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segunda-feira, 15 de outubro de 2018
Chora. Sofre.
O que fazes sozinho, sentado na escuridão?
O que consegues aprender no silêncio do quarto que se fecha sobre ti?
O que sentes nas costas cansadas?
Onde se entranha o medo? As tristezas? As desilusões? A solidão?
Quanto mais lutas para fugir do frio que te embrulha nos cobertores da cama, na frieza e instabilidade da tua vida, dos teus pensamentos, mais sozinha ficas; mais longe de ti, mais fundo no poço.
Quanto mais lutas por ti, pelo sopro da vida, pelo carinho, pela voz que te sai trémula entre os lábios, mais fundo vais, mais longe te perdes, no choro que tens como único amigo.
Repetes vezes sem conta, na tua mente, a aparente destruição de tudo o que existe em teu redor, ao teu lado, à tua frente... desenterras memórias do passado para te dar alegria no presente e te servir de apoio ao futuro. Mas os teus olhos em lágrima, de garganta apertada de sofrimento, da aflição do descontrolar de uma avalanche que cai sobre ti como se tudo tivesse escolhido o mesmo dia para acontecer.
Descobres entre as frestas do muro que te enclausura, te sufoca, te faz perder o toque da luz, a força dos raios do sol, que a natureza apodrece e morre aos teus pés e tudo se torna incerto.
O que restava de beleza no mundo, desapareceu com o vento, com a chuva, com a queda das folhas.
Não há palavras bonitas, não há doces, filmes ou noites longas na cama, que curem as feridas que se abrem e se mantém.
O frio entranha-se nos ossos e tornam-se parte do frio que carregas na face, nas mãos, nas costas arqueadas.
Todos os sonhos e objectivos de dissipam, como a beleza do mundo, perdem as cores, a vontade, a inspiração. A única vontade que existe nesse novo mundo, é chorar.
O que fazes sozinha sentada na escuridão?
Não estás sozinha, não estás abandonada.
Onde se entranha o medo?
No coração que sempre bateu.
Chora. Sofre.
As coisas melhoram, vais ver.
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sexta-feira, 8 de dezembro de 2017
Vou sentir saudades tuas...
Deixa-me ajudar-te...
Quero ouvir-te, e saber que os meus olhos te dão alento.
Quero ouvir-te, e saber que os meus olhos te dão alento.
Tocar o teu rosto de mão quente e deixar que te deites na palma da minha alma.
Conta-me os medos que te assombram. Os receios que te controlam a vida e o espírito de quem és, que te suga a força e a vontade de seres, de te inspirares.
Desabafa o receio de te perderes de ti, do que já foste.
Sem ti, não consigo respirar!
Apareces em todos os recantos das minhas memórias, como personagem de fundo... E quando penso no nosso último beijo, no ultimo abraço, no ultimo "adeus"; O aperto no peito faz-me chorar a saudade que sinto todos os dias por ti.
É do teu olhar de sorriso tenurento, que vou sentir mais saudade. Dos teus lábios tocarem os meus gentilmente. Do conforto que foi chorar no teu peito, do reconforto que foi ser abraçado por ti.
É o desejo de te voltar a sentir junto de mim, minha, princesa, meu amor eterno...
Que a tua face não desapareça da memória.
Que o teu cheiro e doçura não esbote da minha pele.
Que a tua essência abrace para sempre quem sou.
Foste tu a minha amada. A minha paixão de uma vida, a parte de mim que nunca fui capaz de ser.
És a luz que me ilumina a escuridão do vazio que hoje, neste dia sombrio e frio, se abate sobre mim, me rasga o peito e enche de lágrimas num sofrimento mudo, num mundo que já não faz sentido.
Já senti amor, mas foste tu a primeira que mexeu comigo.
A primeira amizade por quem lutei mais.
A personalidade com quem mais cresci e amadureci.
Que não seja um acabar. Que não seja um adeus. Que o até já esteja ao virar da esquina, e todo o tempo que perdemos nos reencontre, com o mesmo amor e paixão do nosso primeiro beijo, do nosso primeiro abraço, ao pôr do sol, nas Portas de Coimbra, no sitio mais bonito que foi conhecer-te, descobrir-te e amar-te. Um momento ao qual me agarro, pois tudo o que é mais sagrado, aconteceu ali, junto de mim, por ti e para ti.
"Sê gentil contigo, estás a fazer o teu melhor que podes."
terça-feira, 13 de junho de 2017
O Rei sem Coroa...
[Smoke Crown by Maxmilian Jaenicke - Pinterest]
Não governa em lado nenhum e em lado algum se deixa governar.
Há nele a vontade de viver da honra de não ser dominado e de não se deixar dominar.
A morte é o unico rio que não consegue parar, que não conseguu beber ou controlar.
A velocidade, a força e o caudal envenenam-lhe o espírito, que sem reino seu, se descontrola e deambula pelas florestas de pantanos escondidos em cada caminhada que faz com os seus pensamentos e desvaneios.
Não há palácio a não ser um buraco para si.
Não há amigos a não ser a solidão e o silêncio.
Não há vida que brilhe nos seus olhos a não ser a do fogo, na escuridão que cobre a vela de uma chama que um dia lhe saltava do peito.
Não há coroa, não há vida, não há legado que deixe de si, neste mundo que foi só dele e por ele vivido.
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Data: 12/06/2017
A fazer: Passeio com Ana Teresa - Porto
Local: Estação de comboios de Aveiro: 20h - 20h30
Inspiração: Pinterest - A king without a crown (writing prompts).
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domingo, 30 de outubro de 2016
Ele existe em ti, consegues ver?
[Horizon - Pinterest]
Conheces o vazio? Consegues senti-lo? A subir pelo teu corpo, arrastando a tua sombra pelo chão, esticando-a e torcendo-a através do caminho que tomas.
Sentes o frio comer-te as costas e as mãos? O choro da chuva inundar-te a mente de melancolia e fazer descer por ti um diluvio de incertezas e inseguranças? Os desejos e os sonhos dissipam-se na escuridão e um poço é tudo o que tens para usar; sem corda, sem balde, sem água.
Sentes a solidão engolir-te? O horizonte assombra o teu presente com o inevitável fim que antevês, que se aproxima e não muda, não melhora, não se transforma. Caminhas lentamente para ele, o teu fim trágico, onde todos os teus arrepios acordam e gritam apavorados o assombro que se avizinha, ali, ao fundo, aqui tão perto, no agora que se cobre de nuvens.
E não há nada mais bonito que o terror que sentes na alma, no peito. O desejo de abraçar essa negra nuvem que se avizinha, com o nevoeiro que a acompanha como uma capa de herói.
O que ser nesse momento? O que fazer? O que dizer?
O nevoeiro passa por ti, atravessas-o sem mexer um músculo e sentes que te arrasta. Deixa-te levar, qualquer lugar será melhor do que a vida miserável que levas neste mundo em devaneios.
Conheces o vazio? A dor que ele traz? O ódio de que te alimentas? O frio que te derrota?
Queres conhecer o fundo do poço que escavas de mãos despidas e de costas rasgadas? Abre os olhos e chora. A derrota vê-se no horizonte e nunca poderás fugir dela.
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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016
Tenho esperança...
Não olhes para mim como se o mundo fosse acabar. Não olhes para mim como se um adeus não bastasse. Não basta, mas será breve. Crio esperança de te voltar a ver; Recordar a face rosada de sorriso apaixonado, o calor e a fragrância do teu corpo, o sabor da tua pele, a cor da vergonha.
Ouvir-te nesta hora tardia, de lágrimas no rosto, a soluçar um sofrimento antecipado, destrói-me, adoece-me. E é então este abraço apertado que me dás de despedida, que nos arranca a força das pernas; Não estou preparado para te ver sofrer, fazeres das tripas coração por só mais uns minutos comigo.
Que todas as minhas cartas de amor te toquem o coração e te libertem da angústia em que te deixas engolir. Que as minhas palavras te relembrem do que somos, das cores com que pintamos a vida.
És a recompensa mais valiosa, o sonho mais marcante, neste momento em que o sol deixa de brilhar.
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quinta-feira, 24 de setembro de 2015
Não sou histórias repetidas...
["You are more than the mistakes you've made" (Pinterest)]
Sabem aquelas histórias, tristes da vossa vida, ou as loucuras que já fizeram, que contam vezes e vezes sem conta a todas as pessoas que conhecem? Eu tenho uma radio-cassete cheia dessas histórias.
Conto-as várias vezes, tanta vez, que já lhes tirei os pequenos pormenores. É uma palestra tão monotonamente decorada que estou tão farto de repetir que nem sequer me apercebo que só hoje as repeti umas duas vezes.
Talvez seja só eu. Talvez seja de mim. Uma tentativa atrás da outra, na esperança de me ligar a alguém que me compreenda, ou só mesmo que me ouça. Quero ser ouvido? Ou quero que tenham pena de mim? E aprenderem comigo, não era melhor? Falsamente é nisso que acredito; Que as minhas histórias são experiências. Mas estas experiências não têm grande valor na verdade. Ajudaram-me a crescer, é certo, mas hoje são só um disco riscado que ouço e conto sem pensar, porque me habituei à infelicidade do que sou enquanto história de mim mesmo.
Eu não quero ter cassetes, não quero ter histórias destas, quero aventuras! Quero coisas únicas, algo que ensine, que faça rir, que entretenha. Quero contar os meus fracassos aos meus filhos para que eles aprendam através de mim, mas que estes fracassos não façam só parte daquilo que sou.
Eu não sou só esta tristeza.
Eu não sou só estes desamores e sofrimentos.
Eu não sou apenas um jovem amargurado.
Eu tenho incertezas como todos os outros, mas não vivo apenas delas.
Eu sou mais do todas essas cassetes decoradas. Sou uma palestra interessante, acredito.
Sou interessado em aprender, em lidar com crianças, em cozinhar, em amar, em ouvir, em argumentar, em escrever, em fantasiar, e em mil e muitas coisas.
Quero deixar de contar as histórias de experiências falhadas, pois tudo o que sou aos meus olhos não passam de 5/6 contos que comandam as minhas acções. Sou mais do que isso. Muito mais...
Sou capaz de tanta coisa e foco-me apenas nas que me deixaram triste ou frustado. De qualquer forma fico feliz por mim, porque sou capaz de ver o problema de várias perspectivas. De desmontar a ideia e trabalhar em algo diferente. De criar um argumento melhor, solidificar a minha opinião ou emparedar um gosto caricato.
"Who are you? You are not you'r age, color, ethnicity. You'r not possessions, hobbies, believes. If you take away everything you have identify your self with: family, kids, everything; What would be left? who are you?" - Pig (2011)"
Em: O sofrimento do mundo...
Mas lá no fundo, o que sou sem tudo isto? Um conjunto de sentimentos e experiências? Sou o impacto que causo no mundo? Sou o que faço e recebo dos outros?
Na realidade, espremido, não sou nada... Existo apenas na minha mente. Existo apenas nas minhas histórias. Existo num vazio sem sentido, tal como este texto.
Na realidade, espremido, não sou nada... Existo apenas na minha mente. Existo apenas nas minhas histórias. Existo num vazio sem sentido, tal como este texto.
Não sou histórias repetidas, sou os bons momentos que ainda não tive oportunidade de contar.
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quarta-feira, 8 de julho de 2015
O sofrimento do mundo...
"Se imaginarmos, tanto quanto for possível, a soma total de angústia, dor e sofrimento de cada espécie que vive na face da terra, teremos de admitir que teria sido muito melhor se o sol tivesse sido capaz de produzir o fenómeno da vida na Terra em tão fraca quantidade como na Lua; e se, aqui como ali, a superfície fosse de uma calma cristalina." pág. 14 - nº 9 - Sobre o Sofrimento do Mundo de Schopenhauer
"Que a vida humana deve ser algum tipo de erro está suficientemente provado pela simples observação de que o homem é um conjunto de necessidades que dificilmente são satisfeitas; que a sua satisfação nada consegue a não ser uma situação indolor em que apenas cede ao tédio; e que o tédio é uma prova directa de que a existência em si mesma não tem valor, pois o tédio mais não é que a sensação do vazio da existência. Porque se a vida, por cujo desejo consiste a nossa essência e existência, possuísse em si um valor positivo e um conteúdo real, não existiria o tédio: a mera existência encher-nos-ia e satisfazer-nos-ia. Da forma como as coisas são, não temos prazer na existência a não ser quando estamos a lutar por alguma coisa - em cujo caso a distância e as dificuldades fazem com que o nosso alvo pareça satisfazer-nos (uma ilusão que se desvanece quando o atingimos) [...]" pág. 25 nº 5 - Sobre o Sofrimento do Mundo de Schopenhauer
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Ser morto é pior do que só morrer. Mas ser comido vivo é pior do que ser caçado à exaustão.
O ser humano, homo-sapiens, vive e desenvolve-se através de dois pontos que se afastam um do outro. O primeiro degrau é o amor/ódio. Imaginem uma linha cujo o amor e importância que damos ao caminhar se encontra no meio dessa linha, infinita ou não.
Num extremo temos o amor indescritível e incondicional que uma mãe tem por um filho no momento em que nasce; Do outro temos a falta desse amor - o ódio - em que um pai é capaz de tamanha atrocidade como o de espetar agulhas no corpo do seu filho recém nascido ou sufoca-lo com algodão.
O segundo degrau é a defesa do próprio eu através da razão ou pelas próprias mãos. Num extremo encontra-se a razão, que utilizamos cada vez que somos roubados e apresentamos queixa na policia, com a esperança de que o criminoso seja punido; No outro extremo temos a defesa dos nossos direitos pelas próprias mãos, em que se corta uma mão (ou algo pior) a um ladrão, violador e criminoso.
O ser humano, tal como todas as espécies que habitam neste planeta, vivem com um único fim: Serem felizes.
Respirar deixa-nos felizes. Saciar a sede, tomar banho, comer, correr, comunicar, viajar, passear, fazer sexo, deixa-nos felizes. Comprar é algo que se adquiriu à relativamente pouco tempo, graças à industria que controla o mundo através da Moda e das Tendências. Consumir deixa-nos felizes.
Mas esta felicidade não é duradoura. Não dura uma vida inteira. Tem de ser comprada, estimulada, exercitada e desenvolvida. Por essa mesma razão, não existe uma razão de existir, pois ser-se "feliz" não é mais que um conjunto de reacções químicas que nos estimulam o cérebro a lutar para nos mantermos vivos. São emoções, e emoções não são reais, são fabricadas. Esse é o núcleo do instinto animal! Sobreviver. Mas sobreviver é também por si um desejo das próprias células e dos vírus que as compõem. Sobreviver é desejar existir sem a vontade de verdadeiramente VIVER.
Poderemos dizer que de facto Vivemos; Que temos a sorte de poder apreciar a natureza do mundo com toda a sua vida que rasteja, caminha, voa e espalha as suas sementes. Mas esquecemo-nos de que não existe verdadeiramente uma razão de existir. Existimos porque tudo o que compõem este universo foi capaz de criar olhos para podermos ver o seu maravilhoso horizonte crescer e florescer.
A razão das coisas, desde o mais pequeno grão de areia ao maior sol, resume-se apenas a Ser. O que não é o mesmo que existir, pois existir implica interacção "sexual" que leva ao desenvolvimento, adaptação e evolução desse algo, seja astro-físico, seja animal; E a interacção é um acto de existir. Existir é, fundamental e unicamente: ser real, "palpável" e/ou observável.
Ser-se é tédio; Ser é a imobilização de si. Ser é "real" mas não tem valor quando trocado. A razão de Ser e de Existir é nula. Pois se nenhum de nós existisse, nada se perderia neste universo. Nem a sua magnitude se tornaria diminuta, ou os seus espectáculos cósmicos deixaram de se encher de cores exóticas.
A razão da nossa existência e o próprio sentido da vida, são imensuravelmente desvalorizáveis. A cruel verdade do nosso mundo humano, das nossas vidas, da nossa felicidade, do nosso amor, são facilmente embrulhadas como papel e deitadas ao fogo, pois tudo isso não é mais do que tentativas da nossa mente dar um sentido ao que nos rodeia. Queremos permanecer vivos, lutar pela "vida", porque os estímulos que recebemos nos são estranhos, nos fazem falsamente felizes. Todos os prazeres são reacções químicas que se transformam em amor. E o amor é, na sua essência, um desejo de sobrevivência; Quer da "coisa" pelo qual nos apaixonamos, quer de nós mesmos.
E as memórias não são mais que a exigência abominável, e imperceptível, que o próprio cérebro tem em se manter vivo. Não é permanecer "sã", mas vivo, a funcionar! A Existir, a Ser.
Ter e receber amor não é suficiente. Dar e partilhar muito menos. São tudo falsidades. São partidas que o próprio cérebro prega a si próprio. Pois se todos os animais tivessem amor por todos, inclusive as suas vitimas, deixariam de ser animais carnívoros ou herbívoros, pois até as plantas vivem numa paz tediosa em que apenas sobrevivem através da proliferação das suas sementes. Se os animais, tal como as plantas, não tiverem mais nenhum objectivo na vida do que simplesmente semearem-se, partilharem os seus genes, qual a sua razão de existir? Qual é o sentido da vida deles se não for apenas o de Existir? E porque haveríamos nós de ter o verdadeiro valor e significado da vida!? Porque haveríamos de ser egoístas ao ponto de nos acharmos melhores que outra coisa qualquer? Não somos deuses, somos átomos. Não temos verdadeiramente uma identidade, não somos realmente alguma coisa "interessante" até que o cérebro descubra e compreenda para que servem os pés, as mãos, a boca e as orelhas.
A própria felicidade de respirar, surge apenas na calma paisagem, onde o predadores não correm em direcção a nós e não precisamos de lutar pela nossa vida. Nesse único e mísero momento, vivemos a nossa existência. Existimos. Mas esse momento não dura muito tempo. Essa felicidade é efémera, pela simples razão de sermos obrigados a alimentarmos-nos. Logo aí, deixamos de apreciar as coisas, para preocuparmos-nos com elas ao ponto de não tirar os olhos do horizonte, o ouvido do vento e o nariz dos frutos venenosos ou comestíveis.
O próprio sofrimento, que pode ser observado e contabilizado através dos neurónios-espelho, quer através de uma ressonância magnética, pode ser medido.
Ao centro da linha de dois extremos, encontra-se a dor do respirar - o Zero. Num extremo, pela parte positiva, está o nascimento de um filho ou vê-lo cair da bicicleta, do outro está a dor que se sofre ao ver um filho ser atropelado ou bater-nos. A impotência, que surge pela incapacidade de controlar o mundo, as coisas e a nossa própria vida, faz nascer a depressão; E a depressão não é mais do que a revelação do degredo do mundo. Da crueldade e frieza. É nesse momento que a pessoa abre finalmente os olhos para a realidade da "morte" que a rodeia. Tudo é finito, feio e o que é bom acaba depressa. Não há prazer para sentir, não há amor para dar. Tudo deveria morrer. Nada é bonito e bom neste mundo.
O mundo existe, porque precisamos dele, porque interagimos. A simples razão, de um colecionador de pedras, nunca vir a encontrar uma pedra incrivelmente perfeita e sublime para a sua colecção, apenas e só porque esta se encontra inacessível no fundo do oceano, torna a existência daquela pedra tão naturalmente enjoativa e comum, nula. O colecionador não sabe que ela existe, e isso não lhe faz confusão. Mas é aí que entram os desejos insaciáveis do ser humano. Ele pode nunca vir a encontrar a pedra dos seus sonhos, a pedra do mundo, mas irá para sempre, até ao dia da sua morte, procurá-la em todos os cantos do mundo. E essa é fundamentalmente a razão de Viver. Não é sobreviver, é encontrar respostas às nossas perguntas.
Contudo, se nunca fizéssemos perguntas, não obteríamos respostas e o mundo não choraria por causa disso. O reino animal não entraria em colapso e o próprio planeta não se auto-destruía num apocalipse sem sentido.
O vazio, é a razão do universo.
"Depois da tua morte, serás o que foste antes do teu nascimento." pág. 54 nº 2 - Sobre o Sofrimento do Mundo de Schopenhauer
"Who are you? You are not you'r age, color, ethnicity. You'r not possessions, hobbies, believes. If you take away everything you have identify your self with: family, kids, everything; What would be left? who are you?" - Pig (2011)
Ser-se é tédio; Ser é a imobilização de si. Ser é "real" mas não tem valor quando trocado. A razão de Ser e de Existir é nula. Pois se nenhum de nós existisse, nada se perderia neste universo. Nem a sua magnitude se tornaria diminuta, ou os seus espectáculos cósmicos deixaram de se encher de cores exóticas.
A razão da nossa existência e o próprio sentido da vida, são imensuravelmente desvalorizáveis. A cruel verdade do nosso mundo humano, das nossas vidas, da nossa felicidade, do nosso amor, são facilmente embrulhadas como papel e deitadas ao fogo, pois tudo isso não é mais do que tentativas da nossa mente dar um sentido ao que nos rodeia. Queremos permanecer vivos, lutar pela "vida", porque os estímulos que recebemos nos são estranhos, nos fazem falsamente felizes. Todos os prazeres são reacções químicas que se transformam em amor. E o amor é, na sua essência, um desejo de sobrevivência; Quer da "coisa" pelo qual nos apaixonamos, quer de nós mesmos.
E as memórias não são mais que a exigência abominável, e imperceptível, que o próprio cérebro tem em se manter vivo. Não é permanecer "sã", mas vivo, a funcionar! A Existir, a Ser.
Ter e receber amor não é suficiente. Dar e partilhar muito menos. São tudo falsidades. São partidas que o próprio cérebro prega a si próprio. Pois se todos os animais tivessem amor por todos, inclusive as suas vitimas, deixariam de ser animais carnívoros ou herbívoros, pois até as plantas vivem numa paz tediosa em que apenas sobrevivem através da proliferação das suas sementes. Se os animais, tal como as plantas, não tiverem mais nenhum objectivo na vida do que simplesmente semearem-se, partilharem os seus genes, qual a sua razão de existir? Qual é o sentido da vida deles se não for apenas o de Existir? E porque haveríamos nós de ter o verdadeiro valor e significado da vida!? Porque haveríamos de ser egoístas ao ponto de nos acharmos melhores que outra coisa qualquer? Não somos deuses, somos átomos. Não temos verdadeiramente uma identidade, não somos realmente alguma coisa "interessante" até que o cérebro descubra e compreenda para que servem os pés, as mãos, a boca e as orelhas.
A própria felicidade de respirar, surge apenas na calma paisagem, onde o predadores não correm em direcção a nós e não precisamos de lutar pela nossa vida. Nesse único e mísero momento, vivemos a nossa existência. Existimos. Mas esse momento não dura muito tempo. Essa felicidade é efémera, pela simples razão de sermos obrigados a alimentarmos-nos. Logo aí, deixamos de apreciar as coisas, para preocuparmos-nos com elas ao ponto de não tirar os olhos do horizonte, o ouvido do vento e o nariz dos frutos venenosos ou comestíveis.
O próprio sofrimento, que pode ser observado e contabilizado através dos neurónios-espelho, quer através de uma ressonância magnética, pode ser medido.
Ao centro da linha de dois extremos, encontra-se a dor do respirar - o Zero. Num extremo, pela parte positiva, está o nascimento de um filho ou vê-lo cair da bicicleta, do outro está a dor que se sofre ao ver um filho ser atropelado ou bater-nos. A impotência, que surge pela incapacidade de controlar o mundo, as coisas e a nossa própria vida, faz nascer a depressão; E a depressão não é mais do que a revelação do degredo do mundo. Da crueldade e frieza. É nesse momento que a pessoa abre finalmente os olhos para a realidade da "morte" que a rodeia. Tudo é finito, feio e o que é bom acaba depressa. Não há prazer para sentir, não há amor para dar. Tudo deveria morrer. Nada é bonito e bom neste mundo.
O mundo existe, porque precisamos dele, porque interagimos. A simples razão, de um colecionador de pedras, nunca vir a encontrar uma pedra incrivelmente perfeita e sublime para a sua colecção, apenas e só porque esta se encontra inacessível no fundo do oceano, torna a existência daquela pedra tão naturalmente enjoativa e comum, nula. O colecionador não sabe que ela existe, e isso não lhe faz confusão. Mas é aí que entram os desejos insaciáveis do ser humano. Ele pode nunca vir a encontrar a pedra dos seus sonhos, a pedra do mundo, mas irá para sempre, até ao dia da sua morte, procurá-la em todos os cantos do mundo. E essa é fundamentalmente a razão de Viver. Não é sobreviver, é encontrar respostas às nossas perguntas.
Contudo, se nunca fizéssemos perguntas, não obteríamos respostas e o mundo não choraria por causa disso. O reino animal não entraria em colapso e o próprio planeta não se auto-destruía num apocalipse sem sentido.
O vazio, é a razão do universo.
"Depois da tua morte, serás o que foste antes do teu nascimento." pág. 54 nº 2 - Sobre o Sofrimento do Mundo de Schopenhauer
Não há nada mais bonito que a morte!
"[...] we are like the widgets in a math problem, we only exist because of the question, beyond that we don't exist, we don't matter." - Loop (2007)
"Remember everything, for soon there will be nothing" - Desolate (2013)
Inicio: 28/06/2015
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domingo, 18 de janeiro de 2015
O ar que nos entra sai em suspiro...
Nós somos a luz que cai do negro céu,
Nós somos a morte que brota do chão,
Nós somos a criatura que respira,
Somos o filho do tempo,
Somos o sangue da vida,
Somos a pegada do futuro,
Criámos a arte e com ela a memória,
Ensinámos o dialecto antigo e com ele os negócios,
Lascámos a pedra e com ela a morte de todas as coisas,
Vem-te a nós, reino de Deus,
Ajoelhai perante nós, criaturas da evolução,
E esfuma-te deste espaço que nos pertence,
Desta luz que brilha mas não sentes,
Deste espaço negro que nos aprisiona a mente,
Deste tempo que nos dá provas da Nossa existência.
O suspiro apodrecido,
Rasga ossos e pele,
Escama sonhos e desejos,
Cobrindo-nos os pés de mármore.
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quarta-feira, 15 de outubro de 2014
Não pensaram em ti...
O sorriso na tua cara, desapareceu. Escorre pelos pulsos delicadamente cortados, o tom da pele. Sentes o peito frio, o coração desacelerar a marcha e os pulmões desligarem o ar que te corre nas veias. O tempo passa, devagar, e deixas de ter força nos braços para pegar no telemóvel ao teu lado. A coragem para te apoiares nos dois pés, torna-se de novo impossível, e vês-te esvaziar em sangue...
A dor não existe. O mundo à tua volta não existe. És apenas uma dor aguda no teu cérebro. És um filho que não pediu para nascer e para viver... És o teu próprio podre.
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sexta-feira, 23 de maio de 2014
O viajante solitário...
Hoje (22-05-2014), tive um sonho, que tinha tido quando era muito pequeno. Cerca de 4 a 5 nos de idade. No tempo em que ainda dormia no quarto gigante com os meus pais e o meu irmão, cada um num lado da cama. Lembro-me de dormir sempre o lado direito, para quem olhasse de frente para ela (cama), apesar de o meu pai me garantir que todos os dias trocávamos de cama. Segundo nos veio a dizer mais tarde: Conheceu um senhor que na altura em teve filhos, dormia também com cada um do lado da cama. Mas, com o tempo, foi-se apegando mais ao filho que dormia do lado dele do que dormia do lado da mãe. Como o meu pai não queria que isso lhe pudesse acontecer, trocava-nos; Daí a explicação para um acto que podiam achar "estranho".
O sonho em si, talvez não vos diga nada, mas como vejo as coisas de maneira diferente e tento examinar tudo o que me rodeia, vejo, ouço, digo, sonho, vou ter mesmo de pôr por escrito aquilo que vi e porque razão este sonho, há muito esquecido, me é tão... intrigante.
Poderia dizer que era só mais um dos sonhos recorrentes que todos temos ao longo das nossas vidas. O que é perfeitamente "normal", e há até quem estude isso, como é abordado no documentário "NOVA - What Are Dreams?". A primeira coisa que me surgiu à cabeça, foi um sentimento de déjà-vu. Eu próprio me apercebi de que reconhecia o sonho, aquele cenário e mais importante ainda, das emoções.
Bom, terei de dizer que segundo neurologistas, os déjà-vu são um erro do cérebro. Eu não acredito que o meu cérebro tenha erros ou construa falhas. A nossa capacidade de nos relembrar-mos de certas cenas e emoções, esta directamente ligada à memória e à previsão de eventos, o que é imperativamente importante para a nossa sobrevivência. Portanto, dizer o que cérebro tem falhas a esse ponto de déjà-vu, é para mim um erro.
Poderia dizer que era só mais um dos sonhos recorrentes que todos temos ao longo das nossas vidas. O que é perfeitamente "normal", e há até quem estude isso, como é abordado no documentário "NOVA - What Are Dreams?". A primeira coisa que me surgiu à cabeça, foi um sentimento de déjà-vu. Eu próprio me apercebi de que reconhecia o sonho, aquele cenário e mais importante ainda, das emoções.
Bom, terei de dizer que segundo neurologistas, os déjà-vu são um erro do cérebro. Eu não acredito que o meu cérebro tenha erros ou construa falhas. A nossa capacidade de nos relembrar-mos de certas cenas e emoções, esta directamente ligada à memória e à previsão de eventos, o que é imperativamente importante para a nossa sobrevivência. Portanto, dizer o que cérebro tem falhas a esse ponto de déjà-vu, é para mim um erro.
O sonho transportava-me para o interior de uma nave oval branca, como uma espécie de bola de rugby, mas todo o interior estava vazio e o chão parecia feito de azulejos quadrados mais ou menos do tamanho do meu pé. Tinha algo como 14/16 anos, e conseguia ver o universo através de amplas janelas. Não sabia se a nave estava a andar, porque tudo lá fora parecia parado. Um sentimento de solidão abatia-se sobre mim. Estava sozinho. Não ouvia vozes, não existia mais ninguém. Não havia quartos, balcões de cozinha, mesas, comida. Apenas eu, dentro de uma nave ao qual não sabia o destino.
Numa idade em que nunca tinha visto filmes de guerras espaciais ou sobre o universo, apesar de o meu pai me falar disso e possivelmente ter visto alguma imagem na capa de um livro, não tinha o conceito de viajem no espaço ou sequer de uma nave, apesar de reconhecer que conhecia muito bem a sensação de abandono e solidão. Foi um sonho muito vivido na altura, apesar de não o compreender quando acordei. Hoje, quando voltei a sonhar com o mesmo, senti exactamente os mesmos sentimentos. Principalmente a de vazio. Sei que é difícil compreender, e ainda mais difícil é para mim explicá-lo, mas quer eu queria acreditar quer não, isto, não foi um sonho, mas uma memória de uma vida passada. Não, não sou uma reencarnação, mas este sonho é tão intenso, tão real, tão emocionalmente detalhado, que quando acordei, julguei tratar-se de uma memória verdadeira e não só de um sonho que tive quando era criança.
Este viajante solitário, numa nave desprovida de ornamentos, relembrava-me o filme "2001 Odisseia no Espaço", baseado num livro com o mesmo nome, escrito por Arthur C. Clarke. Um filme que viria, muito pouco, já depois dos meus 14/16 anos, e finalmente aos 22 em mais detalhe. Percebi hoje mais tarde, de uma possível explicação para o sonho. Este viajante nunca poderia ser um organismo orgânico, porque não havia comida na nave, e muito facilmente sucumbiria à paranóia do silêncio e da inexistência de contacto físico, tão característico e necessário nos animais. Seria um robô. Uma supra-inteligência que vagueava pelo espaço, de estrela em estrela, de planeta em planeta, à espera do Big-Crunch. Seria um viajante, construído à milhões de anos por uma espécie já extinta. Um viajante sobrevivente a alguns Big-Crunchs, e que existia com um único propósito: Repopular os planetas. Talvez dê um livro, e posso dizer que já o ando a escrever à algum tempo, mesmo antes de ter este sonho. Foi uma inspiração, não haja dúvida, mas também um momento muito estranho para o meu cérebro, para a minha personalidade e percepção daquilo que é a realidade, as memórias e os sonhos.
Um aparte:
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Este viajante solitário, numa nave desprovida de ornamentos, relembrava-me o filme "2001 Odisseia no Espaço", baseado num livro com o mesmo nome, escrito por Arthur C. Clarke. Um filme que viria, muito pouco, já depois dos meus 14/16 anos, e finalmente aos 22 em mais detalhe. Percebi hoje mais tarde, de uma possível explicação para o sonho. Este viajante nunca poderia ser um organismo orgânico, porque não havia comida na nave, e muito facilmente sucumbiria à paranóia do silêncio e da inexistência de contacto físico, tão característico e necessário nos animais. Seria um robô. Uma supra-inteligência que vagueava pelo espaço, de estrela em estrela, de planeta em planeta, à espera do Big-Crunch. Seria um viajante, construído à milhões de anos por uma espécie já extinta. Um viajante sobrevivente a alguns Big-Crunchs, e que existia com um único propósito: Repopular os planetas. Talvez dê um livro, e posso dizer que já o ando a escrever à algum tempo, mesmo antes de ter este sonho. Foi uma inspiração, não haja dúvida, mas também um momento muito estranho para o meu cérebro, para a minha personalidade e percepção daquilo que é a realidade, as memórias e os sonhos.
Um aparte:
Sonhos são uma outra dimensão "física". Quase como um "13º Andar".
Ou serão histórias criadas por nós, para ocultar o que realmente se fez do outro lado?
Outra teoria é a de que nos sonhos, todos nos juntamos.
Serão memórias de vidas passadas?
Talvez também uma maneira de manter o relógio biológico actualizado?
Fui capaz de dissecar o sentido emocional e psicológico de dois sonhos, e todos tinham uma razão. Todos me fizeram re-viver emoções ou aprendizagem, como acontece no dia-a-dia. Cada conversa, cada expressão, cada cena e cenário tinham uma razão psicológica de ser. Como já o disse: mostravam-me coisas que já tinha vivido, visto, ouvido, e situações de interacção humana.
Acredito que sirvam para nos ajudar a continuar a evoluir, errar e aprender. Servirão também para nos ajudar a compreender melhor um problema, visto que o nosso cérebro está mais imaginativo e mais activo durante os sonhos.
Não estamos a dormir, estamos a evoluir.
É também uma forma de treinarmos as nossas capacidades para lidar com situações de stress, violência, vergonha, saudade e felicidade. E podemos revivê-lo várias vezes, sem nunca morrer realmente.
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quinta-feira, 22 de maio de 2014
Silêncio...
Sentia-se o calor da terra e o chão calmo ser varrido por uma leve brisa. As estrelas caiam com o sol e a escuridão enchia o céu, levantando quem de noite não dorme.
Silêncio. Como uma doença profunda e um sono pesado. O som do mundo cessava, permanecendo melancólico, murmurando aos seres uma melodia harmoniosa, leve ao ouvido, maternal ao toque, reconfortando o pêlo e aquecendo o sangue. A natureza fechou os olhos e adormeceu. Ouvia-se o uivo do vento atravessar a terra como um cobertor, uma nota orgânica, que imitava o som do coração.
Silêncio. Tum-Tum. Tum-Tum. O vento parou, o sol desapareceu e tudo morreu, sem gritos ou rugidos. Sem fugas ou esconderijos. As flores perdiam a cor, as pedras o cheiro. Criava-se, alma a alma, um oceano azul infinito, límpido, calmo, que embalava os sentimentos num corpo sem sentidos. Não havia choros, medos ou tristezas, apenas uma paisagem decorada, bela. Uma musa desceu dos céus, pairando sobre um animal. Não haviam palavras a dizer, ou cânticos de embalar. Uma estrela cadente riscou o universo e a musa olhou-a. Deitando-se sobre a relva, contemplou o tenebroso estrondo que se espalhava invisível até onde a vista alcançava.
Silêncio.
Tum-Tum. Tum-Tum.
Os vulcões explodiram e o chão tremeu.
Despertava assim a vida.
Aqui, onde a terra se acaba e o mar começa...
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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Quando olhares para trás...
[pain by laura-makabresku]
Filipe Melo · Ana Cláudia // Spiegel im spiegel (Arvo Pärt)
Gidon Kremer, The Hilliard Ensemble: Arvo Part - Stabat Mater
Filipe Melo · Ana Cláudia // Spiegel im spiegel (Arvo Pärt)
Gidon Kremer, The Hilliard Ensemble: Arvo Part - Stabat Mater
Sou um figurino na história da tua vida. Um adereço que serve simplesmente para entreter os olhos enquanto não desvias o olhar da estrada que segues religiosamente, acreditando que te irá levar ao futuro que programaste meticulosamente durante toda a tua adolescência. Quando olhares para trás, irás deparar-te com uma estrada rodeada por um deserto de nada; e vais-te perguntar para onde foram as flores, a relva, os arbustos, as árvores, os animais e as pessoas que criavam o plano de fundo da tua vida "perfeita".
Quando olhares para trás... já não existes, deixas-te de fazer parte deste mundo. Foste apenas uma recordação egocêntrica, que sem nunca olhar para trás, se desviou da estrada, sem perceber que um dia, seria deixada para trás na emaranhada floresta de fantasias.
No fim, só te terás a ti como a única recordação. Uma recordação que sorri e chora sem saberes; Que se encolhe e agita numa depressão ou numa festa que não controlas. E é então que ao pedires ajuda, tu gritas e soltas do peito a solidão da tua alma aprisionada, sozinha na frieza da tua pessoa, das tuas manhas e tramas. Fazes das tuas histórias um livro, na esperança que te abracem e te digam o que tu própria te tornas incapaz de dizer: "-- És perfeita! És especial! Tenho orgulho em ti! Fazes-me feliz...".
Serras os punhos, os dentes e baixas a cabeça, numa frustração humilhante de viver contigo mesma, sabendo que não podes fugir dela nem voltar para trás. As costas curvam-se numa dor que te aperta o peito e os lençóis arranham-te o corpo. Sentes as paredes conspirar contra ti e o teu cabelo tentar sufocar-te num calor que o teu corpo é capaz de produzir para aquecer duas pessoas. Não és uma delas. Tu queres morrer, desaparecer, voltar à estrada e ser atropelada. Deixada à fome de um carinho na tua cara, de um beijo carinhoso na tua bochecha e de um abraço que te tire o sopro da inocência.
Os suspiros propagam-se, chorando ranhosos pelas paredes do teu EU que teima em continuar a lutar por uma vida que já não te traz alegria. O teu cérebro abandonou-te... proibindo-te de te expressares e de te atraíres. O teu corpo tem inveja... Inveja do mundo que te pode ver, que te pode cheirar e tocar. Tem inveja do que não pode ter e esse ter és tu! O teu Eu que o abandonou na escuridão. O teu Eu egocêntrico viciado numa construção fantasiada por uma menina influenciada no mundo que a julga e a ensina a ser e a tornar-se.
Tenho saudades tuas... do teu sorriso e do teu abraço. Das gargalhadas e das noites abraçados. Da tristeza do teu olhar, dos teus olhos olharem os meus. Dos teus lábios moverem-se ao som da tua voz. Da tua voz, doce, que me embalava e acalmava o turbilhão de desilusões ou dores do passado que me atormentavam o presente. Saudades de acordar contigo e de nos puxarmos para fora da cama, esgrimindo a preguiça com a audácia que tendia em esquecer fazer parte ti.
Tenho saudades de quando olhavas para trás e num só momento, ainda que muito longe de te compreender, me abraçavas, me agradecias, sorrias e perdoavas. Tenho saudades tuas... dos teus sonhos e fantasias, dos teus livros e invenções na cozinha, do sabor na ponta do teu dedo, do cabelo à frente dos olhos e dos teus olhos me olharem no espelho.
No fim, só te terás a ti como a única recordação. Uma recordação que sorri e chora sem saberes; Que se encolhe e agita numa depressão ou numa festa que não controlas. E é então que ao pedires ajuda, tu gritas e soltas do peito a solidão da tua alma aprisionada, sozinha na frieza da tua pessoa, das tuas manhas e tramas. Fazes das tuas histórias um livro, na esperança que te abracem e te digam o que tu própria te tornas incapaz de dizer: "-- És perfeita! És especial! Tenho orgulho em ti! Fazes-me feliz...".
Serras os punhos, os dentes e baixas a cabeça, numa frustração humilhante de viver contigo mesma, sabendo que não podes fugir dela nem voltar para trás. As costas curvam-se numa dor que te aperta o peito e os lençóis arranham-te o corpo. Sentes as paredes conspirar contra ti e o teu cabelo tentar sufocar-te num calor que o teu corpo é capaz de produzir para aquecer duas pessoas. Não és uma delas. Tu queres morrer, desaparecer, voltar à estrada e ser atropelada. Deixada à fome de um carinho na tua cara, de um beijo carinhoso na tua bochecha e de um abraço que te tire o sopro da inocência.
Os suspiros propagam-se, chorando ranhosos pelas paredes do teu EU que teima em continuar a lutar por uma vida que já não te traz alegria. O teu cérebro abandonou-te... proibindo-te de te expressares e de te atraíres. O teu corpo tem inveja... Inveja do mundo que te pode ver, que te pode cheirar e tocar. Tem inveja do que não pode ter e esse ter és tu! O teu Eu que o abandonou na escuridão. O teu Eu egocêntrico viciado numa construção fantasiada por uma menina influenciada no mundo que a julga e a ensina a ser e a tornar-se.
Tenho saudades tuas... do teu sorriso e do teu abraço. Das gargalhadas e das noites abraçados. Da tristeza do teu olhar, dos teus olhos olharem os meus. Dos teus lábios moverem-se ao som da tua voz. Da tua voz, doce, que me embalava e acalmava o turbilhão de desilusões ou dores do passado que me atormentavam o presente. Saudades de acordar contigo e de nos puxarmos para fora da cama, esgrimindo a preguiça com a audácia que tendia em esquecer fazer parte ti.
Tenho saudades de quando olhavas para trás e num só momento, ainda que muito longe de te compreender, me abraçavas, me agradecias, sorrias e perdoavas. Tenho saudades tuas... dos teus sonhos e fantasias, dos teus livros e invenções na cozinha, do sabor na ponta do teu dedo, do cabelo à frente dos olhos e dos teus olhos me olharem no espelho.
Estou aqui, contigo. Agora e até ao teu ultimo momento.
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Ouve, respira, aceita...
Uma melodia tocava nos meus ouvidos, leve, como uma brisa pelos cabelos, levando-me da mente a preocupação. Um carinho gentil, de um amor que chega na primavera. O sol subia a cada passo, acordando do frio a natureza adormecida, hibernada no tempo; E em cada flor, cada pétala, cada folha, podia-se ouvir o espreguiçar cuidadoso. Criava-se à minha volta uma dança apaixonada que não se ouvia, nem se podia ler, mas que se podia sentir e fazer-nos chorar.
Sentei-me na margem do lago, onde as ondas me banhavam os pés e as pernas, num balançar orgânico acompanhando o som de uma música que recordava. Uma memória que me trazia alegria. Um reconforto emocional que não existia em fotografia ou numa peça de roupa. Um gesto, apenas. Uma mão sobre a minha cara e um par de lábios vermelhos, molhados, que embatiam nos meus como um doce. Fazendo crescer o roçar dos nossos corpos numa troca de pólens, de emoções e vibrações.
As notas flutuavam com o meu corpo, enquanto a natureza me carregava no seu ventre. E o seu ventre, era o mundo. Era aquele lago e aquela paisagem que acordava para um dia em que... não haviam oportunidades para aproveitar ou criar, mas uma solidão do cosmos com que se podia dançar.
Ouve...
Respira...
Aceita...
Estás em casa...
Respira...
Aceita...
Estás em casa...
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terça-feira, 26 de novembro de 2013
Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te...
A casa espaçosa, vazia do som do meu mundo, iluminava-se pelas estrelas que pintavam o negro manto da solidão. A calma pairava no ar, sentindo-se como um sussurro partilhado entre dois predadores, à espera do momento certo para atacar. Através da ampla janela, via a fúria do vento dobrar as árvores do outro lado do rio. O vento levar com força a água e levantar no ar as folhas mortas. De vermelho, surgia a lua, entre nuvens que rompiam o céu com trovões longínquos, gritando pelo ar o seu rugido tenebroso. Um som arrepiante que nos fez enraizar na espinha, os nervos que nos fazem tremer de medo.
Do outro lado da sala, lá fora, onde a chuva começava a arranhar a porta, ouvi o carro dela chegar, como o ronronar de um gato que não desiste de colo. Como uma prenda de natal que se esconde debaixo da árvore ou numa gaveta antiga, à espera do seu momento. Na minha barriga senti as borboletas. Continuo a ser o homem que vibra cada vez que entras numa sala. Cada vez que sorris para mim, me beijas, abraças, ou agarras na Joana como se fosse um avião. Cada vez que vos vejo brincar, é como se voltasse à casa da criança, sentindo inveja por não ser eu a ter aquele brinquedo ou a brincar com aquela menina.
Entraste em casa, e como todos os dias, penduraste o casaco. Com um puxo apanhaste o cabelo e tiraste os sapatos à miúda reguila.
Percorreste a sala em direcção à cozinha, e num piscar de olhos, o teu corpo parou, tornou-se pálido. Um arrepio desceu-te pela espinha como uma faca afiada. À tua frente, estava eu. Com um grande sorriso na cara e uma lâmina prateada na mão. Da escuridão que te enegrecia a mente, só conseguias ver os meus olhos, por baixo da máscara de carnaval.
-- Boa noite amor... -- recebi-te.
A tua expressão facial era orgásmica! Cada músculo parecia contorcer-se de medo, enquanto o pestanejar desaparecia com o meu aproximar calmo e sereno.
-- Joana! -- gritaste esganiçadamente, correndo pela casa como uma galinha sem cabeça, à procura da tua pintainha. Os teus pés ecoavam pelo soalho, num murmúrio que exteriorizava aflição. Presegui-te então como um fantasma de uma casa assombrada, fazendo sentir a minha presença através das botas pesadas pelas escadas acima. Os teus gritos vibravam nos meus ouvidos, uma melodia harmoniosa que se abraçava ao choro do teu passarinho escondido entre os teus braços tão sexys.
Entraste em casa, e como todos os dias, penduraste o casaco. Com um puxo apanhaste o cabelo e tiraste os sapatos à miúda reguila.
Percorreste a sala em direcção à cozinha, e num piscar de olhos, o teu corpo parou, tornou-se pálido. Um arrepio desceu-te pela espinha como uma faca afiada. À tua frente, estava eu. Com um grande sorriso na cara e uma lâmina prateada na mão. Da escuridão que te enegrecia a mente, só conseguias ver os meus olhos, por baixo da máscara de carnaval.
-- Boa noite amor... -- recebi-te.
A tua expressão facial era orgásmica! Cada músculo parecia contorcer-se de medo, enquanto o pestanejar desaparecia com o meu aproximar calmo e sereno.
-- Joana! -- gritaste esganiçadamente, correndo pela casa como uma galinha sem cabeça, à procura da tua pintainha. Os teus pés ecoavam pelo soalho, num murmúrio que exteriorizava aflição. Presegui-te então como um fantasma de uma casa assombrada, fazendo sentir a minha presença através das botas pesadas pelas escadas acima. Os teus gritos vibravam nos meus ouvidos, uma melodia harmoniosa que se abraçava ao choro do teu passarinho escondido entre os teus braços tão sexys.
A tua aflição acalma-me e a tua filha excita-me...
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quinta-feira, 7 de novembro de 2013
O caranguejo que viu o mundo morrer...
No horizonte, subia sozinho lentamente entre nuvens no céu azul, um Sol como nunca antes tinha nascido. A manhã escura, naquela praia invadida por pedras negras, iluminou lentamente a conquista que a natureza construía em cada buraco e saliência do paredão natural.
A maré subia com a luz, vagarosamente, em silêncio. Não se ouvia o vento nem a natureza, as aves ou as árvores. Por entre o rebentar das ondas, sentia-se o vazio do planeta. Não havia criaturas por perto para testemunhar o silêncio, se não o único caranguejo laranja que surgia inesperadamente debaixo de uma das pedras submersas pela água.
Subia a costa de lado, e ao chegar a terra seca, virou-se de frente para a grande pirâmide que ainda bloqueava o Sol. As cores no céu, antecipavam uma dança sombria. A morte do mundo. A morte das coisas, do calor, dos amigos e dos inimigos, do vento e da chuva. Sem qualquer forma de saber explicar, sentiu dentro de si o fim. Invadira-o como uma calma, um pensamento vazio, um odor agradável e um conforto caloroso. Hoje, será o ultimo dia que verá o Sol. Será o fim da pesca e das caminhadas, será a extinção inaudível da árvore da vida.
A água tocou-lhe os olhos e a onda puxou-o com ela. Deixou-se levar, envolto no cobertor transparente que espelhava a ultima viajem das nuvens. A escuridão abateu-se sobre ele, sentindo-se esquecido numa morte fulminante das cores, voltando então a ser recebido em êxtase pelo círculo milagroso da origem da vida. O calor apertava-lhe a carapaça e afundou-se, descendo ao fundo do oceano que o germinou. Ao fundo que levaria de volta, por direito, as carcaças de uma enorme evolução natural.
E sendo Nak, fruto da imaginação de um humano, ao interiorizar o fim de tudo, choraria com medo do seu desaparecer invisível, da calma com que se tornaria mais um na grande extinção à escala global. Porque estar sozinho, no fim, seria uma das maiores dádivas merecidas por todo o valor que nunca trouxe ao mundo. Mas saberia reconhecer! Porque deslumbrar o ultimo dia do universo, sentir o ultimo raio de luz entrar nos seus olhos e logo depois a escuridão gelada que nunca foi capaz de imaginar, faziam-no, não um humano de consciência, mas um animal que no fim dos seus dias, sentiu o seu fim.
Numa viajem até às profundezas do oceano que o viu nascer, fugiu assim ao contar das horas, dos minutos e dos segundos que lhe levariam os sonhos e as memórias.
Lá em cima, onde o Sol subia os céus, e cada molécula podia vibrar com vida, surgia já velha a escuridão, pesando em cada piscar de olhos, os fardos perdoados. O pano do teatro do pó das estrelas, fechava-se assim, no esquecimento gélido pintado pelas galáxias longínquas.
É na morte, que a natureza ressuscita...
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segunda-feira, 4 de novembro de 2013
O que és tu para ti mesmo?
Calquei o chão, negro, morto. Respirei fundo e senti uma calma apoderar-se dos meus ossos, levando-me ao chão como uma tragédia retirada de uma opera. Uma leve brisa passou pelo meu corpo, entre cada pêlo dos meus braços, no pescoço transpirado e carinhosamente entre as orelhas. A frescura que me enchia os pulmões, desceu pelas pernas como um banho de seda. Senti-o mais frio nos joelhos acabando por desaparecer entre os dedos dos pés que se descalçavam do cansaço entre a terra húmida revirada.
Sozinho, enfiado num buraco empestado de morte, pintado de uma depressão que não queria ver e viver. Rodeado por um vazio infinito, de betão e destruição. Levantei os olhos, pintados pelo choro do medo de para sempre ficar aprisionado e inspirei. Os olhos fecharam sem força e o cobertor negro caiu sobre mim, aquecendo cada parte do meu corpo com o esquecimento da nudez que me vestia. Deixei-me por momentos desligar daquele lugar maldito e quando abri por fim os olhos, re-encontrei-me numa floresta colorida, que se despia num tom amarelo e vermelho, através de folhas que dançavam em direcção ao chão.
Ergui-me, semeando com as mãos a terra que agarrava com força. Entre os dedos sujos senti um gelo trepar, provocando-me um arrepio pela espinha abaixo. Com alguma força, a criatura agarrou-me uma mão, com mais força a outra. Com o medo a afogar-me numa arfar intenso, olhei com coragem que não tinha para o meu lado esquerdo e encontrei pequeno, uma menina de cabelos encaracolados, de olhos grandes e com um grande sorriso no rosto. Segurou-me melhor, e senti algo respirar ao meu ouvido. Uma mulher, alta, magra, nua tal como eu. Com um sorriso ligeiro e doce, aproximou-se da minha cara sem nunca desviar o olhar dos meus e beijou-me como se aceitasse a morte entrar no seu corpo.
As duas olharam em frente, para o interior de uma floresta que escurecia até ao horizonte, e da mesma forma que me arrastara até àquele ponto, arrastaram-me elas até à escuridão do desconhecido que temia com tudo o que me tornava eu em mim mesmo.
Tudo o que julgas saber, faz parte de um jogo que criaste na tua cabeça. Tudo o que sentes em cada momento, é como uma pista que te faz esquecer as regras. Porque tudo o que te faz cair tem a mesma força daquilo que te ajuda a levantar. Porque tudo o que construíste "por ti", é apenas um conto de fadas do qual não queres que a história acabe. Foi no momento que nasceste que a tua mãe perdeu o seu mártir e fez de ti o seu "mais que tudo", levando-te na garganta, propagando os teus feitos como um sermão, como uma doutrina e uma religião que seguirá até ao dia do seu momento final. Farás então um esforço para que a cruz não te persiga e o seu peso não se faça notar na tua cara mas na tua mente "tão matura". E o dinheiro que poupas tão religiosamente, servirá para pagar à voz de Judas, que te assombre a mente todos os dias, para o resto da tua vida, sobre tudo o que não te orgulhas. Um jogo psicológico, no qual jogas apenas tu, sem controlo, e que, sem saberes, saltitas para a destruição de ti mesmo. Tu corres para a partida e não para a meta.
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Medo...
Ergui-me, semeando com as mãos a terra que agarrava com força. Entre os dedos sujos senti um gelo trepar, provocando-me um arrepio pela espinha abaixo. Com alguma força, a criatura agarrou-me uma mão, com mais força a outra. Com o medo a afogar-me numa arfar intenso, olhei com coragem que não tinha para o meu lado esquerdo e encontrei pequeno, uma menina de cabelos encaracolados, de olhos grandes e com um grande sorriso no rosto. Segurou-me melhor, e senti algo respirar ao meu ouvido. Uma mulher, alta, magra, nua tal como eu. Com um sorriso ligeiro e doce, aproximou-se da minha cara sem nunca desviar o olhar dos meus e beijou-me como se aceitasse a morte entrar no seu corpo.
As duas olharam em frente, para o interior de uma floresta que escurecia até ao horizonte, e da mesma forma que me arrastara até àquele ponto, arrastaram-me elas até à escuridão do desconhecido que temia com tudo o que me tornava eu em mim mesmo.
Tudo o que julgas saber, faz parte de um jogo que criaste na tua cabeça. Tudo o que sentes em cada momento, é como uma pista que te faz esquecer as regras. Porque tudo o que te faz cair tem a mesma força daquilo que te ajuda a levantar. Porque tudo o que construíste "por ti", é apenas um conto de fadas do qual não queres que a história acabe. Foi no momento que nasceste que a tua mãe perdeu o seu mártir e fez de ti o seu "mais que tudo", levando-te na garganta, propagando os teus feitos como um sermão, como uma doutrina e uma religião que seguirá até ao dia do seu momento final. Farás então um esforço para que a cruz não te persiga e o seu peso não se faça notar na tua cara mas na tua mente "tão matura". E o dinheiro que poupas tão religiosamente, servirá para pagar à voz de Judas, que te assombre a mente todos os dias, para o resto da tua vida, sobre tudo o que não te orgulhas. Um jogo psicológico, no qual jogas apenas tu, sem controlo, e que, sem saberes, saltitas para a destruição de ti mesmo. Tu corres para a partida e não para a meta.
Abre os olhos. Estás a errar e ainda não te deste conta...
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Medo...
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domingo, 25 de agosto de 2013
Angustia...
Vi, o calor desaparecer por trás de mim, caindo na relva e no topo das árvores, como um adeus já tardio. Levava com ele as horas, a energia, as corridas e a caça aos pássaros. Senti frio uma brisa levantar voo sobre o meu pêlo, intensificado a saudade da ausência de tempo para conquistar e descobrir novos territórios, conversar com os vizinhos e escorraçar os intrusos.
À uma semana que não vejo a borboleta que me fez correr atrás dela e fazer-me aventurar como o meu coração nunca o tinha feito. De olhar para ela quando batia as asas, ao invés de lançar as garras sobre as suas cores tão profundas, tão destacadas das outras cores mortas que me rodeiam. Observar com detalhe o bater leve das asas, quando parada, como o bater do meu coração quando me deito sobre o telhado e vejo as luzes longínquas da noite piscar e caminhar na sua vida tão calma.
A manhã foi calma, a tarde calorenta e agora que tudo acaba, sinto a angústia afogar-me os olhos, apertar-me o peito e impedir de voltar para o cama que me abraça e esfrega o pêlo. Angústia de não saber por onde anda e onde apenas vôo. Porque olhar para o pôr do sol lembra-me e aquece-me as notas musicais daquela menina sempre gulosa pela minha barriga. Daqueles dias escuros em que não me atrevia a sair muito de casa ou do seu colo. Dos dias da comida na taça e dos presentes, mortos, que lhe levava com tanto carinho como prenda de anos.
Já não ouço o ronronar da besta metálica, os sacos das compras ou a chave entrar na porta. Não ouço a sua vida mas ainda sinto a sua voz doce aos meus ouvidos, ainda sinto a sua mão no meu corpo e os seus olhos grandes incomodarem-me a alma traquina.
Estou só, perdido, desconhecido, à espera que outra vida me receba e cuide tão bem como eu os protejo das pragas e dos dias que passam em angustias e solidão.
À uma semana que não vejo a borboleta que me fez correr atrás dela e fazer-me aventurar como o meu coração nunca o tinha feito. De olhar para ela quando batia as asas, ao invés de lançar as garras sobre as suas cores tão profundas, tão destacadas das outras cores mortas que me rodeiam. Observar com detalhe o bater leve das asas, quando parada, como o bater do meu coração quando me deito sobre o telhado e vejo as luzes longínquas da noite piscar e caminhar na sua vida tão calma.
A manhã foi calma, a tarde calorenta e agora que tudo acaba, sinto a angústia afogar-me os olhos, apertar-me o peito e impedir de voltar para o cama que me abraça e esfrega o pêlo. Angústia de não saber por onde anda e onde apenas vôo. Porque olhar para o pôr do sol lembra-me e aquece-me as notas musicais daquela menina sempre gulosa pela minha barriga. Daqueles dias escuros em que não me atrevia a sair muito de casa ou do seu colo. Dos dias da comida na taça e dos presentes, mortos, que lhe levava com tanto carinho como prenda de anos.
Já não ouço o ronronar da besta metálica, os sacos das compras ou a chave entrar na porta. Não ouço a sua vida mas ainda sinto a sua voz doce aos meus ouvidos, ainda sinto a sua mão no meu corpo e os seus olhos grandes incomodarem-me a alma traquina.
Estou só, perdido, desconhecido, à espera que outra vida me receba e cuide tão bem como eu os protejo das pragas e dos dias que passam em angustias e solidão.
Borboleta, para onde foste?
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segunda-feira, 19 de agosto de 2013
Aproxima-te...
Das profundezas obscuras da minha mente, subiam-me pelas paredes do cérebro, gritos vindos do inferno. Gritos de dor e sofrimento que arranhavam as caras e desmembravam corpos. Espalhando sangue por todo o lado, como uma chacina violenta. Os cadáveres cravavam as foices na garganta rebentada em pus, aliando-se a uma dor de cabeça tão forte que provoca um enjoo doentio. O sorriso era trocado e apedrejado, esfaqueado pela mão assassina de um rosto sem máscara. As costas esfoladas, com a pele arrancada dos ossos, rasgando músculos e tendões.
A mão que acaricia, é a mão que ordena a morte, que te aponta a bala à testa e a faca ao coração. O punho que se fecha sobre a tua cara rosada, a estalada que te rebenta os lábios de batom. Arrancar dos cabelos o brilho, desfazer os caracóis e traçar na cara um grande "não". Aproxima-te da escuridão em que me fecho, deixa-te aprisionar na tortura da minha selva descontrolada, na frieza que te desnuda e no calor que te desconforta. Queres ser só mais uma? Então encosta-te a mim de deixa-te ser seduzida e violada em tudo o que te torna gente. Deixa que a minha pessoa te influencie e te domine. A liberdade que julgas ter é apenas uma ilusão.
A mão que acaricia, é a mão que ordena a morte, que te aponta a bala à testa e a faca ao coração. O punho que se fecha sobre a tua cara rosada, a estalada que te rebenta os lábios de batom. Arrancar dos cabelos o brilho, desfazer os caracóis e traçar na cara um grande "não". Aproxima-te da escuridão em que me fecho, deixa-te aprisionar na tortura da minha selva descontrolada, na frieza que te desnuda e no calor que te desconforta. Queres ser só mais uma? Então encosta-te a mim de deixa-te ser seduzida e violada em tudo o que te torna gente. Deixa que a minha pessoa te influencie e te domine. A liberdade que julgas ter é apenas uma ilusão.
Regurgito de mim as memórias violadas, o sangue lambido e o assassino que embelezo em cada morte.
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sábado, 8 de junho de 2013
Um peixe sem sermão...
O branco da minha pele, confundia-se com a neve. A pele rasgava-se a cada sopro do vento que me arranhava as orelhas e cortava as mãos. Um frio intimo, que me abraça e faz o coração disparar. As suas mãos enrolam-se nas minhas costas, trauteando nos ossos da coluna cansada.
Os cabelos imitavam as ondas das águas, encaracolando-se, molhado-se, tornando-se um peso. Todo o meu corpo estava louco, incontrolável. Cada pequena parte, parecia estar em auto-destruição, e até o meu cérebro começara a dar sinal de demência.
O meu Eu ficou sozinho. Enjaulado. A verdade é que também não poderia fugir.
Uma rabanada de vento, fez-me comer cabelos e agarrar com força à terra que me parecia engolir a cada subida do caudal do rio. Mas o meu corpo inerte, congelado pela saudade, pela solidão e pelo choro que me descia pela bochechas vermelhas, permanecia em fúria, sem dono e sem rédeas. Um formigueiro subiu-me pela braço. Soube naquele momento, que a morte estava próxima.
-- Ana! -- ouvi gritar. -- Ana! Ana! -- ouvi de novo, camuflado pelo som da espuma junto aos meus ouvidos, distorcido e retorcido pelo vento uivante que passava sobre mim. Que caminhava pesada e demoradamente, apertando cada ponta de osso exposto. Nem voz nem forças. Para sempre aprisionada na posição desencaixada, à margem de um rio sem sentimentos ou consciência. Um espírito narciso que me fazia flutuar para longe do meu miradouro.
As pedras batiam-me nas costas, partindo em cacos a cabeça já parcialmente vazia do meu alguém. Parti num barco rachado, afundado pelas lágrimas, na violência caótica de uma violação cerebral que me arrastou através de um bosque do qual lhe conhecia apenas as sombras, os gestos, as vozes e os seus cheiros. Fui abandonada e ali me deixaram, à beira de um rio que crescia, sem me antes terem ensinado a nadar.
Não tive o meu sermão, e agora pago ao ser reciclada pela malícia da natureza egocêntrica.
Sou um peixe em águas profundas. Demasiado profundas...
-- Ana! -- ouvi gritar. -- Ana! Ana! -- ouvi de novo, camuflado pelo som da espuma junto aos meus ouvidos, distorcido e retorcido pelo vento uivante que passava sobre mim. Que caminhava pesada e demoradamente, apertando cada ponta de osso exposto. Nem voz nem forças. Para sempre aprisionada na posição desencaixada, à margem de um rio sem sentimentos ou consciência. Um espírito narciso que me fazia flutuar para longe do meu miradouro.
As pedras batiam-me nas costas, partindo em cacos a cabeça já parcialmente vazia do meu alguém. Parti num barco rachado, afundado pelas lágrimas, na violência caótica de uma violação cerebral que me arrastou através de um bosque do qual lhe conhecia apenas as sombras, os gestos, as vozes e os seus cheiros. Fui abandonada e ali me deixaram, à beira de um rio que crescia, sem me antes terem ensinado a nadar.
Não tive o meu sermão, e agora pago ao ser reciclada pela malícia da natureza egocêntrica.
Sou um peixe em águas profundas. Demasiado profundas...
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sexta-feira, 10 de maio de 2013
A chuva faz-me companhia...
A chuva batia na janela com força. Parecia que alguém do outro lado me gritava para ir até ela, ver a natureza do vento torcer os ramos das árvores e a fúria da água ensopar os jardins e matar os canteiros. Aquele som picado, trespassava a janela. Já não eram gritos, eram murmúrios acompanhados por grandes relâmpagos que rasgavam o céu negro, pesado, sombrio e obscuro.
A criança tremeu dentro de mim, à medida que me aventurava até à janela. Senti o cheiro da terra e da água nas tábuas velhas da janela. Senti um frio percorrer-me os pêlos dos braços e dançar nos ossos das minhas costas. Arrepiei-me e um relâmpago desfez o chão. Os tambores ressoaram pelo quarto, pelos meus ossos e ouvidos. Caí no chão ao lado da cama, e sem tempo para me acalmar, a escuridão transforma o meu quarto. A luz falta, ninguém está em casa. Sinto-me sozinha...
Entre as nuvens, aparece uma Lua pálida de morte. O forte brilho tornou-se meu companheiro, meu amigo. Uma personagem imaginária, sem cara ou voz. Que zela por mim, pelo menos por enquanto...
Os grossos lençóis forram-me as pernas geladas, as almofadas protegem-me do desconforto dos relâmpagos e assim fico, deitada, neste quarto vazio e despido. Aperta-me nas mãos, não o frio, mas a saudade do calor; A saudade de não ter, mãos que me aqueçam os dedos presos e o coração apertado. Quase consigo associar os raios a memórias difíceis, a tristeza que tento esquecer, em vão, de um passado que me é todos os dias presente e não sai, não acaba, não expira. As lágrimas da saudade, da pena de não ter na cama mais uma fonte de calor e um grande abraço para me aconchegar como me fazia a mamã quando eu era mais pequenina... brotam e deixam a marca de um pensamento que temo ser real, que se torne verdadeiro, em mais um sapo e num momento difícil onde certamente irei tropeçar, rasgar as calças e ser gozada.
O tempo acalmou e faz agora dançar o seu som nos meus ouvidos.
A natureza cortou-me a comunicação. A minha língua não mexe, apenas gagueja. O meu corpo não respira, não trabalho. Fechou por motivos que desconheço e que já não sonho. Esqueci ou afastei dele, daquela pequena maça cinzenta que me pesa na testa, a realidade. Já não lembro nem penso. O piloto automático controla o medo e faz trabalhar os membros enferrujados, esquecidos, como as palavras que posso apenas ler. Ouvir? Fechou-se longe e lá se mantém até que o traga de novo pela mão, prometendo pela viagem, um grande doce e um carinhoso beijinho.
Quero ser amada de novo, agarrada com força e sentir nas palavras, o que tenho medo de nunca vir a ter.
Não quero que este dia acabe, a chuva faz-me companhia.
Quero ser amada de novo, agarrada com força e sentir nas palavras, o que tenho medo de nunca vir a ter.
Não quero que este dia acabe, a chuva faz-me companhia.
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