terça-feira, 28 de julho de 2015

Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [38]


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Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [37]

Mãe e filha, uma com lágrimas do fumo espesso que cobria o tecto e pintava as paredes brancas, e a outra que chorava pelos azares da vida, tentavam apagar o fogo com panos e uma panela de água. A progenitora afastou a filha e atirou uma baldada para a frigideira em chamas. O óleo explodiu caindo-lhe numa mão e tingindo-lhe a roupa. Os gritos correram porta fora, perseguidas por um fumo que as obrigava a partilhar um abraço materno à muito esquecido pelas eloquências das novas descobertas. Amor, prazer e atenção. Dedicação, carinho e desabafos.
Em poucos minutos os bombeiros chegaram ao local, onde se depararam com uma casa consumida pelas chamas. À sua volta reuniam-se os vizinhos cujas caras se iluminavam pelas luzes dos veículos de emergência.
Ao fim de quase meia hora o fogo estava extinto. Tinham conseguido salvar o 1° piso, mas as fortes chamas tinham danificado parte do tecto, e antes que pudessem voltar a entrar para retirar o que quer que fosse, teriam de esperar alguns dias até que pudesse ir alguém inspeccionar e certificar-se de que o local era seguro. -- Dias? Isso é para quem tem uma boa cunha. E por muito que fosse esse o tipo de "servicinho" que Madalena estivesse habituada a fazer para escapar a multas ou acelerar certos processos, este dia tinha marcado o fim dessa mulher, dessas tendências objetificadas de si mesma. Ela trabalhava numa empresa de prestígio, não precisava de ser "acompanhante de luxo" fosse de quem fosse e para o que fosse. -- Não havia outra solução, teria de ficar a dormir em casa de alguém.
-- "Ajoelhar-me de novo?" -- pensou para si mesma, enquanto olhava para o número de telemóvel do homem que a fez sofrer. Pressionou o ecrã com o dedo e levou o telemóvel ao ouvido. Tocou, voltou a tocar e tocou de novo.
-- Nem vais acreditar no que me aconteceu! Preciso que venhas a minha casa. Por favor, é urgente! -- desligou a chamada e agarrou-se á filha, chorando, beijando-a na cabeça enquanto a sua casa era invadida por polícias e bombeiros.
A vida não podia ser mais injusta. A filha de pijama, exposta aos olhos dos vizinhos e Madalena num choro que não era normal. Ninguém se aproximou para prestar auxilio nem se ofereceram para ajudar no que quer que fosse. A vizinhança interesseira caia-lhe na garganta num nó tão apertado que os seus olhos falavam pela língua trincada entre dentes. A raiva crescia-lhe no peito, enquanto tentava manter a compostura e a força das pernas.
-- Madalena? -- chamou. A pobre criatura virou-se, largando a máscara que lhe cobria o rosto. Chorou, soltando de si uma dor azeda num estômago sem almoço nem jantar, mastigando em jejum o único café da manhã. Caiu de joelhos no chão. Sentiu o pavimento com um prazer que lhe subia pelos ossos e deixou-se cair de cara, amparada pelos braços da sua chefe, que trazia a filha no banco de trás a dormir.
-- Desculpa! -- chorou-lhe.
-- O que aconteceu Madalena? -- perguntou, associando a casa carbonizada à sua amiga. -- Madalena? Queimaste-te!? -- segurou-lhe gentilmente na mão já coberta por um penso. -- Vou-te levar para casa. -- ergueu-a com ajuda da filha.
Os seus olhares cruzaram-se e o ar ficou espesso. A rapariga não podia acreditar que a amiga da mãe era a mesma mulher com quem tinha estado alguns meses antes, num beco escuro de um shopping.
-- Desculpa, não te queria arrastar para esta situação.
-- Não sejas tonta. Está tudo bem, eu estou aqui. -- levaram-na para o carro e colocou-lhe o cinto. As duas cúmplices sentaram-se com um ligeiro desconforto. A condutora olhou pelo retrovisor trocando de novo olhares com a miudita.
-- "Trabalhamos juntas à tantos anos e nunca conheci a tua filha, ou entrei na tua casa... Não te conheço." -- pensou.


segunda-feira, 20 de julho de 2015

Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [37]


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Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [36]

Roman Grau - Silent Pain Part 3: Silent Pain

Durante a semana, à noite, devorava o corpo de Madalena; insaciável na cama e sempre deliciada com os poemas e a atenção que recebia nos dias em que ficava para jantar. Aos fins-de-semana, passeava com Inês nos braços, por monumentos ou lojas de shopping, onde se perdia loucamente na boca e no corpo da sua mãe. Havia prendas e surpresas. Este homem fazia agora falta na vida de cada uma. Não era uma rotina, era uma necessidade.

Madalena, divorciada, sentava-se na sala, a olhar para o relógio de parede que já não lhe mexia como da primeira vez que o comprou e relembrava-se da razão de querer falar com ele.
-- "Estou farta de ficar em segundo plano! Como segunda opção!". Abri a porta e pedi-lhe para se sentar. Olhei-o nos olhos, séria, e ele não reagiu. É agora!
-- Queria falar contigo sobre nós. Estou farta de ser usada! Farta de ser uma segunda opção! Se queres continuar a estar comigo... Vais ter de a deixar!
-- Madalena, não estragues isto. -- disse-me, tentando manipular a minha opinião e o meu amor por ele. Percebi nesse instante, só pela maneira como me falava e as palavras que usara, que eu seria sempre a sua segunda opção, mas o corpo e os olhos dele diziam algo totalmente diferente e eu não conseguia deixar de o desejar, deixar de me imaginar com ele, com o seu charme, a sua inteligência, o seu sentido de humor e, obviamente, o sexo!
-- Vais ter de decidir! Não te quero dividir com ela! É minha patroa! Será que não posso, por um único e mísero momento da minha vida ser amada com prazer? Com desejo? Sem ter de aceitar partilhar as mãos de quem amo no corpo de outra qualquer? Não tenho direito a ser feliz? Escolhe! Ou eu ou ela!
À porta da cozinha, muito calada e de ouvido bem aberto, cuscava a filha, que sentia no estômago o sofrimento da mãe. As palavras ressoavam na sua cabeça, comparando a sua própria vida com as infelicidades amorosas da sua progenitora mal amada, causando-lhe um mal estar no estômago e um nó na garganta.
-- Falamos melhor sobre isto amanhã. O dia de hoje foi horrível e estás stressada. Precisas de descansar. Telefono-te assim que chegar a casa, está bem? -- aproximou-se de mim para se despedir com um beijo mas virei-lhe a cara. -- Madalena? -- pediu a minha atenção. Olhei para ele furiosa, numa pilha de nervos tal que estava capaz de o matar!
A mãe, com a cara já anunciando um choro, olhou para a porta da cozinha, onde ainda pôde ver a sua filha esconder-se com uma certa preocupação. Os passos do namorado caminharam em direcção à porta e saiu sozinho, deixando-a a olhar para a sua silhueta desaparecer no vidro. Sentou-se no sofá a olhar-se através da televisão, num reflexo distorcido e solitário, rasgando memórias que lhe eram tão doces. O tempo parou dentro daquela casa.
-- MÃE!!! -- gritou a filha numa aflição profunda e rasgada. -- Mãe! A panela pegou fogo mãe!
Madalena levantou a cabeça com os olhos em lágrimas e viu a aflição estampada na cara da filha enquanto fugia de uma cozinha consumida pela luz. Foi então, que quando sentiu a força das chamas tocar-lhe o corpo e queimar-lhe a cara, que se apercebeu da pobre vida que sempre teve, sem grande sorte, sem grandes amores, sem grandes oportunidades, sem grandes sorrisos. Desejou que o Diabo subi-se à terra para a levar ao reino da Luxuria, mas até nesse desejo infantil ela tinha azar. Teria de ser ela a descer...

Se eles respiram, vivem.
Se eles vivem, sentem.

Se eles sentem, amam.
Se eles amam, têm consciência.
Se têm consciência têm uma alma.
- Anthony Douglas Williams



quinta-feira, 16 de julho de 2015

A menina da escova...



Tenho tido a sorte única, no meu local de trabalho, de interagir com crianças entre os 3 e os 5 anos.
Hoje uma delas correu para mim na esperança de lhe secar e escovar o cabelo. Não é traquina, não é irrequieta, não é autoritária nem rabugenta, é criança! É mexida, é energética e curiosa; Um doce de criança, que não pára de me fazer perguntas sobre as coisas que vê, ou de trazer sempre o nariz cheio de macaquinhos.
Junto de mim e de escova na mão, a Maria, debruçou-se sobre a porta ao meu lado, batendo-lhe com a escova como se fosse um xilofone, e coloquei-me de joelhos atrás dela, para poder estar mais perto do cabelo. Do nada, sentindo o meu joelho mesmo à mão de semear e ao nível dos seus joelhos, aproveitou a oportunidade única e sentou-se na minha perna. Lá balançou um pouco enquanto eu tentava manter o equilibro e lhe secava o cabelo. Não foi tarefa fácil... Mas soube-me tão bem! Era uma dor agradável, por estranho que pareça. A experiência de sentir o seu peso, o seu rabo e corpo aconchegarem-se na perna trémula e nada preparada para 20kg de "rebeldia" fizeram crescer um bocadinho mais o pai que tenho dentro de mim. Fez-me sorrir, e pelo sim pelo não, nesse momento ganhei o dia.
Volta e meia perguntava-me o "o que era aquilo", ou o mais engraçado: pedia-me para se sentar de novo. Senti-me em parte pai. Um pai presente na vida dela, nas suas experiências, brincadeiras e mais importante: nas suas perguntas! Tirava tempo do secador para a ouvir, aproximando-me de si enquanto esticava o dedo a uma etiqueta.
A Maria não é a única felizarda a ter parte do meu tempo e atenção. Sim, sei que o simples facto de não passar 8h em redor de 20/30 crianças me deixa mais livre, mas gosto de me dedicar a cada uma das que passa por mim, por muito pequeno que seja a interacção.

Em conversa com uma amiga, desabafava a minha timidez e o medo com as crianças. Nunca estive na situação de tomar conta de crianças e bebés; Havia sempre alguém responsável por perto. Tenho pena de não ter o mesmo à vontade que muitas raparigas mais novas, e tenho muita inveja de quem teve e cuidou de primos e irmãos mais pequenos. A única base e confiança que tenho, adquiri com longas observações da interacção de pais com os filhos, com familiares, muitas perguntas, revistas e livros. Ainda assim, hoje a Maria ajudou-me a abrir um pouco mais a porta da confiança, a porta do desejo de ser pai e de ter um filho.
Só o facto de escrever e pensar sobre tudo isto me enche o peito de uma alegria indiscritível que nunca tive a oportunidade de sentir. O seu corpo junto ao meu enquanto se sentava na minha perna ou me fazia perguntas... A dedicação que eu próprio lhe dava, a atenção para os pequenos pormenores que ela não reparava, os deliciosos momentos em que lhe respondia e incentivava a fazer as coisas. O meu lado maternal e paternal a falarem tão alto que eu próprio me sentia e sinto feliz por ser assim.

3 Questions to Ask Your Child Every Night

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Um dia...
Um momento para mais tarde recordar...
Um momento para mais tarde recordar... [2]
A voz que me encanta...
Adivinha o quanto eu gosto de ti...
A criança reconhece...
Entretida no teu colo...
Um presente diferente...
Mamã, mamã!
Mais do que uma história...
Um berço...
Hoje...

quarta-feira, 8 de julho de 2015

O sofrimento do mundo...


"Se imaginarmos, tanto quanto for possível, a soma total de angústia, dor e sofrimento de cada espécie que vive na face da terra, teremos de admitir que  teria sido muito melhor se o sol tivesse sido capaz de produzir o fenómeno da vida na Terra em tão fraca quantidade como na Lua; e se, aqui como ali, a superfície fosse de uma calma cristalina." pág. 14 - nº 9 - Sobre o Sofrimento do Mundo de Schopenhauer

"Que a vida humana deve ser algum tipo de erro está suficientemente provado pela simples observação de que o homem é um conjunto de necessidades que dificilmente são satisfeitas; que a sua satisfação nada consegue a não ser uma situação indolor em que apenas cede ao tédio; e que o tédio é uma prova directa de que a existência em si mesma não tem valor, pois o tédio mais não é que a sensação do vazio da existência. Porque se a vida, por cujo desejo consiste a nossa essência e existência, possuísse em si um valor positivo e um conteúdo real, não existiria o tédio: a mera existência encher-nos-ia e satisfazer-nos-ia. Da forma como as coisas são, não temos prazer na existência a não ser quando estamos a lutar por alguma coisa - em cujo caso a distância e as dificuldades fazem com que o nosso alvo pareça satisfazer-nos (uma ilusão que se desvanece quando o atingimos) [...]" pág. 25 nº 5 - Sobre o Sofrimento do Mundo de Schopenhauer

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Ser morto é pior do que só morrer. Mas ser comido vivo é pior do que ser caçado à exaustão.
O ser humano, homo-sapiens, vive e desenvolve-se através de dois pontos que se afastam um do outro. O primeiro degrau é o amor/ódio. Imaginem uma linha cujo o amor e importância que damos ao caminhar se encontra no meio dessa linha, infinita ou não.
Num extremo temos o amor indescritível e incondicional que uma mãe tem por um filho no momento em que nasce; Do outro temos a falta desse amor - o ódio - em que um pai é capaz de tamanha atrocidade como o de espetar agulhas no corpo do seu filho recém nascido ou sufoca-lo com algodão.
O segundo degrau é a defesa do próprio eu através da razão ou pelas próprias mãos. Num extremo encontra-se a razão, que utilizamos cada vez que somos roubados e apresentamos queixa na policia, com a esperança de que o criminoso seja punido; No outro extremo temos a defesa dos nossos direitos pelas próprias mãos, em que se corta uma mão (ou algo pior) a um ladrão, violador e criminoso.
O ser humano, tal como todas as espécies que habitam neste planeta, vivem com um único fim: Serem felizes.
Respirar deixa-nos felizes. Saciar a sede, tomar banho, comer, correr, comunicar, viajar, passear, fazer sexo, deixa-nos felizes. Comprar é algo que se adquiriu à relativamente pouco tempo, graças à industria que controla o mundo através da Moda e das Tendências. Consumir deixa-nos felizes.
Mas esta felicidade não é duradoura. Não dura uma vida inteira. Tem de ser comprada, estimulada, exercitada e desenvolvida. Por essa mesma razão, não existe uma razão de existir, pois ser-se "feliz" não é mais que um conjunto de reacções químicas que nos estimulam o cérebro a lutar para nos mantermos vivos. São emoções, e emoções não são reais, são fabricadas. Esse é o núcleo do instinto animal! Sobreviver. Mas sobreviver é também por si um desejo das próprias células e dos vírus que as compõem. Sobreviver é desejar existir sem a vontade de verdadeiramente VIVER.
Poderemos dizer que de facto Vivemos; Que temos a sorte de poder apreciar a natureza do mundo com toda a sua vida que rasteja, caminha, voa e espalha as suas sementes. Mas esquecemo-nos de que não existe verdadeiramente uma razão de existir. Existimos porque tudo o que compõem este universo foi capaz de criar olhos para podermos ver o seu maravilhoso horizonte crescer e florescer.
A razão das coisas, desde o mais pequeno grão de areia ao maior sol, resume-se apenas a Ser. O que não é o mesmo que existir, pois existir implica interacção "sexual" que leva ao desenvolvimento, adaptação e evolução desse algo, seja astro-físico, seja animal; E a interacção é um acto de existir. Existir é, fundamental e unicamente: ser real, "palpável" e/ou observável.
Ser-se é tédio; Ser é a imobilização de si. Ser é "real" mas não tem valor quando trocado. A razão de Ser e de Existir é nula. Pois se nenhum de nós existisse, nada se perderia neste universo. Nem a sua magnitude se tornaria diminuta, ou os seus espectáculos cósmicos deixaram de se encher de cores exóticas.

A razão da nossa existência e o próprio sentido da vida, são imensuravelmente desvalorizáveis. A cruel verdade do nosso mundo humano, das nossas vidas, da nossa felicidade, do nosso amor, são facilmente embrulhadas como papel e deitadas ao fogo, pois tudo isso não é mais do que tentativas da nossa mente dar um sentido ao que nos rodeia. Queremos permanecer vivos, lutar pela "vida", porque os estímulos que recebemos nos são estranhos, nos fazem falsamente felizes. Todos os prazeres são reacções químicas que se transformam em amor. E o amor é, na sua essência, um desejo de sobrevivência; Quer da "coisa" pelo qual nos apaixonamos, quer de nós mesmos.
E as memórias não são mais que a exigência abominável, e imperceptível, que o próprio cérebro tem em se manter vivo. Não é permanecer "sã", mas vivo, a funcionar! A Existir, a Ser.
Ter e receber amor não é suficiente. Dar e partilhar muito menos. São tudo falsidades. São partidas que o próprio cérebro prega a si próprio. Pois se todos os animais tivessem amor por todos, inclusive as suas vitimas, deixariam de ser animais carnívoros ou herbívoros, pois até as plantas vivem numa paz tediosa em que apenas sobrevivem através da proliferação das suas sementes. Se os animais, tal como as plantas, não tiverem mais nenhum objectivo na vida do que simplesmente semearem-se, partilharem os seus genes, qual a sua razão de existir? Qual é o sentido da vida deles se não for apenas o de Existir? E porque haveríamos nós de ter o verdadeiro valor e significado da vida!? Porque haveríamos de ser egoístas ao ponto de nos acharmos melhores que outra coisa qualquer? Não somos deuses, somos átomos. Não temos verdadeiramente uma identidade, não somos realmente alguma coisa "interessante" até que o cérebro descubra e compreenda para que servem os pés, as mãos, a boca e as orelhas.

A própria felicidade de respirar, surge apenas na calma paisagem, onde o predadores não correm em direcção a nós e não precisamos de lutar pela nossa vida. Nesse único e mísero momento, vivemos a nossa existência. Existimos. Mas esse momento não dura muito tempo. Essa felicidade é efémera, pela simples razão de sermos obrigados a alimentarmos-nos. Logo aí, deixamos de apreciar as coisas, para preocuparmos-nos com elas ao ponto de não tirar os olhos do horizonte, o ouvido do vento e o nariz dos frutos venenosos ou comestíveis.
O próprio sofrimento, que pode ser observado e contabilizado através dos neurónios-espelho, quer através de uma ressonância magnética, pode ser medido.
Ao centro da linha de dois extremos, encontra-se a dor do respirar - o Zero. Num extremo, pela parte positiva, está o nascimento de um filho ou vê-lo cair da bicicleta, do outro está a dor que se sofre ao ver um filho ser atropelado ou bater-nos. A impotência, que surge pela incapacidade de controlar o mundo, as coisas e a nossa própria vida, faz nascer a depressão; E a depressão não é mais do que a revelação do degredo do mundo. Da crueldade e frieza. É nesse momento que a pessoa abre finalmente os olhos para a realidade da "morte" que a rodeia. Tudo é finito, feio e o que é bom acaba depressa. Não há prazer para sentir, não há amor para dar. Tudo deveria morrer. Nada é bonito e bom neste mundo.

O mundo existe, porque precisamos dele, porque interagimos. A simples razão, de um colecionador de pedras, nunca vir a encontrar uma pedra incrivelmente perfeita e sublime para a sua colecção, apenas e só porque esta se encontra inacessível no fundo do oceano, torna a existência daquela pedra tão naturalmente enjoativa e comum, nula. O colecionador não sabe que ela existe, e isso não lhe faz confusão. Mas é aí que entram os desejos insaciáveis do ser humano. Ele pode nunca vir a encontrar a pedra dos seus sonhos, a pedra do mundo, mas irá para sempre, até ao dia da sua morte, procurá-la em todos os cantos do mundo. E essa é fundamentalmente a razão de Viver. Não é sobreviver, é encontrar respostas às nossas perguntas.
Contudo, se nunca fizéssemos perguntas, não obteríamos respostas e o mundo não choraria por causa disso. O reino animal não entraria em colapso e o próprio planeta não se auto-destruía num apocalipse sem sentido.
O vazio, é a razão do universo.

"Depois da tua morte, serás o que foste antes do teu nascimento." pág. 54 nº 2 - Sobre o Sofrimento do Mundo de Schopenhauer

Não há nada mais bonito que a morte!


"Who are you? You are not you'r age, color, ethnicity. You'r not possessions, hobbies, believes. If you take away everything you have identify your self with: family, kids, everything; What would be left? who are you?" - Pig (2011)

"[...] we are like the widgets in a math problem, we only exist because of the question, beyond that we don't exist, we don't matter." - Loop (2007)

"Remember everything, for soon there will be nothing" - Desolate (2013)

Inicio: 28/06/2015

sábado, 27 de junho de 2015

Adoro a maneira como me amas...


Adoro a maneira como olhas para mim, com os teus olhos de azul cristalino a brilharem-me no rosto, e o sorriso largo entre lábios vermelhos namorarem-me um beijo. Não desvias o olhar; parece que te desejas perder no horizonte corado de narcisismo à tua imagem. Bela. Os dedos afagam-me as bochechas, onde desenhas uma forma de arte abstracta mas deliciosamente hipnotizante e carinhosa. Conquistas-me com o teu olhar, a tua língua sobre os lábios e um sorriso sincero, afogado em amor e dedicação. Na tua beleza de geometria matemática, vejo a face de um anjo com pele de bebé e corpo de mulher garota, de curvas com prenuncia e entre cobertas numa pose de desejo que me chama para a cama, onde te deitas a dormir com um sorriso entre dentes.
Sonharás comigo? Pergunto-me, enquanto te viras para mim, num sono "profundo". O teu olfacto descobre-me o corpo, as tuas mãos encontram as minhas costas e abraças-te confortavelmente no ninho que se vai construindo à tua volta.
Um aperto cresce-me no coração, para cada toque na pele exposta à tua essência que me acende a chama do desejo e do prazer.
Olha de novo para mim, caprichosa, transbordando saudades, e presta atenção às minhas mãos, às minhas palavras e aos meus lábios que secam num desejo que não tenho de te pedir.
A tua espontaneidade sempre me derreteu o nervosismo. As tuas mãos sempre me acalmaram o pensamento divergente.

Adoro a maneira como olhas para mim, como me agarras e me beijas.
Nunca amar e ser amado soube tão bem!

Obrigado.


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Porquê o "obrigado" e não um "amo-te" no fim?

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [36]


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Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [35]

Lançou-me um olhar matreiro e encostou a sua anca à minha, empurrando-o contra si enquanto me ajeitava a camisa. Não estava desengonçado, nem mal abotoado, mas a sua dança de sexo, os preliminares tinham de me conquistar e deixar completamente doido para que eu lhe cede um daqueles beijos que ela tanto adorava. Aquele tipo de beijos que a deixavam de lábios e peito a fervilhar de prazer. Um beijo que a fodia pela língua...
Beijei-a. Deliciei-me de novo nas suas curvas e parei. Se ela queria derreter-se e babar-se sobre mim, como todas as vezes que fazia cada vez que me telefonava e me falava no seu tom de voz provocador, sexy e ansioso, teria de sofrer. E esperar para poder satisfazer um desejo quase incapaz de se conter é um orgasmo por si só.
Fingi um beijo, numa aproximação sedutora dos meus lábios aos dela e declarei ao ouvido:
-- Mais logo vou levar-te a um lugar especial... -- beijei-lhe a face. De olhos bem abertos à espera do desfecho daquela frase com um final misterioso, tentou impedir-me de levantar, de caminhar, utilizando as suas mãos nas minhas, à espera da resposta que continha um segredo que a começava a devorar por dentro. As mulheres não aguentam mistérios, nem surpresas. Adoram antecipar a sua vida, mesmo sem terem qualquer tipo de controlo sobre elas.
Com um beijo rápido distraí-a, afastando o meu corpo do dela, que suava pelas mãos e lhe aquecia o rosto. Saí do escritório com um ultimo olhar e um leve sorriso, passando pela porta de vidro que me deixara entrar neste escritório agora em completo silêncio. Era quase paranóico! Sentia os olhares cravarem-se nas minhas costas.
Ao passar pela ultima secretária junto à porta, uma rapariga, de cabelos lisos e compridos, chamou-me à atenção. Com que então eras estudante... Que tarde inesquecível! Ainda sonho com a tua boca...
Pisquei-te o olho, sobre o olhar atento da tua patroa e de Madalena, e ofereci-te um ligeiro acenar de mão. Nervosa, completamente vermelha que nem um tomate, sorriste também, baixando a cabeça.

Ainda te lembras "boca de criança"?

A visão derreteu-se num sopro... [2]

Para lá das nuvens pintadas de vermelho, acima do inferno que começava uma caminhada confiante na terra, surgiram os anjos. Pele branca, despida, sem sexo, sem face, emitindo uma luz que iluminava a sua assombrada natureza humana, coberta do sangue corrosivo jorrando do chão, tocando o seu reino nos céus. As labaredas trocavam as nuvens, iluminando a obscura sentença desta alegria devorada. A terra parecia ter descido às suas entranhas.
Um lamento preencheu-lhes os pulmões, tentando conquistar o ar. Pompeia explodiu, arremessando sobre eles, detritos e um rio de lava que cortava o algodão suave debaixo dos seus pés. A cascata de forte corrente levava consigo os anjos aterrorizados, envoltos em gritos arrepiantes. Deus não os podia salvar. Perderam a sua inocência e o seu paraíso. Perderam-se; Para sempre.
As escadas douradas para o paraíso, pintavam-se de preto, degrau-a-degrau, casco-ante-casco, numa subida que Satanás fazia vagarosamente, deliciando-se, maravilhando-se, sobre um campo de batalha de buracos ruidosos, de onde fugiam almas torturadas de formas infinitas; Cada uma arrastando consigo uma corrente cujo o peso as prendia aos fogos do covil do seu verdugo.

O cântico surgiu de novo no ar, confrontando por fim, a meio da caminhada, o rei da escuridão. Sem nada para dizer às concubinas do grande Senhor, sorriu. No peito do guardião da luz, que ousava pairar à sua frente, um circulo de escuridão cresceu, envenenando todo o seu corpo, que santificado se transformava em mármore, aparentemente rijo, mas inevitavelmente fraco, tal como a mente do seu amo, acabando por se espalhar no ar como pó com a simples brisa dos gritos rasgados a biliões de quilómetros de distância.

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Ideia: 20-05-2015
Inicio: 01-06-2015