quinta-feira, 7 de julho de 2016

Porque um dia havemos de lá chegar...


[Guerrier Nanite - Pinterest]

Diz-me, humano, porque tentas ser Deus? O que faz de vocês seres tão magnificos que se acham capazes de derrotar espécies que viajam através do espaço-tempo? Que tecnologias têm desenvolvidas que nos possam assustar? Que conhecimentos podem partilhar connosco que já não tenhamos descoberto? Que histórias nos podem contar que noz faça apreciar a vossa luta natural e animal naquilo que é a evolução do vosso cérebro? Que elos perdidos encontraram que nos liguem? Sentem-se dignos? Sentem-se grandes? Sentem-se ousados?
Não há nada em vós, que já não tenhamos tido, que não tenhamos feito, que não tenhamos conquistado ou descoberto. Comparo-vos a formigas, que desconhecem os continentes, os oceanos e o céu na sua magnitude.
Chegaram aos limites do Sistema Solar e julgam ter conquistado a galáxia e os seus segredos. Porque se fazem reis do nada? Porque lutam entre vós? Porque destroem o único planeta onde vivem? Têm energia pura e continuam a poluir os pulmões dos vossos filhos? A destruir a natureza que vos formou e acolheu? Que instintos correm nas vossas veias tão evoluídas, Senhores do nada? Que venenos vociferam em segredo contra vós próprios? O que ganham da escravidão da mente?

Descobriram o globo e delinearam as fronteiras dos grãos de areia, numa tentativa de conquistar e governar um ponto azul no oceano de estrelas e cometas. Não são nada, mas julgam-se tão grandes, tão poderosos. Quando vão compreender que tudo o que irá restar da vossa existência é uma simples sombra na areia.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Aproxima-te criança...

[Witch Spell by Alessandro Poli]

Correu pelo campo até à orla da floresta, onde parou prontamente com um medo copioso na sua cabeça, ouvindo a voz da sua mãe, vezes e vezes sem conta na sua cabeça, avisando-a para não se aproximar do desconhecido. A tentação de tocar nas árvores, nos ramos, nas folhas, de calcar o proibido, colocaram em dúvida as pernas da menina curiosa. Se entrasse, podia perder o rasto de migalhas, mas ao mesmo tempo, entrar por uns segundos não fariam mal a ninguém, e a mamã não precisaria de saber desta estranha aventura que se sentia até na barriga.
Olhou para trás, confirmando a ausência do adulto e penetrou o bosque, pé-ante-pé, nervosa e cuidadosa. Trepou uma árvore tombada, afastou alguns ramos da face e deparou-se com uma porta em arco numa larga árvore. Um arrepio percorreu-lhe as costas e eriçaram os cabelos da nuca. Afastou-se, com desejo de voltar a casa e num virar de cabeça, a escuridão absoluta abateu-se sobre toda aquele zona, distinguindo fracamente as silhuetas das árvores.
Ouviu nas suas costas um chilrear animado, seguindo-se um trovão e o som da chuva. Estranhamente não sentiu uma única gota bater no seu corpo, mas os pêlos gritavam aterrorizados. Estava apavorada até à alma.
A natureza iluminou-se então de vermelho, projectando a sombra do seu corpo num arbusto à sua frente. A porta brilhava, parecendo ter um universo de estrelas cintilantes como enfeites.
-- "Aproxima-te criança..." -- pediu docemente a porta, que vagarosamente, despertando de um sono profundo, ganhou olhos e boca.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [47]

[Red lips - Pinterest]

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Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [46]

-- Porque gritas tanto? Porque esperneias tanto? Tu pediste isto, lembraste? -- removi o pano de entre os dentes. Respirou fundo, sem tirar a olhar de mim, e disse com dificuldade:
-- A minha filha não era para aqui chamada! Conheces a minha rotina, sabes bem que hoje não era o dia mais indicado, principalmente porque Madalena vem cá a casa!
-- Mas minha querida, hoje é o dia perfeito! Hoje é o dia da tua morte...
Ela rasgou as pupilas, num brilho intenso, de choque. As bochechas ficaram pálidas, seguindo-se tudo o resto como um fogo. Enfiei-lhe o trapo goela a baixo e soltou os seus típicos guinchos, enquanto me via sair do quarto, de faca na mão, imaginando o pior. Desci as escadas e abri a porta da dispensa, onde as duas meninas se abraçavam.
-- Vem comigo. -- pedi ao rebento, já menos assustado, de olhos vermelhos e secos. -- Vem comigo, ou mato a tua mãe! -- sussurrei ao ouvido.
-- O que vais fazer? -- perguntou a Joana. Agarrei no braço da miúda e puxei-a para mim. -- O que vais fazer com a Carolina!? -- exigiu num grito.
-- O inimaginável! -- respondi-lhe. De costas para ela, senti uma dor aguda nas costelas. Quase caí ao chão. Virei-me para ela e defendi um segundo murro. A cachopa foge-me entre os dedos e entro numa luta de submissão, e controlo, por uma pequena colher que lhe tiro da mão com um soco no peito. Arranco-lhe o ar dos pulmões, ela arfa de olhos abertos como um cavalo assustado e cai em cima de uns sacos de batatas. -- Desiludes-me! Volto, quando acabar o que viemos fazer. -- Tranquei a traidora adolescente e corri para o quarto principal. Sem esperar, vi o botãosinho ajudar a mamã a tirar as ultimas cordas do braço esquerdo.
A faca reflectiu nos olhos da criança emocionalmente violada.

sábado, 21 de maio de 2016

Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [46]

[Suffocation - Pinterest]

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Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [45]

ACTUALMENTE

-- Não me faça mal. -- pediu docemente limpando as lágrimas do rosto com a sua mãozita.
-- Não querida, claro que não!
-- Não faça mal à minha mamã!
-- Não faço, prometo. -- sorri.

-- Ele seria incapaz. -- reforçou uma voz por trás de mim.
-- Mãe! -- gritou a filha com as lágrimas pingarem nos pulsos apertados pela minha cúmplice. Os olhos embaciados da miúda rabugenta acordavam a minha perversa criatura.
As duas cabritinhas sairam do quarto, e voltei-me para a matriarca da casa. Aflita, regurgitava o pano em gritos abafados, lutando na cama, enquanto a sua "mais-que-tudo" desaparecia no horizonte escuro e ruidoso.
Com os relâmpagos a caírem lá fora, e o vento a dobrar as árvores, a tristeza da mãe camuflava-se na casca medonha da raiva que me perseguia de olhos em chama pelo quarto. Era um farol, que chamava a atenção do meu olhar sobre o seu corpo arfando oxigénio.
-- Não faças essa cara. A tua filha está em excelentes mãos! Confia em mim. Oh espera. Não podes! -- soltei uma ligeira risada. -- Mas agora a sério, a Joana só a foi trancar na despensa. -- aproximei-me da cama. Pousei um joelho no colchão revirado e gatinhei sobre Ti. O teu cheiro vibrava nas minhas narinas. Os teus movimentos arrepiavam-me em prazer. Lutares pela vida fazia-me sentir vivo! -- Anseio este momento desde o dia em que te vi entrar no parque de estacionamento. Oh meu deus! Um diamante! Mas para te matar, o crime tinha de ser bem feito... Estudar-te. Conhecer-te. Assim que conheci a tua Madalena, sabia que Judas estaria por perto. Deves estar a pensar que isto não vai dar certo, porque a tua querida amiguinha vai chegar não tarda. Ligar para a polícia e nós vamos presos e tu ficas para "sempre" a salvo, não é minha totinha? Mas estás tão enganada... Quando ela chegar, vai-te encontrar morta. Vou levar a tua filha comigo, para outra cidade, e a tua Madalena vai ficar com as culpas todas. Vão perceber que te matou por ciúmes. Não achas uma ideia brilhante ter pegado fogo à casa e tu teres-lhe dado a chave da tua? E sabes quem engendrou tudo isso? -- apontei para mim -- exactamente. Eu. O teu assassino!

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [45]


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Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [44]

Aproximou-se da sua primeira vítima, de cigarro entre os lábios e olhou-a, pálida, roxa, sem vida. Pingando da mesa para o chão. Com o telemóvel, tirou algumas fotografias ao corpo. Procedeu depois à remoção da faca, com alguma dificuldade, e poisou-a em cima da mesa com outro material cirúrgico.
Passou-se uma hora até que o assassino voltasse. O carro passou novamente junto ao muro do armazém, travando sobre as pedras. A porta fechou-se. Correu o portão ligeiramente e fechou-o atrás de si.
Joana, sentada na cadeira onde antes tinha estado amarrada, olhou fixamente para o seu professor e disse-lhe:
-- E agora? Como nos livramos do corpo?
-- Vejo que tomaste banho; e que estás a usar uma das minhas camisas... e boxers. -- a aprendiz manteve-se séria, obrigando-o a responder. -- Tenho um forno industrial, antigo, que dará conta do recado. Fica na outra divisão.
A expressão na sua face tornou-se mais suave, e respirou fundo, enquanto olhava para o cadáver em decomposição.
-- Como foi? -- perguntou-lhe.
Joana limitou-se a olhar para o sangue a pingar, impávida, sem qualquer expressão, sem dizer uma única palavra.
-- Está tudo bem? -- toquei-lhe no ombro, mas ela recusou o toque. Vi-lhe então o telemóvel nas mãos e arranquei-o. Ela ficou a olhar muito séria para mim, pedindo-o vezes sem conta. Abri-o, retirei-lhe o cartão SIM e joguei as peças para cima do cadáver. -- Nunca mais tires fotos! Principalmente com telemóveis pessoais! Queres ir presa!?
Ela continuou séria e afastou-se. No espaço de tempo que ela levaria a digerir toda a situação e a acabar de fumar o resto do maço de tabaco que me roubara, eu fiz o que fazia melhor. Destruir um morto. Fazê-lo desaparecer... enrolado em plástico, com as roupas dentro de um saco, incluindo a lavagem dos instrumentos em água e lixívia a ferver. Ela voltaria, já o forno estava ligado e a corpo se derretia como manteiga, espalhando pelo ar o cheiro a carne queimada.
-- Não te tornas algo novo sem deixar algo para trás. Se queres matar, tens de ser paciente. Tens de conhecer-te a ti para poderes manipulares os outros. Se não souberes como funcionas, não podes desmontar a personalidade da tua vítima em pequenos objectivos, que se derrubados na ordem certa ou correctamente, te tornarão no titereiro. -- ela olhou para mim, sentindo na cara o calor do forno. -- Para fazermos isto bem, vais ter de fazer exactamente como eu te digo. Não há erros neste mundo; Pois o mais ínfimo detalhe que nos escape ou erro que cometamos, temos a policia à perna.

sábado, 30 de abril de 2016

A fã...

[Ksenia Morozova - Pinterest]


Aproximou-se da mesa negra e deitou o queixo sobre os braços cruzados. Olhou-me vidrada, com brilho, com sedução, com provocação nos lábios e no inspirar do nariz. Suspirou. Sorrio-me.
-- Adoro o teu cabelo! Adoro... a tua face, e a barba. Adoro!
-- Obrigado. -- respondeu o rapaz claramente inexperiente em elogios.
Os olhos da fã fanática da sua aparência, colavam-se à sua divindade como super-cola. O cabelo liso que lhe caia sobre a pálida face, de maçãs redondas e rosadas de amor platónico, bloqueavam todo o mundo à sua volta. Os ouvidos filtravam o ar e dirigiam toda a sua atenção ao seu ídolo.
-- Costumas ser assim com toda a gente?
-- Não. -- respondeu prontamente. -- Só contigo! -- rasgou o sorriso.
O síndrome de Estocolmo começava a abraçar-me; Sentia-me enfeitiçado pela forma em como me jurava fidelidade. O largo olhar penetrava-me o sangue. O seu perfume reagia vorazmente com os meus sentidos.
Agarrou-me a mão fria com o seu coração quente e o chão desapareceu-me dos pés. Fui sequestrado.
-- Queres ir passear? A mim apetece-me ir passear. Vamos aproveitar o sol! -- puxou-me.
A razão voou, para bem longe, escorraçada pelo distúrbio sinistro da paixão de um amor à primeira vista.

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A partir do momento em que virem a foto original, esta deixará de ter tanto impacto.
E até essa, não será nada comparada com esta.

sábado, 23 de abril de 2016

Até te vais borrar de medo! [2]

[The moment - Pinterest]


Hoje não vais dormir.
Eu sou a besta que guarda as chaves da tua prisão. Vou arrancar-te a pele dos ossos e quando encontrarem o teu corpo, vais estar triturado no fundo de um pântano.
Rasgar-te o sorriso da cara nunca me fez sentir tão em casa. Estás com medo de mim agora? A morte ao meu lado é mais misericordiosa! O tempo será uma tortura.
Junta os teus amigos e vem lutar pela tua cabeça. Levanta os braços, desta não vais parar ao chão, nem ao hospital, mas trouxe um caixão para cada um!
Vou matar o número Um! Caçar o líder da revolução inconsciente e irreverente. Ainda te sentes com sorte? Ainda te sentes com força?
Se entrares na escola, junto o grupo à tua volta, pois eu vou entrar com a manada atrás de mim!
Junta as pedras, que de paus não tenho medo de usar. Protege a cara ou ficarás irreconhecível.
Sou O lobo solitário que te arrancará do coração da alcateia. Sentes o medo tornar a visão turva? Cheiras a morte? Antevês o teu fim? Delicio-me com o teu sofrimento!