como já falei aqui, aborda precisamente este tema. Todos os nossos desejos são fabricados e manipulados pelas empresas de publicidade, que tentam vender, que nos manipulam a opinião para comprarmos. Para terem uma pequena ideia, coisa de uma semana, entrei numa loja de sapatos para mulher, com o cantito de 2 metros quadrados para homem. Nada de anormal e a que eu já não tivesse habituado. Mas qual não foi o meu espanto, quando comecei a ver o mesmo tipo de sapato em todo o lado.
Eram TODOS iguais, e só se distinguiam pela cor, pelos efeitos e brilhantes, pelos adornos e tipo de salto. Olhei à volta e 90% da loja estava repleta dos mesmos tipos de sapatos. Pensei logo: "Querem criar um nova moda". E foi o que aconteceu. É de facto moda. Já o são. Outra coisa muito interessante, é que eram todos feios! Pelo menos para mim. Eram sapatos de salto alto, grosso, alguns com uma inclinação enjoativa! Comentei tal facto com o meu irmão, que me disse ter lido algures que ter o pé apoiado durante tanto tempo sobre os dedos, causa problemas de coluna, problema a nível dos ossos do pé, e deforma a própria planta. É um "hábito" que as mulheres querem ver implementado nelas próprias, só para poderem mostrar o riquismo e a segurança que sentem. Querem ter aquele caminhar distinto sobre saltos altos finos e "poderosos". Querem mostrar força. E no entanto, acabam por deixar de ser mulheres para serem modelos pré-fabricadas pelas industrias de moda.

O riquismo e a superioridade...
Eu quero, posso e Compro!
Pronta para arrasar?
O divórcio em Portugal...


Não somos nós que exigimos algo novo, são as marcas que nos vendem a vontade de comprar!
Não somos nós que decidimos, são as marcas que decidem por nós!
Não somos nós que compramos, são as marcas que nos controlam o desejo de ter. Porque... sejamos realistas, os produtos Apple são MUITO bons, lindos, bonitos, eye-candy/ atraentes e caros. Significam riqueza, poder, status social. Mas não servem absolutamente para nada. Quem compra, tem mesmo só para mostrar, só para dizer que tem um, que tem dinheiro. É um objecto mais por ... do que por necessidade.

Vamos pegar no reclame da Coca-Cola Zero, que eu julgo que toda a gente já conhece. Youtube (Esp.)
Não sei se já alguma vez leram na internet ou nalguma revista, que o vosso dedo do meio é o maior de todos os 5 na vossa mão. Ou outro tipo de factos interessantes que vos coloca a olhar para o corpo todo no momento em que o lêem!? O que este anúncio faz, é precisamente a mesma coisa. Utiliza a vossa curiosidade, falta de atenção, falta de informação, para além dos tão famosos neurónios-espelho, para vos incutir o acto de beber. Um bom exemplo é o Bocejar  Contagia-se com uma facilidade assustadora, tal como a tosse.
Utiliza a manipulação psicológica sem que a própria pessoa saiba que o acto de beber foi provocado e implementado nela, sem ser necessário tocar na pessoa ou lhe dizer o que quer que seja. O cérebro vê, assimila e faz. E não há nada de mal com isso. Todos temos esse mecanismo de espelhos, e a razão é simples: "Permitiu-nos, desde o inicio da nossa evolução, aprender mais rápido e melhor." É por essa razão que os truques de magia e de ilusionismo funcionam, porque se aproveitam das falhas do cérebro. Há os que olham, e os que vêem. Daí as mensagens subliminiares terem um grande impacto na população em geral, porque estão apenas preparadas para olhar e ouvir. Nunca vendo e interiorizando.
O famoso ilusionista Derren Brown, fez um espectáculo especialmente dedicado sobre o assunto. "Derren Brown - Something Wicked This Way Comes" - Youtube
Continuando, a pessoa é levada a fazer acções que lhe parece perfeitamente normal e construídas por si própria, costuma-se dizer que todas as decisões são nossas. Que todos temos opiniões, que somos diferentes. No entanto, tem-se vindo a dizer que as pessoas pensam que existe Democracia em Portugal ou Liberdade, coisa que não é de todo verdade. Não existe Democracia nem Liberdade em Portugal apesar de as pessoas terem essa ideia pré-concebida, pré-implantada e implementada. Julgam ter poder na sociedade, porque lhes foi incutido como sendo um dado adquirido. Algo é assim, porque já o é à muito tempo.


As pessoas são assim controladas pela publicidade, pelas marcas, pelas imagens, cores e palavras, que lhes parecem inocentes e contextualizadas. É uma informação "tácita" que percorre o cérebro sem elas próprias saberem. Tal como o bocejo ou a tosse. E o grande problema desta manipulação psicológica do individuo  é que acontece e está presente em todo o lado!
Este tipo de manipulação dá-se a vários níveis.
Psicológica: Amor, respeito, opinião própria sobre determinado assunto, capacidade de auto-reflexão, auto-estima, auto-imagem social (ver-se ao espelho), sentimentos, emoções, desejos, objectivos, necessidades, prazer, compreensão e visão do mundo que o rodeia, formas de socializar.
Física: Aparência, auto-obrigações, auto-penitências, dietas, obrigações sociais, capacidade de discernir beleza, exigência por perfume, tipo de cabelo, cor, exigência física na escolha do parceiro.
O acasalamento entre dois homo-sapiens deixou de ser algo natural, para passar a ser um "algo" comercial, que se possa vender e manipular, re-escrever e embelezar.

As mulheres gostam de preliminares  do charme que os seus homens lhes possam proporcionar antes do sexo, porque estão preparadas instintivamente para serem seduzidas pelo macho. Acontece com todos os animais, e os humanos não são excepção, por tanto, a razão de as mulheres gostarem de preliminares  é pura e simplesmente porque estão desenhadas e programadas para serem compradas com tempo, com danças, com cheiros, com cores e cantigas, como sempre foram ao longo de milhões de milhares de anos. Desde as Andorinhas às Suricatas.

Mudar o mundo, tal como o conhecemos, e desde que o conhecemos, que é algo impossível  Alterem a forma como as pessoas processam a informação, alterem as escolas e o sistema de ensino, e o que irão ver se não mudarem o resto, com ou sem leis, serão guerras anárquicas. Serão lutas porque uns acham que algo está mal, ou porque outras acham que estão a ser manipuladas. É, desta maneira, impossível melhorar o que nos manipula e ainda gere dinheiro com isso. E! Terão de consciencializar de que nem todo o progresso traz algo de positivo. "Surviving Progress". A nossa geração está a ser moldada em todos os sentidos, desde os filmes às músicas, passando pela maneira como as pessoas interagem neles, nas séries, no que dizem e no fazem. Tudo se torna num meio, num objectivo para nos ser comercializado, exigido.

Não me referindo necessariamente a tabus, as revistas (neste caso, refiro-me à Cosmopolitan porque foi a que tive acesso mais recentemente) falam muitas vezes em usar abordagens sexuais para manter um homem interessado ou, simplesmente, para perder as calorias extra para caber num tamanho "XS" e, agora, parafraseando: "Na manhã de domingo faz sexo duas vezes e "obriga" o teu namorado a prolongar as sessões, pelo menos, 30 minutos para perderes 350 calorias".
Assusta-me viver num mundo em que o sexo não é visto como algo natural, algo que vale por si e é complementar ao amor, não, parece que é uma simples moeda de troca, um meio para atingir um fim. Uma espécie de sacrifício para um bem maior. Brrr.
Beatriz em Vamos falar de sexo (?)

O livro 1984 de Eric Arthur Blair ou George Orwell, apresenta já na altura, algo que só podia ser imaginado. "Big Brother" foi um conceito criado pelo próprio, e todos nós hoje sabemos o que significa. De uma forma muito sucinta, significa que todos os nossos passos e acções estão a ser observados 24h/dia 7 dias/ semana.
"It's really hard to design products by focus groups. A lot of times, people don't know what they want until you show it to them." — Steve Jobs, 1998

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Um pincel e três guaches...



Existe um chilrear que dança no ar...
Uma caixa de guaches que pinta o momento.
Um lápis desenha e assombra as nuvens no papel limpo pela lixívia.
Os guaches choram rios coloridos, serpenteantes, banhados pela cera arenosa.
Soltaram as crianças, como balões, como pomba livres.

Sem ninguém se aperceber, a natureza cruzou-se com a alegria e os sorrisos rasgados. A euforia dos pequeninos entrelaçou os dedos com as flores, deixando os raios de sol encaracolar os seus cabelos rebeldes. Fizeram-se corridas entre borboletas. Saltitaram entre os riachos, criaram ramos de flores e ofereceram-nos às meninas.
E estas fugiam, de rapazes com as mãos porcas da terra e minhocas penduradas nas pontas dos dedos.
Quando a fome apertou, os rapazes subiram às árvores, deixando cair para as pequenas camisolas das suas namoradas, fruta. A fruta mais doce e suculenta que poderiam encontrar. Porque "roubada" sabe sempre melhor...

Debaixo de uma grande árvore, sobre uma larga toalha, sentaram-se todos, para contemplar no sossego incomum de criaturas energéticas, o fim do mundo rasgado de luz, encoberto pela escuridão que traria as aventuras do medo.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Morrer não é vergonha...




Sentámo-nos à mesa, no macdonalds, poisámos os tabuleiros e comemos algumas batatas.
Olhei para ela, e os seus olhos concentraram-se num nada, lá fora, através das janelas, onde só os carros passavam de tempos a tempos e a chuva caía devagar. Ouviam-se as crianças a rir e a brincar, um silêncio fez-se na sua cabeça, a sua visão afunilou no passeio molhado e a sua respiração parou num pequeno suspiro, as suas mãos pararam de tremer, os seus olhos de piscar e pude ver o bater forte do seu coração nas veias do seu pescoço. Uma lágrima escorreu-lhe pela cara...
-- Estás bem? Onde estiveste?
-- Numa memória... saudades que me deixam sem ar. Sinto-me frágil, enfadonha, triste, incompetente... a minha vida escapou-me das mãos, a única coisa que eu mais desejava ver crescer e ser feliz, foi-me arrancada e por muito que eu lutasse por ela... não foi suficiente! Não consegui estar lá e lutar. Lutaria por ela mas não pude e isso destroça-me!
-- Nunca chega. Nunca irá chegar... -- agarrei-lhe as mãos com força, olhei-a nos olhos e continuei -- Tenho saudades dela, sabes disso, e por muito cruel que possa parecer dizer-te isto... olhar para estas crianças todas, com um grande sorriso na cara, faz-me recordar os momentos que passámos juntos com ela, neste mesmo local. Quando ela brincava e corria por todo o lado, falava com todos e era sempre simpática. Possa... -- um nó apertou-me a garganta e as lágrimas escorreram-me pela cara quase como se fosse a chuva lá fora -- Tenho tantas saudades dela!

A Teresa chorou, os olhos vermelhos fizeram-me entristecer ainda mais, e abraçámo-nos sem pensar. Ver a minha mulher tão triste e desamparada, com a imagem da nossa filha... ali, mesmo ao nosso lado com toda a sua simplicidade e ingenuidade a perguntar-nos:
-- Está tudo bem papá?


Na cama do hospital
-- Lamento não ter conseguido ser o pai que devia ter sido. Curar-te, fazer-te sorrir de novo, correr... desejava ter feito muito mais, ter-te levado para todo o lado.
-- Não lamentes pai, morrer não é vergonha. Foste o melhor pai que soubeste ser, ensinas-te-me a sorrir nos tempos mais difíceis  Ensinaste-me a lutar nos piores momentos da minha vida, e amanhã podes não me ter junto de ti e da mãe mas... quero que te sintas orgulhoso por me terem mostrado o mundo com os vossos olhos... Sei que não o conheci através de outros horizontes, nem outras paisagens, mas os vossos fizeram-me mais feliz do que alguma vez podia imaginar ser um conto de fadas.
-- Devia-mos ter feito mais! Devia ter dado muito mais...
-- Deste o suficiente e ninguém te culpará. Nem eu, e especialmente a mãe, te culparemos. Porque cada vez que penso em ti, te vejo nos meus sonhos ou aqui sentado ao meu lado, sinto os teus braços à minha volta, apertarem-me o coração com ternura, amor e carinho. Sinto-me aconchegada junto de ti e da mãe e quando partir, será com um forte abraço em família... -- sorrio pedindo um abraço.

No restaurante
-- Recordo-a no jardim, a brincar na relva, de o sol bater-lhe na cara e fazer-me caretas com a língua. De a minha barriga fazer uns barulhos estranhos e ficar absorvida por um momento... a primeira vez que se mexeu... a primeira caminhada, o primeiro choro e a primeira explosão de raiva. Porque até as coisas "más" são boas, e só agora lhes começo a dar ainda mais amor e sentimento. Porque eu via, podia sentir, mas não com esta saudade, que me faz ver as coisas e o mundo de uma maneira tão... pura. E no fundo... são apenas sentimentos. Ela sim, fez-nos ver, E SENTIR, o mundo de maneira diferente! E isso, nunca irei perder. Não está ao nosso lado a comer batatas fritas e a rir-se com a boca toda suja de ketshup, mas está em mim, dentro de mim, e a minha vida terá para sempre uma parte dela, faça o que fizer, o que disser, o que sentir. Ela estará comigo, connosco, neste mesa ou no fim do mundo. A minha luta por ela só vai parar quando morrer.
-- Conhecendo-te como te conheço... vais levar essa luta para a cova, e eu estarei lá contigo, ao teu lado.
-- Achas que fomos bons pais? -- perguntou-me olhando para mim acariciando-me as mãos.
-- Faria tudo de novo!!


Porque a dor é mais depressa relembrada que a felicidade, faz de nós animais inteligentes e conscientes. Queremos, desejamos e lutamos por voltar a sentir um beijo, um abraço e palavras no ouvido, enquanto os maus momentos são relembrados com nostalgia. Porque não precisamos de receber um choro, mas um sorriso. Porque a alegria e a intensidade de sentir a saudade libertar-se do peito, faz de nós, de mim e de ti, criaturas que anseiam por mais uma fatia de amor, como um bolo que nos contagia, um sorriso que nos enrijece a alma. Porque sentir saudades e fraquejar perante memórias tão belas, de nos fazer chorar ou sorrir de alegria, faz-nos viver e reviver. Ensina-nos a dar valor aos pequenos momentos, torna-os reais. Para que no dia do nosso ultimo piscar de olhos... desenhemos um largo sorriso na cara, sem tristeza:
-- Disse tudo o que sentia, fiz tudo o que pude e não me arrependo de ter sido e ter feito outros feliz.


Ela olhou-me nos olhos e sorrio. Não havia medo nem desconforto, apenas saudades... brilharam à luz dos candeeiros e senti então, que estava orgulhosa em me ter ao lado dela e termos os três, ultrapassado por tanto. Defendermos o que mais nos era precioso, de tudo o que a natureza, na sua profunda e incontestável sabedoria e força, nos atirou.
E sim, naquele momento, a nossa Inês estaria ali ao nosso lado, suja e sorridente, alegre e feliz.
-- Adoro-vos!
No entanto, não podiam deixar de pensar como seria Inês, uma jovem adulta, tão participativa como era quando os deixou...

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Inspiração: My Sister's Keeper (Para a Minha Irmã) (2009)

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

És parte de mim...



Esqueci a pessoa que eras, o rapaz por quem senti desejo, uma atracção e uma forte vontade de abraçar. Ouvir-te falar era o melhor que uma rapariga como eu poderia receber de um rapaz com tanto para dizer. As tuas conversas não me incomodavam, não eras chato e adorava a tua ideia diferente de veres e colocares as coisas. Parecia que bastava mudá-las de sitio ou sentarmos-nos numa pedra diferente deste Buçaco, e tudo ganhava um novo sentido. Mas era tão difícil eu perceber isso... que só via quando estavas por perto. Mas... quando realmente estavas perto de mim, com o teu ombro encostado ao meu e me olhavas nos olhos, eu sentia-me vulnerável, irrequieta, frágil e muito, mas muito, pequenina. Os teus olhos penetravam-me a alma, o corpo, a minha mente. Sentia por ti um desejo tão físico de te ter! Um desejo de sentir os teus braços em volta do meu corpo carente de carinho e amor. Sentia-me estranha, com um desejo emocional tão forte por ti que todos os meus namoros pareciam uma piada comparados com aquilo que sentia por ti quando me olhavas. A tua presença assustava-me. Arrepiava-me a alma e fazia-me sentir viva! Estar ao teu lado, sentir-te ali a ouvir-te falar ou mesmo quando te calavas para me ouvir ou escutarmos o som da natureza, o meu corpo gritava para nunca fosses embora.

Ver-te pela primeira vez depois de tantos anos, sim, para mim pareceram anos, décadas! Tiveste demasiado tempo longe de mim meu doce amor, meu sonho de infância... Despertas-te em mim algo que nunca senti por ninguém. A minha visão afunilou e olhei-te ao longe. Uma explosão de emoções percorreram-me o corpo, senti-me envolver em sentimentos tão fortes por ti que não sabia bem o que dizer a não ser desejar abraçar-te, beijar-te, sentir o teu corpo, os teus cabelos, deixar-me hipnotizar pelo teu cheiro, despir-mo-nos na cama e beijar-te o corpo com ternurosos beijos, acariciar-te a alma e segredar-te ao ouvido:
-- És a rapariga mais bela que eu tanto amo e desejo...
Ainda me lembro de te ver ao longe, de capa e cabelo arranjado. O olhar que me lanças-te foi tão mágico e senti-te tão perto de mim, que andar parecia não fazer sentido. Conversámos a noite toda sem nunca me incomodares com o que quer que fosse. Sinceros um com o outro. Partilhámos os nossos medos e os nossos pensamentos, e ainda que muita gente os tivesse, eras tu a única que me fazia sentir compreendido.
Já perto de te ires embora, encostei-me ao teu ombro por breves segundos, e pude sentir o teu corpo recolher-me nesse teu canto, no teu encanto. Tocaste-me a alma e fizeste-a vibrar em sintonia com a tua. Nesse momento único... deu-me vontade de chorar. Havia esquecido a pessoa que eras... e até a ultima conversa má e fria que tive contigo, para que alguns meses depois te enviasse uma mensagem a convidar-te para apareceres na feira. Mal eu sabia que o reencontro me faria apaixonar por ti novamente... mal eu imaginava que aquilo que sentia por ti e tinha esquecido, ainda fazia o meu coração fervilhar, tudo aquilo que sou, sentia-se protegido ao lado de uma rapariga tão mágica como tu!

Se nunca ficarmos juntos, quero pelo menos vir a sentir por outra rapariga, aquilo que sinto por ti cada vez que trocamos olhares... és parte de mim.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Boa noite amor...


O cheiro da chuva na noite, entra com uma certa aragem pelo vidro entre-aberto do nosso carro. Com as luzes no sentido contrário a focarem-se nos meus olhos cansados, tento-me manter acordado, atento às linhas da estrada que me irão guiar, por alguns minutos, à nossa casa.
Estou sozinho, acompanhado apenas pela música que toca no leitor de CDs, Johann Sebastian Bach Violin Concertos, e penso em ti, zangada por chegar tarde a casa. Zangada por não ter chegado à hora do jantar e ter deitado as miúdas. Aquela casa sem ti... seria um autêntico campo de guerra. Não por culpa minha!
A noite pinta-se de pequenas bolas vermelhas e amarelas, que parecem voar por mim. Os limpa-vidros trabalham devagar, e por aquela visão, o meu cérebro transporta-me para o dia de chuva, um dia belo por sinal, em que me dirigia para a maternidade para te ir ver dar à luz as nossas duas pequeninas. Gémeas, quem diria?! Ainda trago na carteira e na memória aquele momento tão especial de nós os quatro. Foi tão difícil para ti, como para mim, que em quase nada podia ajudar nessa tua luta tão incessante para trazer ao mundo duas meninas lindas e perfeitamente saudáveis, de olhos azuis e cabelos loiros como os teus. Podia ver o brilho dos teus olhos intensificar-se à medida que as vias nos teus braços. Depois de tanto tempo a imaginar e a sonhar como seria, realizas-te o teu e o meu desejo. O desejo de trazer ao mundo um filho. O nosso.

Estaciono o carro à porta, desligo o rádio e verifico se não me esqueço de nada. Agarro com força o molho de chaves para que não faça barulho e seguro a que me abre a porta. Apanho uma pequena molha naqueles poucos metros que me separam da porta de casa, e devagarinho abro-a. Reinava o silêncio. Não se via vivalma por perto, nem mesmo aquelas duas! Olhei para o relógio e passava um pouco das 23:00h. Estava tudo a dormir e eu ainda sem jantar.
Dirigi-me ao quarto da Inês e da Matilde, e muito devagar espreitei pela porta. A Matilde já quase dormia sem lençóis e a Inês tinha voltado a dormir com uma catrefada de bonecos. Tapei a Matilde e dei-lhe um beijo, ao qual gemeu de preguiça. Já a Inês... não largava o urso de peluche por nada!, e antes que começa-se uma guerra que acaba-se mal para o meu lado, tirei tudo o que estava a mais, ajeitei-lhe o cobertor e deixei-lhe também um beijo na testa. Ao vir embora, deslumbrei aquelas duas princesas, tão pequenas mas tão irrequietas. Tu sabes... sempre a perguntar "Porquê?", e nós sempre a tentar responder de maneira a que elas percebam. "Não percebi papá...". Encostei a porta e com pés de pantufa me pus rapidamente à porta do nosso quarto, onde te podia ver dormir sobre o meu lado da cama, agarrada à minha almofada.
Despi a camisa devagar, as calças e aproximei-me da cama. Inclinei-me sobre a tua cara e beijei-te a bochecha. Meia dorminhoca acordas-te, passas-te a mão pela cara e olhas-te-me.
-- Boa noite amor... -- sussurei com um ligeiro sorriso.
-- Anda, deita-te, estou com frio! -- respondes-te, sem qualquer ralhete ou cara de zangada à mistura. Agarraste-me pela mão, viraste-te de costas para mim e puxaste-me. Devagar entrei na cama, tapei-nos e abracei-te por trás. Senti o teu aroma, as curvas do teu corpo, os caracóis do teu cabelo passaram dançando sobre o meu rosto e perfumaram-me a mente de emoções e desejos. Entrelaças-te as pernas nas minhas e até a minha alma se enregelou de tão frios que estavam os teus pés. Beijei-te as costas, fiz-lhe uma pequena massagem e abracei-me, embrulhando-me em ti e no teu corpo. Senti os teus peitos, passeia a mão pela barriga e ai a deixei ficar. Breves segundos depois, puxas-te-a mais para cima, depositando-a sobre o teu peito.
O som dos cobertores cessou, e ao fim de alguns minutos, nada, a não ser a tua respiração, podia ser ouvido. Fosse eu louco e até podia ouvir o tic-tac do despertador digital.
-- Adoro-te. -- disseste antes de adormecer.

Fiquei de olhos abertos explorando a escuridão do nosso quarto, até que o sono caiu sobre mim. Já não sabia se tinha os olhos abertos ou fechados, mas abraçado a ti, perfumado pelo teu cheiro e hipnotizado pelas tuas curvas, deixei-me desligar lentamente, presenteado por pensamentos e sentimentos que ainda hoje me fazem um homem feliz. Contigo ao meu lado, o meu coração volta a aquecer da tristeza que é afastar-me de ti e dos teus lábios, das tuas mãos e dos teus abraços que me seguram e me acarinham quando mais preciso de ti.
-- Boa noite amor...

sexta-feira, 27 de julho de 2012

O que não me sai por vergonha...


Pousei os livros no tapete rolante e desfolhei o primeiro. Imagens de aves captaram-me a atenção, mais abaixo vi um conjunto de bicos e a sua funcionalidade.
Era a minha vez de ser atendido. Olhara para ela muito pouco, mas os cabelos eram escuros ondulados e compridos, alta, magra e com um relógio laranja na mão esquerda. Não tinha anéis.

Numa introspecção rápida, mais tarde, percebi que a cor do relógio demonstrava ser uma rapariga com uma mente jovem, muito simples, menina, não significando que não era psicologicamente madura.

Olhei-a nos olhos e fiquei envergonhado. Ela não podia ver, mas acredito que talvez sentisse. Deslumbrei-me com a sua cara. A sua beleza, simples, de rapariga, com aqueles cabelos compridos e uma altura invejável. Apaixonei-me um pouco, como um tolo. Queria dizer qualquer coisa mas não sabia, nunca soube, agir. E o que iria dizer? Como?

Quando me devolveu o cartão de crédito, o qual viu e reviu à procura de um nome, eu sei que sim, segurei-lhe na mão e disse:
-- Não tenhas medo em ficares vergonha, corada ou sem saber o que dizer, mas eu acho que és uma rapariga incrivelmente bonita!
Ela olhou para mim muito pasmada e a sua cara ficou vermelha. Segurou o cartão enquanto tentava manter a compostura.
-- Obrigada. -- responde ela, olhando para mim durante uns segundos, desviou olhar rapidamente para as teclas à sua frente e preparou-se, tentou, para atender o próximo cliente.
Atendeu o meu irmão, e eu fiquei ali, enquanto ele se apercebia interiormente que ela estava nervosa.

Eu sabia que ela tinha sentido qualquer coisa. Revejo o sorriso dela, vezes e vezes sem conta, pensando para mim a figura de totó que tinha feito, só lhe fui capaz de dizer "Obrigado"? E ainda por cima com o cabelo "todo" à frente da cara? Que figura... mal me deve ter visto os olhos, ou sequer a cara... muito menos o sorriso, suponho.

Será que perdi a oportunidade?
E se ela já tivesse namorado?
E se não tiver, mas não quiser nada comigo? Ter-me achado simplesmente "interessante"?
Talvez ela tenha sentido que sou demasiado velho ou que queira coisas que ela não pode dar.
-- Só saberás se perguntares. -- sim, frases feitas também eu as sei.
O intuito aqui, é partilhar, não para vocês, mas para mim. Para um futuro. É difícil pedir um nº de telemóvel sem se ser demasiado exibicionista. É difícil pedir de forma simples, bonita e meiga. De maneira que não assuste nem afugente. Para mim é, porque sou naturalmente envergonhado, principalmente quando me sinto atraído por uma rapariga como aquela.
Não sou de namorar com tudo, de me atirar a todas, as feridas custam e demoram a passar. E como já referi noutros textos, quando me agarro, é para sempre ou até que ela me deixe. Não se namoros fáceis, rápidos. Sou de dar a mão e permanecer ao lado, mesmo que me chateie ou me magoe. Não sou um cão abandonado, sei ser. Oh... agora sei ser. Pensar em tudo 3 ou 4 vezes, e não em apenas 2 ou 3 sem ver realmente o quadro todo.

O que não me sai por vergonha... são acontecimentos que não me fazem crescer mais, que não me ensinam, que eu não mudou. São momentos em que eu não tenho qualquer impacto, não altero nem intrigo. Torna-se passageiro e ao fim de um dia ou dois, esquecem-se de mim e da minha cara. Que é possivelmente o que vai acontecer com ela quando chegar a casa e procurar pelo meu nome, caso o faça. Apercebe-se então que se esqueceu do nome, pior ainda não sabe de onde sou... houvesse uma maneira de nos encontrarmos ou de comunicarmos, e talvez, talvez, pudesse surgir uma amizade.
Porque... só pelo simples facto de eu ter comprado 7 livros de uma colecção de animais, que ela fez o prazer de passar pelo código de barras um a um, talvez se tenha interessado um pouco em mim, naquilo que eu gosto, naquilo que vejo ou leio. Na pessoa que sou por trás dos cabelos compridos que me cobrem a vergonha estampada no rosto. Sim, talvez tenha causado um impacto, por muito pequenino e efémero que tenha sido. Talvez um dia mais tarde nos encontremos, eu me lembre da sua cara e ela da minha, e... se houver tempo, conversarmos.
Mas que digo eu? Estou a sonhar, mas às vezes sonhar é bom. Ás vezes? SEMPRE!
Sonhar mantém-me criativo, as emoções psicológicas, físicas e a sensibilidade mais apurada. Se eu não souber chorar pelo que me faz feliz, não mereço ter alguém do meu lado.
Tenho epifanias, momentos de deslumbro quando vejo um documentário e junto os pontos de algo que já tinha visto antes. Fico pasmado a olhar para o ecrã, a sentir as lágrimas escorreram-me pelo rosto, de tão incrível que é sentir essas epifanias, momentos de heureca! É como olhar para o universo na noite mais calma, com o céu limpo no topo de uma montanha, deitado e rodeado pelos nossos pequenos filhos. E contar-lhes as histórias dos navegadores portugueses que descobriram o mundo através delas. Mostrar-lhes as maravilhas do universo, da natureza num momento único da nossa mais profunda paixão de curiosidade.

Paula Brito e Costa da empresa Raríssimas disse uma vez numa reportagem da sic algo parecido com isto quando lhe perguntaram se pensava mal dos pais que não conseguiam ou não tinham forças suficientes para ajudar os seus filhos "deficientes", enquanto que outros conseguiam:
Há pais que conseguem, há outros que não.
E a que é que isto vem a propósito? Não somos todos iguais. Bem, estatisticamente existe muita gente igual a muita gente, caso contrário não havia modas. O que eu quero dizer com isto é que existem pessoas que são boas numa coisa, e "más" noutras. Mas não significa que não tenham valor. Deixámos de dar valor ao que nos torna humanos para passar a dar valor a pessoas?