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sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Vou sentir saudades tuas...

[Im Fine. - Pinterest]
[Be gente. - Pinterest]


(played during a thunderstorm)


Deixa-me ajudar-te...
Quero ouvir-te, e saber que os meus olhos te dão alento.
Tocar o teu rosto de mão quente e deixar que te deites na palma da minha alma.
Conta-me os medos que te assombram. Os receios que te controlam a vida e o espírito de quem és, que te suga a força e a vontade de seres, de te inspirares.
Desabafa o receio de te perderes de ti, do que já foste.

Sem ti, não consigo respirar!
Apareces em todos os recantos das minhas memórias, como personagem de fundo... E quando penso no nosso último beijo, no ultimo abraço, no ultimo "adeus"; O aperto no peito faz-me chorar a saudade que sinto todos os dias por ti.
É do teu olhar de sorriso tenurento, que vou sentir mais saudade. Dos teus lábios tocarem os meus gentilmente. Do conforto que foi chorar no teu peito, do reconforto que foi ser abraçado por ti.
É o desejo de te voltar a sentir junto de mim, minha, princesa, meu amor eterno...

Que a tua face não desapareça da memória.
Que o teu cheiro e doçura não esbote da minha pele.
Que a tua essência abrace para sempre quem sou.
Foste tu a minha amada. A minha paixão de uma vida, a parte de mim que nunca fui capaz de ser.
És a luz que me ilumina a escuridão do vazio que hoje, neste dia sombrio e frio, se abate sobre mim, me rasga o peito e enche de lágrimas num sofrimento mudo, num mundo que já não faz sentido.

Já senti amor, mas foste tu a primeira que mexeu comigo.
A primeira amizade por quem lutei mais.
A personalidade com quem mais cresci e amadureci.
Que não seja um acabar. Que não seja um adeus. Que o até já esteja ao virar da esquina, e todo o tempo que perdemos nos reencontre, com o mesmo amor e paixão do nosso primeiro beijo, do nosso primeiro abraço, ao pôr do sol, nas Portas de Coimbra, no sitio mais bonito que foi conhecer-te, descobrir-te e amar-te. Um momento ao qual me agarro, pois tudo o que é mais sagrado, aconteceu ali, junto de mim, por ti e para ti.


"Sê gentil contigo, estás a fazer o teu melhor que podes."

domingo, 28 de maio de 2017

O dia começou...


Saio do trabalho, meio-dia, sábado. O sol toca-me na pele, aquece-me pelos braços despidos. Hoje sinto-me inspirado.
Desejoso por chegar a casa e ver-te de mangas arregaçadas, debruçada sobre os tachos a fumegar. Ansioso pelo teu sorriso e o olhar cansado, de quem pede um carinho, um mimo, um beijo e um abraço.
Passo a mão no teu rabo, subindo gentil com as pontas dos dedos por cada nó de osso nas tuas costas e delicio-te com um beijo de saudade.
Enrolo-me de abraço no teu corpo, e deslizo as mãos sobre as tuas, lavando as mãos com as tuas, no escorrer que me acalmava a vontade. Beijo-te de novo.
Nas pernas sinto então umas mãos pequeninas, enchendo a casa de gargalhadas e risos pequeninos. Os caracóis mexiam com rebeldia enquanto o corpo se colava ao meu, com saudade, com amor, da mesma forma que eu me agarrava a ti.
Apanhei-a no meu colo, assim como quem pega num bebé, e enchi de beijos o que nos era tão especial; tão traquina; tão irrequieto.
Acabaste a louça, mexes-te o tacho fumegante e correste para nós, já sem avental, já sem os olhos cansados, já sem a tristeza no rosto.

O sol atravessa a sala conquistada por bonecos. Os desenhos lutam na caixa mágica e os pais sobre o sofá. Tenho saudades de ti, amor. Tenho saudades do tempo.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Hipnótica

[Wuthering Heights - Pinterest]


Hipnótica. É a palavra que melhor descreve o teu rosto. Só um poeta apaixonado seria capaz de pintar uma obra da tua beleza.
Os teus olhos não me penetram, chamam-me a ti, fazem-me questionar a sanidade da razão e ponderar a loucura. A misteriosa dor que é te olhar, a da paixão, de te conhecer e saborear em cada palavra "louca" que teces na minha mente, numa conversa que só faz sentido no coração que já não pertence a nenhum de nós.

Sê simples, sê mulher. Sê, sem nunca te fechares do mundo; principalmente de mim. Quero ver o teu sorriso ao acordar de manhã, para o resto da vida, e inspirares-me com toda a tua essência.
Sê minha. Faz-me crescer. Pois do que do que depender de mim, já mais te largarei a mão, os pés nunca terão descanso e a mente viajará na nossa história, nos nossos sonhos, nas nossas conquistas.


Encontrar-te, foi mágico.
Conhecer-te, um desafio.
Mas amar-te... divino!

sábado, 30 de abril de 2016

A fã...

[Ksenia Morozova - Pinterest]


Aproximou-se da mesa negra e deitou o queixo sobre os braços cruzados. Olhou-me vidrada, com brilho, com sedução, com provocação nos lábios e no inspirar do nariz. Suspirou. Sorrio-me.
-- Adoro o teu cabelo! Adoro... a tua face, e a barba. Adoro!
-- Obrigado. -- respondeu o rapaz claramente inexperiente em elogios.
Os olhos da fã fanática da sua aparência, colavam-se à sua divindade como super-cola. O cabelo liso que lhe caia sobre a pálida face, de maçãs redondas e rosadas de amor platónico, bloqueavam todo o mundo à sua volta. Os ouvidos filtravam o ar e dirigiam toda a sua atenção ao seu ídolo.
-- Costumas ser assim com toda a gente?
-- Não. -- respondeu prontamente. -- Só contigo! -- rasgou o sorriso.
O síndrome de Estocolmo começava a abraçar-me; Sentia-me enfeitiçado pela forma em como me jurava fidelidade. O largo olhar penetrava-me o sangue. O seu perfume reagia vorazmente com os meus sentidos.
Agarrou-me a mão fria com o seu coração quente e o chão desapareceu-me dos pés. Fui sequestrado.
-- Queres ir passear? A mim apetece-me ir passear. Vamos aproveitar o sol! -- puxou-me.
A razão voou, para bem longe, escorraçada pelo distúrbio sinistro da paixão de um amor à primeira vista.

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A partir do momento em que virem a foto original, esta deixará de ter tanto impacto.
E até essa, não será nada comparada com esta.

terça-feira, 1 de março de 2016

A rapariga que cheirava a pão quente... [3]

Sentada à mesa, olhando pela janela, a avó observava as aventuras da neta que tão vincada na sua memória a faziam lembrar a própria filha, que fugia brincando dos patos e das galinhas, que se tornava mãe dos coelhos e pintainhos. O avô juntou-se à avó na recordação do tempo. O que era a velhice sem netos e bisnetos?
O avô aproximou-se da sua amada, deu-lhe a mão, e num momento indecifrável, por qualquer animal ou pessoa neste mundo, partilharam uma pequena memória. Sofia tinha a mãe impregnada no corpo.
Viram-na correr até ao fundo da quinta, trepando a muralha que separava a vinha do vizinho dos animais do seu avô, cuja gula não tinha fim.
O Sol dizia-lhe "Olá", e ela juntava todas as coisas à sua festa; o seu sorriso, a sua energia, o seu olhar, as suas mãos delicadas. Sentia o ar entrar-lhe nos pulmões, sem venenos ou doenças, e assobiava uma música clássica, que recordava de quando era criança. Um som que dançava com o incenso do quarto do pai e que parecia vir das próprias paredes escondidas pelos livros. Tornara-se na melodia que melhor descrevia o seu espírito. Juntava o primeiro passo com a primeira mesada. Recordou o toque pesado do vinil na sua mão, cuja escuridão da sua cor sempre lhe dera um ar misterioso e sinistro.
Perdida por um momento, procurou os seus avós ao longe. Olhavam-na num só sorriso. A avó acenou.
Vagarosa e curvada, preparou a mesa para fazer um bolo. O seu melhor amigo de amor eterno, deixou-se cair no sofá. Ajeitou a lenha na lareira, incitando o fogo a rugir, e deu-lhe de comer mais umas cavacas compridas.
Finalmente o cheiro da farinha sentia-se no ar. 

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Somos a criatura que melhor combate o tédio...

[Gardening - Bibury, England August]

O homem vive única e exclusivamente para satisfazer o tédio de viver. Não há nada de relevante em se ser vivo e em estar vivo. Sobreviver é por si só a necessidade de não sucumbir ao tédio. Tanto a caça como a fuga são as raízes que sustentam a árvore da nossa consciência que não quer estar aborrecida e parada. A consciência dá então origem ao interesse pelo que nos rodeia, às perguntas sem resposta. Uma consciência, a nossa, que transcende a capacidade de pensar dos animais de forma abstracta. E mesmo que lhes seja ensinado, aos animais, os números e as cores, em nada isso muda a sua vida enfadonha; Torna até pior, pois agora os animais "educados" fazem ainda mais perguntas, pois compreendem ligeiramente melhor o que vêm e talvez até o que sentem.
Provando assim que o ser humano, tal como os animais, não têm qualquer tipo de plano divino ou astral nesta vida, neste planeta ou neste universo.
O tédio evoluiu-nos e continua a fazer-nos evoluir, pois é nos momentos mais parados da nossa vida, como a ida à casa de banho ou durante o sono, que o cérebro tem tempo e processamento suficientemente reduzido para trabalhar ideias, conversas, imagens, sons e cheiros com mais atenção e pormenor.
"Comecemos pelo principio. No principio, havia um Paraíso, onde o homem vivia sozinho. Havia apenas um único inconveniente, comum a todos os paraísos terrestres, celestes e subterrâneos: Adão aborrecia-se de morte, desfiando lamentos ao bom Deus. Um dia, estava ele a dormitar, foi-lhe retirado um osso excedentário, do qual se fez uma mulher para seu prazer, distração e companhia. Porém, a felicidade não durou muito tempo."
A Génese Natural: Sobre a situação singular dos machos na humanidade - Asger Jorn [pág. 35]

"Que a vida humana deve ser algum tipo de erro está suficientemente provado pela simples observação de que o homem é um conjunto de necessidades que dificilmente são satisfeitas; que a sua satisfação nada consegue a não ser uma situação indolor em que apenas cede ao tédio; e que o tédio é uma prova directa de que a existência em si mesma não tem valor, pois o tédio mais não é que a sensação do vazio da existência. Porque se a vida, por cujo desejo consiste a nossa essência e existência, possuísse em si um valor positivo e um conteúdo real, não existiria o tédio: a mera existência encher-nos-ia e satisfazer-nos-ia. Da forma como as coisas são, não temos prazer na existência a não ser quando estamos a lutar por alguma coisa.
Sobre o Sofrimento do Mundo - Schopenhauer [pág. 25 .5]

Inclui-se neste pensamento, de uma perspectiva macro planetária, pode-se ver que o mundo não é movido apenas pelo dinheiro mas pelo tédio de ideias milionárias ou de soluções. O dinheiro é apenas aquilo que surge no fim da produção, é o que mantém o cérebro activo, sempre apontado para um objectivo e não para um prado verde sem tarefas ou obrigações que rapidamente nos levariam à loucura e ao tédio.
Cada um de nós tem a sua personalidade, desenvolvida pelas suas experiências, sempre diferente, mesmo que ligeiramente, de cada um dos indivíduos da nossa familia mais próxima (pai, mãe, irmãos, etc), mas como familia temos uma personalidade que também partilhamos. Temos ideias que desenvolvemos e esmiuçamos em conversas à hora do almoço/jantar ou no carro em viagem. Mas, na nossa rua também existem outras familias, e se nos dermos bem com os vizinhos, começaremos a notar que partilhamos opiniões similares, talvez um pouco diferentes da rua vizinha. A nossa rua partilha uma aldeia com outras ruas, ou uma vila, ou até uma cidade, e como aldeia, vila ou cidade, haverão ideias e opiniões que partilhemos, apesar de todos nós termos localizações geográficas e meio-ambiente familiar diferente, com histórias diferentes.
É então que entram as juntas de freguesia, os concelhos e os distritos, que englobam um conjunto maior de pessoas, de ideias e opiniões (obviamente), englobando tudo isso num só país, que também ele se engloba num conjunto de estados da União Europeia.
Cada individuo trabalha para combater o tédio; Assim como cada familia, cada rua, cada aldeia, cada vila e cidade, cada distrito e país.

"Existem muito mais cultura humanas do que raças humanas, uma vez que umas se contam por milhares e outras por unidades: duas culturas elaboradas por homens pertencentes à mesma raça podem diferir tanto ou mais que duas culturas de grupos radicalmente afastados."
Raça e história - Claude Lévi-Strauss [pág. 7]


Nós somos o resultado do combate ao tédio. Nós somos o produto de uma evolução que nos provocou o crescimento cerebral, de perguntas sem resposta e de provas sem fundamentos (como o fogo queima? Como a água engelha os dedos? Como os pêlos crescem?).
O tédio desenvolve, a menos que a necessidade de sair desse estado seja menor do que a vontade de fazer alguma coisa.

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O sofrimento do mundo...

quinta-feira, 16 de julho de 2015

A menina da escova...



Tenho tido a sorte única, no meu local de trabalho, de interagir com crianças entre os 3 e os 5 anos.
Hoje uma delas correu para mim na esperança de lhe secar e escovar o cabelo. Não é traquina, não é irrequieta, não é autoritária nem rabugenta, é criança! É mexida, é energética e curiosa; Um doce de criança, que não pára de me fazer perguntas sobre as coisas que vê, ou de trazer sempre o nariz cheio de macaquinhos.
Junto de mim e de escova na mão, a Maria, debruçou-se sobre a porta ao meu lado, batendo-lhe com a escova como se fosse um xilofone, e coloquei-me de joelhos atrás dela, para poder estar mais perto do cabelo. Do nada, sentindo o meu joelho mesmo à mão de semear e ao nível dos seus joelhos, aproveitou a oportunidade única e sentou-se na minha perna. Lá balançou um pouco enquanto eu tentava manter o equilibro e lhe secava o cabelo. Não foi tarefa fácil... Mas soube-me tão bem! Era uma dor agradável, por estranho que pareça. A experiência de sentir o seu peso, o seu rabo e corpo aconchegarem-se na perna trémula e nada preparada para 20kg de "rebeldia" fizeram crescer um bocadinho mais o pai que tenho dentro de mim. Fez-me sorrir, e pelo sim pelo não, nesse momento ganhei o dia.
Volta e meia perguntava-me o "o que era aquilo", ou o mais engraçado: pedia-me para se sentar de novo. Senti-me em parte pai. Um pai presente na vida dela, nas suas experiências, brincadeiras e mais importante: nas suas perguntas! Tirava tempo do secador para a ouvir, aproximando-me de si enquanto esticava o dedo a uma etiqueta.
A Maria não é a única felizarda a ter parte do meu tempo e atenção. Sim, sei que o simples facto de não passar 8h em redor de 20/30 crianças me deixa mais livre, mas gosto de me dedicar a cada uma das que passa por mim, por muito pequeno que seja a interacção.

Em conversa com uma amiga, desabafava a minha timidez e o medo com as crianças. Nunca estive na situação de tomar conta de crianças e bebés; Havia sempre alguém responsável por perto. Tenho pena de não ter o mesmo à vontade que muitas raparigas mais novas, e tenho muita inveja de quem teve e cuidou de primos e irmãos mais pequenos. A única base e confiança que tenho, adquiri com longas observações da interacção de pais com os filhos, com familiares, muitas perguntas, revistas e livros. Ainda assim, hoje a Maria ajudou-me a abrir um pouco mais a porta da confiança, a porta do desejo de ser pai e de ter um filho.
Só o facto de escrever e pensar sobre tudo isto me enche o peito de uma alegria indiscritível que nunca tive a oportunidade de sentir. O seu corpo junto ao meu enquanto se sentava na minha perna ou me fazia perguntas... A dedicação que eu próprio lhe dava, a atenção para os pequenos pormenores que ela não reparava, os deliciosos momentos em que lhe respondia e incentivava a fazer as coisas. O meu lado maternal e paternal a falarem tão alto que eu próprio me sentia e sinto feliz por ser assim.

3 Questions to Ask Your Child Every Night

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Um dia...
Um momento para mais tarde recordar...
Um momento para mais tarde recordar... [2]
A voz que me encanta...
Adivinha o quanto eu gosto de ti...
A criança reconhece...
Entretida no teu colo...
Um presente diferente...
Mamã, mamã!
Mais do que uma história...
Um berço...
Hoje...

terça-feira, 14 de abril de 2015

A rapariga que cheirava a pão quente... [2]

O sol voltava a espreitar entre o nevoeiro derrotado pelo vento enquanto devorava o primeiro pão e metade do copo de sumo. À sua frente sentava-se o avô com um voraz apetite por geleias trincando lentamente o pão quente e caseiro cujo cheiro se entranharia na camisola que mais tarde o ajudaria a adormecer no sofá velho em frente à lareira. Penduravam-se na parede pequenas molduras carregadas de memórias e de um pó que fazia parte da história de toda aquela casa, daquela divisão. Pessoas defuntas, filhos emigrados e acontecimentos já esquecidos.
Com as energias recarregadas, calçou as botas de borracha e correu atrás da avó que carregava um pote com comer para os patos e as galinhas. As vozes dos animais mordiam-lhe o peito. Chamavam-na, inquietos, por um pequeno almoço de legumes e vegetais. Já não ficava a olhar de longe, aproximava-se com firmeza daquelas criaturas à solta e atirava um punhado de alimento ao ar,  uma e outra vez, semeando com um pouco mais de destreza que a sua avó, que já curvada sentia dificuldades em fazer tarefa tão fácil.
-- Trás-me seis ovos Sofia. -- apontou a avó para a gaiola das galinhas. A neta entrou devagar, afastando com o pé alguns pintainhos do caminho e procurou no largo ninho. Ao sair, trazia na mão quatro ovos ainda quentes. A tonalidade rosa em contraste com a sua palma da mão e o peso em forma de pêra que quase lhe escapava pela ponta dos dedos fizeram-na bater ligeiramente com a cabeça ao sair do hotel empalhado. De balde numa mão e os ovos noutra, juntou os nós e colocou cada um deles com cuidado no fundo do balde.
A sua avó, sem mais nada a fazer por ali e depois de dar água ao porco, voltou para casa, deixando a neta para trás, que se admirava com o bicar dos patos sobre o milho. Foi seguida durante alguns metros até que os passos se tornaram numa pequena corrida que nenhum dos coelhos se dignou a igualar. Os olhos negros e pequenos, de dentes pequeninos sobre alguns pequenos pedaços de cenoura, observavam-na correr de sorriso gentil no rosto e com os cabelos ao vento, num movimento físico que os deixava hipnotizar. Saltava nas nuvens, assim lhes parecia.

segunda-feira, 2 de março de 2015

A rapariga que cheirava a pão quente...


Ela acordou, pelo cheiro do pão cozido da manhã e da lenha crepitante no fogão negro e pesado. Levantou-se num salto, de olhar faminto e de estômago lambareiro, imaginando-se tão rapidamente a devorar o saboroso pão da sua avó, que ainda lhe faltava calçar os chinelos de algodão. De pijama embonecado e sorriso largo no rosto, agarrou a maçaneta da porta. Estava quente, iluminada por uma fresta nos cortinados que lhe embatia no rosto e numa perna. Como quem nos toca no ombro, voltou-se para o sol e perdeu-se num horizonte sarapintado de cores e flores, num prado verde que se estendia até onde a vista alcançava, limitando-se num muro baixo de pedras velhas e de amizades estranhas com o musgo e os cogumelos. Admirou os patos soltos junto ao lago. Os galos caminharem de peito feito e um fumo cinzento desaparecer com o leve vento que embatia nas árvores altas, e grossas, espalhadas pelo terreno trabalhado pelos seus avós. A casa de férias perfeita para qualquer rapariga da sua idade. Dezasseis anos.
A casa velha, do seu tetra-avô, de teto ligeiramente mais alto que ela própria, acolhia-a sempre com um abraço de nostalgia e conforto. Era o ar, o ambiente, os sonhos, os cheiros, os avós... Aquela era a sua casa. O seu recanto.
Abriu a porta, ultrapassou o avô carregado com um cesto de lenha e correu para a cozinha. Os cabelos castanhos encaracolados voavam numa liberdade e beleza que a sua avó nunca parava de admirar de olhos reluzentes. Lembrava-lhe a mãe quando era mais nova. Alta, sorridente, confiante, bela, apaixonada e quase sempre com a cabeça na Lua. Agarrou então num pão e com a faca cortou-o ao meio, recheando-o com o fiambre e o queixo que a sua avó comprava no mini-mercado ao fundo da estrada, para lá do moinho e da ponte.
Não se bebia leite naquela casa; Não por serem alérgicos, mas porque a vitamina C do sumo de laranja que se preparava na frescura da madrugada, lhes faziam melhor aos ossos e à disposição. Juntavam-se as frutas numa cesta onde a maçã dominava abundantemente de cores garridas, e um doce de abóbora que se deixava devorar pela gulosice do avô de costas cansadas.
Aproximou-se, da janela, quase embaciada, sentindo o frio do exterior com os olhos, aconchegando-se no conforto do lar que parecia acordar e aquecer-se sozinho. Os seus avós, que se moviam lentamente de um lado para o outro, de tarefas decoradas e gentilmente laboradas, pareciam pequenos anões, mágicos, sempre com um sorriso caloroso no rosto.




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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

O sorriso que me aquece... [2]


Viraste-te de peito para cima, de bicos altos por trás de uma fina camisa de dormir e recebeste um frio nos pés. Ele olhou-te, brincalhão com os teus pés tensos e cansados nas suas mãos. Beijou, acariciou e massajou. Lambeu um dedo, introduziu-o na boca e usou-lhe a língua. Voltas-te a tremer.
As provocações faziam-te delirar, obrigando o teu corpo a encontrar uma última fonte de energia no teu corpo conquistado pelo trabalho.
Os dedos dele tocavam-te nos ossos, gentilmente, como uma flauta. O stress acumulado dispersava-se pelos tendões, explodindo no cérebro um intenso prazer de derrota de ti própria, que se aconchegava cada vez mais na cama tão prazerosamente bem feito, vincada e limpa. O cheiro ao lavado entranhado nas forras das almofadas e os cobertores quentes e leves, relembravam-te a manjedoura que um dia foi o colo da tua mãe.
Sorriu para ti, com uma expressão chorosa. Leste-lhe no rosto: "Como eu te amo!".
Sorriste de volta: "Também te amo!".

domingo, 8 de fevereiro de 2015

O sorriso que me aquece...


O dia foi longo e a noite chegou depressa, como um tiro. Chegaste a casa, cansada, de pés doridos e cabeça a latejar de stress. Descalçaste os sapatos de salto alto e deitaste-te sobre a cama, casada e cansada.
Casada com um homem que se debruçava sobre a loiça por lavar na cozinha, depois de ter deitado os garotos, também conquistados pela cansaço das suas brincadeiras; E cansada de um trabalho que te exige o mesmo tempo e dedicação que gostarias de dar aos teus filhos.
Ouves o som da água bater nos pratos e o teu querido usar as mãos na porcelana que escolheram em conjunto, poucos meses depois de terem comprado uma casa e esperarem pelos gémeos. Uma surpresa para toda a família, em forma de prenda, oferecida num dos natais mais frios daquele ano. Mas os abraços souberam tão bem... Era incrível o calor que um simples e breve abraço te proporcionava.
A torneira parou a água. Ele limpou as mãos a uma toalha e dirigiu-se ao quarto. Estavas deitada de barriga para baixo, com os cobertores a cobrirem-te metade das costas e ouviste-o aproximar. O caminhar que reconhecias através das vibrações que surgiam no soalho e subiam pelas pernas da cama até à tua almofada ou à mesinha de cabeceira, deixaram-te ansiosa, apaixonada, deliciada. Sentou-se á borda da cama, ao teu lado, e beijou-te os cabelos, sussurrando-te:
-- Boa noite meu amor. Queres uma massagem nos pés?
Tu sorriste. E ele era largo e jubilante. O teu marido conhecia-te melhor do que ninguém, e estragava-te de mimos sempre que podia. As pontas dos dedos tocaram a pele tensa das costas e tremeste. As mãos quentes massajaram os ossos do pescoço, das omoplatas e desceram pela coluna arrepiada de prazer. Os lençóis descem pelas curvas cansadas do teu corpo, e param sobre o teu rabo, redondo e coberto por uma fina cueca preta que ele te tira com beijos e beijinhos... roças as pernas, num prazer intenso que te cresce e olhas-o.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

A beleza no teu rosto... [2]




A palavra "perfeição" não chega para te descrever o belo de que te constróis. A sublime dedicação e atenção que faz de ti uma arte que tu própria embelezas e aperfeiçoas todos os dias ao espelho, reconhecendo a sorte única que te foi concedida genética ou divinamente, fazem de mim um poeta balbuciante, que gagueja na tentativa de te desenhar em palavras e rimas a natureza que floresce nos ombros e te brota da geometria perfeita da tua face de cabelo loucamente encaracolado e domado por um penteado que revoluciona todos e quais quer padrões existentes na moda.
A cor negra que se cozia no tom vermelho do corset, num padrão de rosas e ervas que pareciam tatuar-te o corpo, tornavam-no deliciosamente curvo e os peitos mais fartos e redondos.

Porque olhar-te os olhos, que me envenenavam a mente e o meu cérebro que agradece aos deuses do Olimpo a criação deste anjo que inspirou os mais belos perfumes e poemas da história da humanidade, faziam a minha alma sentir-se pequena, incapaz de sorrir para ti na mesma alegria, no mesmo júbilo que transpareces tão facilmente por detrás desse olhar tão feminino de sobrancelhas longas, que terminavam numa curva vinda de um pincel. Artistas tentaram retratar-te, e nem mesmo Da Vinci, com toda a sua sabedoria em anatomia, geometria, arte e pintura, se atreveu a igualar o feito dos teus pais. A imperfeição imperceptível da tua face, dos teus olhos, dos teus lábios e das maçãs do teu rosto, tornam-te humana; Alcançável!

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Elas querem Homens Machos, de peito e costas largas, não um aristocrata de emoções poéticas.
Querem mãos na cintura e jantares chiques, mas não um ramo de flores ou um poema escondido na sua carteira.
Já nada encanta as raparigas. Já nada as conquista a não ser o livre-arbítrio.

domingo, 18 de janeiro de 2015

A beleza no teu rosto...


Poderia dizer que passei por ti, meio distraído, mas estaria a mentir. A enganar a memória que revejo toda as vezes que passo pelo banco em que te vi sentada, a observares o mundo, a lê-lo, a interpretá-lo, a ouvi-lo e a senti-lo. Querias transformar-te e perderes-te no ar que se invade de sons que as aves compõem e as árvores acompanham.
Olhei-te, hipnotizado, arrebatado pela beleza de que te compunhas. A face perfeita, que me ensandeceu o instinto primitivo, feminina e de expressão gentil, virou-se para mim. Os teus olhos grandes defrontaram os meus e erguestes as finas e longas sobrancelhas, perplexa de desejo estampado nos lábios. Lábios pintados de um vermelho tão intenso como o teu corset, floreado e ornamento. Chamava-os, desejava-os, num ardente e eloquente beijo, intenso de saudades e prazeres.
Respiravas calmamente, de coração aos pulos e de língua nos lábios, as mãos irrequieta-mente paradas sobre a tua saia, pestanejando imperceptível-mente uma luxuria e delicadeza perdida no tempo das civilizações.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Azul transparente...


Viemos do mar e cada vez que o seu som rebenta nos nossos ouvidos, o cheiro nos entra pelo nariz e o sabor salgado se agarra à língua, o nosso corpo anseia o azul transparente do elemento que nos sacia a cede, arrefece o corpo e nos faz boiar na solidão do nosso pensamento.

Esticámos as fronteiras do "fim do mundo" e tornámos a circunferência numa esfera.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Às vezes...


Às vezes temos de fazer coisas más, para evitar fazer coisas piores.

Às vezes precisamos de errar, para aprender a ser melhor. Mas é preciso saber aprender. Conheço muita gente que erra, e que não aprende, que não desenvolve, que não se preocupa, que não cresce, que não interioriza e re-escreve parte de si com a experiência que teve.
Mas só às vezes, porque nos outros "às vezes", conseguimos fazer coisas boas sem ser preciso fazer uma coisa má. Saltamos ou subimos mais um degrau ao invés de cairmos. Teremos de certa forma, para cada paço, uma almofada que amortiza a queda.

A vontade que tenho em te agarrar com força pelo braço e arrancar-te da cara o sorriso estúpido que regorjitas vezes e vezes sem conta, fazendo de conta que és feliz mas não és. Uma falsa segurança que impregnas na mente dos outros, mas não na minha. Não, porque eu te conheço melhor do que julgas. Já o 8 passar a 80, e uma ideia nula passar a fanatismo aberrório de uma mente elitista, imperialista, fraca de educação e de húmildade. Atravessar-te pela barriga que escondes, e arrancar-te dos músculos a pele que cuidas demasiado. Ver-te cair em lágrimas e observar prazerosamente o medo esticar-se pelo teu pescoço. Que o nó do glamour e do riquismo te enforque e sufoque, te parta o pescoço e te arranque a cabeça dos ombros. Forçar-te em dor o que sempre achaste nogento e preencher-te a vida ensípida, num quadrado merdoso de quatro paredes negras para o resto da tua vida. Acorrentar-te em cativeiro para que te possa torturar e usar a meu belo prazer.

Sou assasino, racista, preconceituoso, xenófobo e apoiante das ideias Nazi. Simplesmente ainda não te deste conta, que és pior do que eu. És, e basta o teu fanatismo desmedido. Apodrece como bem entenderes.

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Os nossos valores morais

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Toda a vez que olho para ti...



Toda a vez que olho para ti, vejo em mim um melhor Eu. Toda a vez que sorris, e mostras sem medo os dentes brancos, a minha alma fraqueja e chora, por saber que tamanha infelicidade que causei no mundo, foste a primeira e a única, a esticar-me a mão de compreensão. O brilho dos teus olhos não se vê, o amor que tens por mim não se sente no ar, mas as tuas mãos mostram um mundo de sentimentos completamente diferente dos que sempre julguei conhecer. Porque os teus lábios não são só vermelhos, tornam-se húmidos e deixam escapar com carinho, as palavras de poemas esquecidos, as histórias e as aventuras de alguém sem casa, com a vida estampada em cada gesto, com a força a marcar cada passo da tua jornada. A tua companhia não ocupa espaço, a tua roupa que se espalha desarrumada-mente pelo chão, pinta-o de alegria, de liberdade.
Partes correntes mais depressa do que corações e soltas a criança da birra tão devagar como lambes um gelado. Porque as tuas palavras são para ser ouvidas, para serem entranhadas e digeridas. E dás tempo. Dás espaço. Entregaste sem nunca te segurar, mesmo insegura como nunca antes conheci. Dás um pulo, levantaste, sorris e apertas a mão. A tua vida parece ser tão simples que me imagino nas tuas histórias.
Falas comigo, como se fosse o ultimo dia das nossas vidas, e as brincadeiras mantêm longe a monotonia, mas muito perto, o medo de te perder, de sentir a terra negra nas mãos e o rosto sofrer por já não ter ao meu lado o livro e a música que abriu o meu coração.
Cada vez que te vejo caminhar para mim, sinto um fervor crescer-me no peito. Um doce sabor nos lábios que te gritam um beijo. Os meus dedos tremem e só sossegam quando te tocam, quando o teu corpo se cola ao meu. Porque estar ao teu lado simboliza saber ouvir-te, cuidar de ti, sentir o que tens para oferecer, arriscar uma aventura e largar da mão a criança envergonhada que sempre fui. Segurar-te, agarrar-te com força e dizer-te o quanto me és. Envolver-te no conforto das palavras que não chegam, nos sorrisos e jogos que não te cansas de oferecer. Escrever uma história que ambos imaginámos sem nunca saber como irá acabar. Se acabar...
A magia que me encanta o mundo, encanta a casa e a futura barriga. As conversas que ainda não tivemos, os livros que ainda não lê-mos, os filmes que não vimos. As bibliotecas depois do almoço, as caminhadas à luz das estrelas, os passeios ao sol e os mergulhos na praia.
És uma sonhadora, com os pés assentes na terra com vontade voar. Adoro a frieza com que me ralhas às vezes, e a tristeza que sentes ao me ver sofrer. Da energia jubilante com que te abraças ao me pescoço e te atiras com a confiança que nem sempre tenho, para sentires de novo a força dos meus braços, mãos e dedos te segurarem com o medo amoroso de te deixar cair.
Cada vez que olho para ti... deixas de me ser um mistério para passares a ser parte de mim, do espaço que respiro, da cama que partilho, dos sorrisos que me fazem florescer. Por quem és? Por quem vives? Por quem te tornas?

Caminhas comigo?


important is not the day you find something
but the day it suddenly makes sense
by *Rona-Keller

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Pelos meus olhos...


Pelos meus olhos vive a morte. Não a verás cada vez que te aproximares de mim por um beijo, mas mostrar-te-ei, fazer-te-ei senti-la e desejá-la, toda a vez que tiveres um orgasmo. Uma epifania que se descontrola na consciência hipnotizada de prazer e que desce como um timbre de uma nota musical.
Ao entrar numa sala, todas as atenções se viram para mim, o aroma transforma-se, a música muda e as posturas delas tornam-se suaves, acompanhando a tendência da paixão proibida. As flores endireitam as suas costas e perfumam-se. O tabuleiro monta-se, as peças movem-se. O jogo de fantasias sexuais enaltecem-se nas suas mentes pudicas. Sou um gato poético, uma pintura que enfeitiça, e o desejo ardente de uma noite louca. Estas mulheres, são insaciáveis, manipuladoras, dominadoras. São rainhas na cama, amantes secretas, casadas com sapos gordos.
As cores que me pintam o rosto, o cabelo comprido e o traje que me cuida da silhueta, são acompanhados por traços, pontos e vincos que conheço demasiado bem. Que sei usar e mover, para te manipular a mente já tão desatenta e perdida pelo meu sorriso.

Olhas-me, muito observadora, tentando ver através desta aparência física subliminar, obscura, misteriosa.
O meu rosto torna-se uma obsessão, uma paisagem que te hipnotiza e te faz desejar conhecer, pessoalmente, o corpo que modelou aquele quadro tão hipnótico. Aproximas-te das cores que me constrói-em, e sentes um desejo súbito de beijar a tela. Uma tela de fantasias e desejos, de caprichos e arrepios de espinha, com a vontade mórbida de sentir o meu respirar sobre as costas do teu pescoço. A bochecha já rosada pela vergonha, sente o pigmento, a textura que te arranha e invoca uma triste expressão.

Sou mais do que um quadro, do que idade, do que um corpo. Sou um conjunto de experiências, que te fazem mulher, que me amadurecem e te fazem sonhar. Sou o homem perfeito, o pai que fantasias, o namorado e amante que te vibra. Mais do que amor pela minha juventude, irracionalmente, lutarás para ter do teu lado, uma mente tão viva como a minha. Pois sabes que pelos meus olhos, já vi e vivi muito, um bem precioso que te fará crescer e saberá educar o que ainda te parece tão cedo.

O que vês quando fechas os olhos?

domingo, 2 de junho de 2013

Que vejas em mim...


Calma é a noite, em que me deito ao teu lado, saboreando-te a pele entre os meus lábios e conhecendo-te através da voz bruxa que me enfeitiçou. Beija-me o veneno e abraça-me, Morte, com as asas de corvo que não me assustam, que penteiam os cabelos que não invejas e que sente cegamente, a face do anjo da tristeza e solidão que observas em cada palavra, mas que se evapora atrás de cada sorriso. Dorme comigo, Obscura. Deixa-te cair nas teias que teço para ti, com que te embrulho e te fazem amparar as quedas que te são tão difíceis. Deposita no meu peito os cabelos indomáveis da tua mente, e cria em mim, o ninho que te for mais confortável. Que ouças o meu coração bater de alegria e parar, morrer, a cada raiar dos teus olhos nos meus. O teu olhar educa o carrasco humilde que sou. És uma epifania. Um conto em poema, decorado com cuidado, e guardado, memorizado em todos os recantos da minha mente, da minha língua, dos meus ouvidos, do meu nariz. Surpreendes-me, assustas-me, controlas-me e é então quando te sentes demais, que ofereces a mão pálida e defunta, à minha. Crias uma dança, única e sensível, para cada dedo meu que fazes deslizar e sentir em toque as palavras do teu perdão.

Que a minha cara não te assuste por entre os cabelos. Que os meus cabelos não te afastem de um beijo. Que as minhas sobrancelhas não te façam pensar no diabo. Que as minhas conversas não te façam bocejar e sobretudo, desejar estar longe do estranho que sou para mim. Que o meu amor não seja mordido, arranhado e destruído, por não teres tido a coragem de desistir, acabar ou ouvir. Que as minhas palavras não te façam insónias, te deixem triste ou zangada. Porque nada do que faço é com intenção de magoar. Não sou o "perfeito", mas tento todos os dias consertar o que não me apercebi ter fragilizado. Que não sejas uma mimada. Que dês valor. Que valorizes o meu abraço para sempre, e nunca me trates com o mesmo ódio ou frieza que já vi, vivi e beijei. Que sintas de mim, mesmo que atabalhoadamente, o sonho que é, partilhar uma vida ao teu lado. Que viajas e corras comigo, pelas montanhas e florestas que nos atormentem.
Que me guies e ensines, o deslumbrante mundo que nunca conheci. Que não te ofendas com as minhas piadas. Que sorrias e me abraces sem pedir. Que me beijes ainda mais, sempre que te apetecer. Que não te sintas incomodada com a erecção que sentires em cada beijo, é sinal que te amo da forma mais pura. Que não te quero foder em cada oportunidade. Que percebas que cada choro meu é uma prenda dos meus sentimentos mais recônditos e escondidos que tenho e sinto na minha alma triste, gasta e zangada de amores. Que vejas em mim, o teu companheiro para a vida, e não uma oportunidade ou uma fuga. Que ao olhar-me ao longe sintas saudades. Que abrir as pernas não simbolize sexo, mas uma guerra de cócegas que sabes que vais querer desforra. Que leves de mão dada, a minha insegurança e me ajudes a acreditar melhor em mim. Que brinques com a criança que sou, e que perdoes o adulto que cresço em me tornar. Que eduques comigo as crianças que teremos. Que compreendas que não te pertenço, mas que me comprometo em dedicar, preservar e abraçar, cada momento que passarmos juntos. Que partilhes comigo a cozinha e a lida da casa. Que te atrevas a ser surpreendida. Que não uses maquilhagem e não tenhas medo de acordar despenteada. Que não vejas o mal, de o meu cabelo ser tão ou mais comprido que o teu. Que ao fim de um passeio, fujas comigo para a livraria do shopping, e nos sentemos a ler, folhear e devorar as palavras de frases intrincadas. Que te aventures comigo, por monumentos, igrejas e castelos. Que te deixes subir e descer um monte, uma árvore ou um rio. Que percebas que ficas sempre bem nas fotografias, e que eu não sou nada fotogénico. Que consciencializes, de que somos duas pessoas, a crescer e a aprender a conviver, a partilhar uma vida que sempre foi só nossa. Duas pessoas com o mundo por explorar e milhares de milhões de experiências ainda por descobrir. Não sou mau, nem ando sempre zangado. Que cresças e floresças. Que não mudes por mim, mas que aceites. Que não me tentes mudar ou manipular, porque só te faz ficar mais longe daquilo que viste em mim e valorizaste.

E quero que um dia, quando me vires de joelhos à tua frente, que não penses em grandes coisas. Provavelmente estarei apenas a limpar o chão.

domingo, 14 de abril de 2013

A gravidez está sobrevalorizada...


Mas qual é a melhor forma de anunciar a gravidez? - Pais e Filhos

Faltou explicarem como é que os casais de jovens ou as raparigas adolescentes poderiam anunciar a gravidez aos pais e família, e já agora aos amigos.
O que é engraçado, porque para um jovem é o fim do mundo, para um "adulto" é um milagre, apesar de saber que a facilidade de se engravidar é bastante elevada.

É a hipocrisia social no seu melhor.
Porque quando somos novos, engravidar é o fim do mundo, quando somos "adultos" e achamos que somos ou estamos capazes de educar e tratar bem de uma criança, pelo menos o nosso primeiro filho, é um milagre. Mesmo eles sabendo que a facilidade de engravidar, quer seja antes dos 16 ou depois dos 25, é igual para ambas as raparigas.
Sim, talvez haja raparigas que tenham dificuldade em engravidar, devido a problemas genéticos delas, ou deles, mas dizer que estar grávida é a melhor coisa do mundo?
Acho que o próprio ego entra de rompante nesse sentimento e nessas imagens que temos da gravidez no geral, porque engravida-se tão facilmente, que acaba tudo por ser muito corriqueiro. Afinal, o que tem isso de especial? A nossa mãe esteve grávida, as dos nossos pais também, e sempre foi assim durante milhares de milhões de pessoas, mas continua-se a achar que engravidar é um fenómeno na natureza, apesar de sermos os mamíferos que têm o seu período fértil mais frequentemente, mais cíclico e mais normalizado do que os outros mamíferos. Achamos que só a nossa gravidez é que é uma coisa do outro mundo, mas já antes de existirmos, haviam mamíferos que davam à luz e sempre deram à luz.
O que tem então uma gravidez de especial? Tocando um pouco no ego que falei acima, ter o próprio filho bebé nos braços, nos seus primeiros anos de vida, em que ainda é fofo e nos faz rir porque é um bebé, é inocente, não percebe o mundo que o rodeia, mas que se interessa, que faz muitas perguntas, que chora e pede abraços, que dá uma certa vontade aos papás para que eles sejam melhores do que os outros, só porque gostam da mania do "superior" e "senhor doutor", até consigo dar um bocadinho de valor a isso. Já que os pais nunca fizeram nada de jeito na vida, fazem-no com os filhos, e os filhos são um investimento de uma coisa boa a longo prazo. O problema é quando os filhos saem piores do que os pais e se tornam ladrões, assassinos, agressivos, que batem em mulheres ou em homens, que são violentos, que são neuróticos e psicóticos. Aí... o pai já não quer responsabilidades ou não sabe onde falhou. Acaba por ser um filho que se torna num cão. Um cão que sempre foi muito fofinho, muito meigo, muito fixe e interessante, até ao dia em que morde em alguém e acabamos todos por ficar desiludidos.

O ter um filho, toca no ego dos pais, não só porque se pode moldar para o que queremos, para o que desejamos e para o que ambicionamos que ele seja. Basicamente um mini-nós, nas palavras de Dr. Phil. Servirá também para mostrar aos outros papás, amigos, amigas e familiares, do filho prodígio que achamos ter e onde investimos "todo" o nosso esforço e dinheiro. É quase a mesma coisa que comprar acções de uma determinada empresa que está a crescer, e que num dia, ao fim de uma dúzia de anos, começará a dar riqueza. O problema neste pensamento, é de que a riqueza tem de vir de trás. Convém ter-se uma boa educação para se caminhar de forma direita e com poucos solavancos na vida. Não, não sou apoiante de proteger os filhos de tudo, mas abrir as pernas, ser fodida, parir e deixar os garotos nas escolas e igrejas só porque não sabe o que fazer com estes fedelhos nojentos e ranhosos, só porque não se sabe como falar ou explicar-lhes os deveres e não ter paciência para TPCs, tendo apenas e só o conhecimento social e geral daquilo que se vê nas outras famílias, em revistas, filmes, publicidade, imagens e músicas... podem ficar felizes, pois pertencem ao grande grupo de pais que não sabe o que fazer com uma criança. Sabem abrir é as pernas, agora educar e responsabilizarem-se pelos próprios filhos... já é outra conversa.

Sim, de certa forma, ter-se um filho antes dos 18, 20 anos, sem se ter emprego, é algo de grande falta de responsabilidade, imaturidade e parvoíce. É-o, de facto.
Mas também não o é quando duas pessoas, por muito que se amem, não sabem psicologicamente nada sobre bebés? Sim, aprende-se, sempre se pode aprender, mas é a mesma coisa que irmos para um exame do qual sabemos todas as perguntas, mas simplesmente não estudámos a matéria previamente, vamos com a vontade toda de o fazer, mas quando é para escrever... UPS, fiz merda! Vamos todos confiantes, a achar que sabemos tudo, e a única coisa que sabemos é 1% da teórica que tivemos a rever 1 semana ou 8 meses antes. E uma base sólida de educação não se constrói em 8 meses. Não se traça um plano de vida em 8 meses. Não, quando se trata de um bebé.
Pronto, está bem, é verdade que ser-se neurótico e ler tudo também é capaz de fazer mal, mas é só capaz, e muito provavelmente nem irá fazer mal nenhum. O que faz mal não é a informação, mas como a utilizamos e a super-protecção que se dá às crianças. Esse é que é o grande problema, para além de não se saber lidar com elas, por acharmos ou não nos lembrar-mos de que já fomos assim, e não sei porquê, mas os papás de hoje em dia parecem esquecer-se disso a uma determinada altura da gravidez e depois durante toda a vida do garoto, estragam o que nunca souberam usar.
É verdade que eu não tenho filhos, que já me fartei de escrever muita coisa por aqui sobre o assunto, que volto a tocar nas coisas que já escrevi e a falar novamente nas ideias que apoio, mas deixa-me cansado e chateado ver tanta gente com a mania de que vai ser bom pai, quando nunca pegou num livro. Também é verdade que para se ser pai, à 500 anos não era preciso e nem sequer existiam livros, mas... se formos por aí, também é escusado tomar vacinas e por isso, devemos ser fortes e rijos, sermos homens de colhões grandes e aguentar o frio ou um osso partido. O problema é que a esperança média de vida ao invés de estar nos 79 para os homens e 82 para as mulheres, desceria logo para os 40/50.
Por tanto, se queremos crescer e evoluir, se queremos progredir na sociedade, convém usar o que está à nossa disposição. É a minha maneira de ver as coisas. Se tenho oportunidade, informo-me. Se não tiver, invisto o meu tempo a procurar.

Sim, ter filhos é um fenómeno que de facto não ocorre na natureza... Só pode, para as pessoas acharem que é algo divino e inexplicável... No entanto, não invalida de não poderem chorar ou de se orgulharem, apesar de ser tudo muito pelo riquismo, de ter filhos e ter descendentes, quase como se fossemos reis. E porquê? Porque agora, até filhos de pobres, (nada contra isso), podem ser reis. Podem um dia vir a tirar os pais da miséria. Uma miséria e um conjunto de dívidas que eles próprios criaram porque também queriam o "riquismo" para si. Uma mania que anda agora muito em voga desde os anos 70. A tal mania de os nossos filhos têm de ser advogados, médicos, doutores. Basicamente trabalhar em altos cargos para serem ricos. Não é para fazerem o que mais gostam ou no que são bons, mas no que lhes dá muito dinheiro. A ideia do povinho, claro está. Pobres a tentarem ser ricos só por mania e não por necessidade. E quando falo em filhos de pobres, falo em guetos, em povinho que a única coisa que sabe ver à frente é carros, motas, gajas nuas, cu de saias, cerveja e futebol. O básico e muito comum em portugal. Toda a cultura deste país, muito resumidamente.

A gravidez está sobrevalorizada... e as pessoas são todas hipócritas. Se ter um filho aos 23/25 é uma coisa assim tão boa, porque não aos 16 ou aos 18? à 50 anos, as raparigas tinham filhos muito mais cedo. Desde que tivessem capazes de dar à luz, casavam-se mal podiam.

Já nem falo em inseminação artificial e no facto de a probabilidade de nessas gravidez falsas, mecânicas e contra natura, terem uma probabilidade superior de nascerem gémeos criados em laboratório e não de forma natural, hereditária e genética. Por causa dessa porcaria da inseminação artificial, ainda vai haver muita guerra, principalmente pelos gémeos que nasceram de facto de dois pais com genes capazes de desenvolver gémeos. Eu começo a minha.
Se ser-se gémeo hoje em dia é uma coisa "rara" e ainda incomum, com esta merda das inseminações, o que não vai faltar por aí é gente clone umas das outras a meter nojo a quem por direito herdou genes que capazes de gerar gémeos.

Não paras de me surpreender...
A violência infantil...

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O teu quarto gélido...



Ao cair no rio, transbordo-o, saceio-te a sede e escorro nos teus momentos mais tristes. Navego por ti, nas ondas do teu cabelo, enfrentando as tuas duas sereias e uma grande princesa, escondida, enfeitiçada e acanhada.

As mãos frias tocaram-lhe o peito, sem resposta. Separou ligeiramente os lábios, à espera que as palavras deslizassem sobre a língua, com algum carinho.
Ele adorava a sua doce voz, muito feminina, com agudos e graves que lembravam a primavera e os jasmins. O ambiente silencioso tornou-se num simples momento. Não havia incómodo pela ausência de palavras trocadas ou dos barulhos quotidianos. Ela fechou de novo a boca, e olhou-o nos olhos, deambulando pela cara que a fazia uma certa cocega brincalhona no seu pescoço, atravessando os contornos da orelha, acabando por explodir como confetis de memórias no seu cérebro. Desceu o olhar acastanhado, presenteado de ouro, pelas veias do pescoço, ele virou a cara para olhar pela janela, e derreteu-se de desejos com o encher do peito, de ar e de um grande suspiro inaudível.
Sentia-se observado. Olhando pelo canto esquerdo do olho, localizou sem dificuldade, a cara branca e os cabelos escuros, num quarto pintado pelas cores de uma rapariga embonecada. Estava a vários passos de distância, encostada à baixa armação de madeira na cama, iluminada, por pouco tempo, pelo sol que caminhava em direcção a casa.
Fitando o corpo dele, uma nuvem voo em frente ao sol e rapidamente se sentiu viva de novo. Com um olho meio fechado, virou a cara para a estrela, deixando que afasta-se da sua cara fria o gélido inverno que se sentia dentro do seu quarto.

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Seguimento de: Dói já não te reconhecer...