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sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Vou sentir saudades tuas...

[Im Fine. - Pinterest]
[Be gente. - Pinterest]


(played during a thunderstorm)


Deixa-me ajudar-te...
Quero ouvir-te, e saber que os meus olhos te dão alento.
Tocar o teu rosto de mão quente e deixar que te deites na palma da minha alma.
Conta-me os medos que te assombram. Os receios que te controlam a vida e o espírito de quem és, que te suga a força e a vontade de seres, de te inspirares.
Desabafa o receio de te perderes de ti, do que já foste.

Sem ti, não consigo respirar!
Apareces em todos os recantos das minhas memórias, como personagem de fundo... E quando penso no nosso último beijo, no ultimo abraço, no ultimo "adeus"; O aperto no peito faz-me chorar a saudade que sinto todos os dias por ti.
É do teu olhar de sorriso tenurento, que vou sentir mais saudade. Dos teus lábios tocarem os meus gentilmente. Do conforto que foi chorar no teu peito, do reconforto que foi ser abraçado por ti.
É o desejo de te voltar a sentir junto de mim, minha, princesa, meu amor eterno...

Que a tua face não desapareça da memória.
Que o teu cheiro e doçura não esbote da minha pele.
Que a tua essência abrace para sempre quem sou.
Foste tu a minha amada. A minha paixão de uma vida, a parte de mim que nunca fui capaz de ser.
És a luz que me ilumina a escuridão do vazio que hoje, neste dia sombrio e frio, se abate sobre mim, me rasga o peito e enche de lágrimas num sofrimento mudo, num mundo que já não faz sentido.

Já senti amor, mas foste tu a primeira que mexeu comigo.
A primeira amizade por quem lutei mais.
A personalidade com quem mais cresci e amadureci.
Que não seja um acabar. Que não seja um adeus. Que o até já esteja ao virar da esquina, e todo o tempo que perdemos nos reencontre, com o mesmo amor e paixão do nosso primeiro beijo, do nosso primeiro abraço, ao pôr do sol, nas Portas de Coimbra, no sitio mais bonito que foi conhecer-te, descobrir-te e amar-te. Um momento ao qual me agarro, pois tudo o que é mais sagrado, aconteceu ali, junto de mim, por ti e para ti.


"Sê gentil contigo, estás a fazer o teu melhor que podes."

domingo, 28 de maio de 2017

O dia começou...


Saio do trabalho, meio-dia, sábado. O sol toca-me na pele, aquece-me pelos braços despidos. Hoje sinto-me inspirado.
Desejoso por chegar a casa e ver-te de mangas arregaçadas, debruçada sobre os tachos a fumegar. Ansioso pelo teu sorriso e o olhar cansado, de quem pede um carinho, um mimo, um beijo e um abraço.
Passo a mão no teu rabo, subindo gentil com as pontas dos dedos por cada nó de osso nas tuas costas e delicio-te com um beijo de saudade.
Enrolo-me de abraço no teu corpo, e deslizo as mãos sobre as tuas, lavando as mãos com as tuas, no escorrer que me acalmava a vontade. Beijo-te de novo.
Nas pernas sinto então umas mãos pequeninas, enchendo a casa de gargalhadas e risos pequeninos. Os caracóis mexiam com rebeldia enquanto o corpo se colava ao meu, com saudade, com amor, da mesma forma que eu me agarrava a ti.
Apanhei-a no meu colo, assim como quem pega num bebé, e enchi de beijos o que nos era tão especial; tão traquina; tão irrequieto.
Acabaste a louça, mexes-te o tacho fumegante e correste para nós, já sem avental, já sem os olhos cansados, já sem a tristeza no rosto.

O sol atravessa a sala conquistada por bonecos. Os desenhos lutam na caixa mágica e os pais sobre o sofá. Tenho saudades de ti, amor. Tenho saudades do tempo.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

[Bright Star - Pinterest]

Amor, chora comigo.
Abraça-me o corpo,
Coloca as mãos à volta da minha cara.
Sentes a dor no meu soluçar?
O medo de te perder num piscar.
O receio de me morreres num arfar.

Abraça-me,
Toca-me os lábios.
Olha-me,
Assim comigo, sem disturbios,
Sentir o cabelo como algodão,
Entre estas cobertas no meio de um nevão,

Quatro beijos,
Quatro caricias,
Quatro sorrisos,
Quatro suplicias.

Vem, estrela brilhante,
Deitar-te sobre o meu peito,
Soltando um suspiro amoroso,
E deixando para trás, o medo, distante.

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Abbie Cornish (Fanny Brawne)
Edie Martin (Toots)
Bright Star (2009) directed by Jane Campion

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

O pai não sabe, mas vamos procurar e aprender os dois...

[Little girl reading - Pinterest]

Existe algo de diferente em ti. Não neste momento, ou neste dia, mas desde que te peguei pela primeira vez. Os olhos azuis que herdaste da tua mãe expandiram-se como o universo, e tocas-te-me por dentro, como um dedo no coração, curiosa.
E vendo-te na nossa cama, debruçada sobre uns livros que comprei há anos a pensar neste preciso "agora", te vejo completa. Um sonho realizado. Uma batalha incessante para que cresças rodeada de estímulos, de risos e sorrisos, de bons e maus exemplos. De oportunidades para ver e aprender. Viver!

A tua mãe novamente me dirá que penso demasiado, que me preocupo demasiado, que te encho de mimos e atenção, que te estrago de certa forma. Mas um dia quando tiveres a consciência daquilo que foste, daquilo que recebeste, daquilo que fizemos juntos, prefiro que estejas farta do meu carinho, do que negligenciada, abandonada e mal amada.
Prefiro estar contigo todos os dias da minha vida a teu lado e deixar-te aventurar sabendo que estou por perto. Tenho medo de te perder. Medo que te percas nos sofrimentos que passei; Mas o mundo não é cor-de-rosa; Não é bonito, nem simpático.

Tira só mais um livro querida. Pergunta-me, explica-me, mostra-me! O pai também quer aprender a forma como vês o mundo. Lê, escreve, desenha, pinta! O pai ama tudo o que crias, tudo o que imaginas, tudo o que inventas nesse mundo fantástico que não acaba.

Ama. Aprende.


terça-feira, 1 de março de 2016

A rapariga que cheirava a pão quente... [3]

Sentada à mesa, olhando pela janela, a avó observava as aventuras da neta que tão vincada na sua memória a faziam lembrar a própria filha, que fugia brincando dos patos e das galinhas, que se tornava mãe dos coelhos e pintainhos. O avô juntou-se à avó na recordação do tempo. O que era a velhice sem netos e bisnetos?
O avô aproximou-se da sua amada, deu-lhe a mão, e num momento indecifrável, por qualquer animal ou pessoa neste mundo, partilharam uma pequena memória. Sofia tinha a mãe impregnada no corpo.
Viram-na correr até ao fundo da quinta, trepando a muralha que separava a vinha do vizinho dos animais do seu avô, cuja gula não tinha fim.
O Sol dizia-lhe "Olá", e ela juntava todas as coisas à sua festa; o seu sorriso, a sua energia, o seu olhar, as suas mãos delicadas. Sentia o ar entrar-lhe nos pulmões, sem venenos ou doenças, e assobiava uma música clássica, que recordava de quando era criança. Um som que dançava com o incenso do quarto do pai e que parecia vir das próprias paredes escondidas pelos livros. Tornara-se na melodia que melhor descrevia o seu espírito. Juntava o primeiro passo com a primeira mesada. Recordou o toque pesado do vinil na sua mão, cuja escuridão da sua cor sempre lhe dera um ar misterioso e sinistro.
Perdida por um momento, procurou os seus avós ao longe. Olhavam-na num só sorriso. A avó acenou.
Vagarosa e curvada, preparou a mesa para fazer um bolo. O seu melhor amigo de amor eterno, deixou-se cair no sofá. Ajeitou a lenha na lareira, incitando o fogo a rugir, e deu-lhe de comer mais umas cavacas compridas.
Finalmente o cheiro da farinha sentia-se no ar. 

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Sê diferente, mas consciente...



Após a tua morte deixarás o que trouxeste no teu nascimento.
Perante o teu fim irás perceber que o valor da vida não existe. Que não somos nada. Um universo sem humanos seria a mesma coisa. Na mesma belo, na mesma magnífico e incrivelmente fascinante.
Mas se estás aqui, por vontade ou não, encontra um buraco, escava um e faz dele o TEU buraco.

Ainda te lembras de quanto tempo demoraste a aprender a gatinhar? A andar? A distinguir cores? Objectos? Ou quanto tempo precisaste para atar pela primeira vez os sapatos? A escrever as letras ou o abecedário?
Talvez não te lembres, mas todos os dias foram uma luta. Todos os anos te sentias mais alto e mais capaz. Os livros e os filmes, com o tempo, começaram a ter uma história mais interessante com ideias que nunca tinhas percebido.

Por isso chora, esconde-te, grita, mas não tenhas medo, não desistas, estás a crescer. E se errares!? Se errares, aprende com eles. Re-escreve-te.
És um animal magnífico, acredites quer não. Adopta um cão ou um gato. Perceberás mais tarde, que a domesticação foi o melhor que a nossa espécie alguma vez conseguiu alcançar sem tecnologia.

Quando te voltares a sentir triste, pega num livro de receitas de doces e faz um bolo. Se correr mal, faz de novo. Lembra-te: é através das experiências que crescemos! Demoraste anos a aprender a atar os teus próprios sapatos, por isso dá-te um desconto. Estás a aprender, a crescer!

"Se caíres sete vezes, levanta-te oito."

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Se este texto te ajudar, deixa umas palavras, também eu preciso de saber que faço falta neste mundo...

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Se precisares de mim...



Abro os meus braços e deixo que caias no meu peito. Agarras-me, envolvo-te e choras. Conheces de cor a maneira como os meus braços te tocam no corpo e isso deixa-te ainda mais triste. Cais tanta vez junto de mim, que julgas já não saber fazer mais nada a não ser chorar, dos erros, e depender de mim para te limpar as lágrimas.
Dizes-me então que não és fraca e que não precisas de mim, mas não falas das coisas e isso envenena-te por dentro, destruindo a fraca confiança que tens de ti mesma.
Os abraços já não chegam; Nem as palavras, nem a minha presença, o ramo de flores e o bilhete surpresa. Isolaste do mundo. Pões uma máscara dos "dias tristes" e deixas-te ficar na cama, a soluçar entre lençóis que falsificam o calor do meu corpo e a força dos meus braços.
Uma e outra vez, perdes o equilíbrio e precisas de mim, do meu ombro, para que voltes a olhar para cima. Aprender que se caíres sete vezes te levantas oito.
Este sorriso que trago comigo, não é um gozo do teu sofrimento, é o meu amor por ti, que te espera para poder proteger e ajudar a ultrapassar mais um degrau na aventura a que chamas inferno.

Se precisares de mim, não precisas de correr à minha procura, estou mesmo ao teu lado, onde sempre estive e onde sempre estarei. Decidas o que decidir, erres o que errar ou desesperes pela dor que aperta o peito, eu estarei aqui, para te ouvir, para te apoiar, para te ajudar a crescer.

A solidão é um buraco escuro que deves aprender a controlar.

Abraça-me.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Sorri, sê feliz, ama...


A tua mãe adora deixar-me sozinho contigo na cama enquanto me conquistas a atenção com livros enfeitados de personagens mágicas. Ela prepara o pequeno almoço para os três e eu invento uma história só para ti, cheia de vida, de risos e brincadeiras. És a minha ouvinte mais apaixonada. Deliciaste a olhar para mim, super atenta, sentindo a minha voz acarinhar-te os ouvidos, e as caretas preencherem a tua sede de imaginação e brincadeira.
Os desenhos enfeitam os livros mas tu enfeitiças as nossas vidas. Roubas-nos as energias só para te pudermos acompanhar e recarregas-nos com um simples sorriso. Adoro quando sorris. A beleza que exteriorizas da tua vontade de conhecer as coisas que te rodeiam. Ajuda-nos a ser crianças de novo. Pede-me só mais uma história. Pede-me só mais uma dança com a mãe. Tu adoras ver-nos dançar e eu adoro dançar com as duas únicas mulheres com quem me casei. Todos os dias és uma aventura de perguntas espontâneas e desinibidas. Todos os dias me obrigas a crescer, a aprender, a aceitar. Todos os dias deposito o meu coração no teu presente.
A tua mãe diz que deveria ter mais calma, mas sou incapaz de te deixar com perguntas por responder, com livros de histórias por contar, com brinquedos de viva própria por personificar. És o meu recreio.

Maria? Sorri. Sê feliz. Nós amamos-te!

quinta-feira, 16 de julho de 2015

A menina da escova...



Tenho tido a sorte única, no meu local de trabalho, de interagir com crianças entre os 3 e os 5 anos.
Hoje uma delas correu para mim na esperança de lhe secar e escovar o cabelo. Não é traquina, não é irrequieta, não é autoritária nem rabugenta, é criança! É mexida, é energética e curiosa; Um doce de criança, que não pára de me fazer perguntas sobre as coisas que vê, ou de trazer sempre o nariz cheio de macaquinhos.
Junto de mim e de escova na mão, a Maria, debruçou-se sobre a porta ao meu lado, batendo-lhe com a escova como se fosse um xilofone, e coloquei-me de joelhos atrás dela, para poder estar mais perto do cabelo. Do nada, sentindo o meu joelho mesmo à mão de semear e ao nível dos seus joelhos, aproveitou a oportunidade única e sentou-se na minha perna. Lá balançou um pouco enquanto eu tentava manter o equilibro e lhe secava o cabelo. Não foi tarefa fácil... Mas soube-me tão bem! Era uma dor agradável, por estranho que pareça. A experiência de sentir o seu peso, o seu rabo e corpo aconchegarem-se na perna trémula e nada preparada para 20kg de "rebeldia" fizeram crescer um bocadinho mais o pai que tenho dentro de mim. Fez-me sorrir, e pelo sim pelo não, nesse momento ganhei o dia.
Volta e meia perguntava-me o "o que era aquilo", ou o mais engraçado: pedia-me para se sentar de novo. Senti-me em parte pai. Um pai presente na vida dela, nas suas experiências, brincadeiras e mais importante: nas suas perguntas! Tirava tempo do secador para a ouvir, aproximando-me de si enquanto esticava o dedo a uma etiqueta.
A Maria não é a única felizarda a ter parte do meu tempo e atenção. Sim, sei que o simples facto de não passar 8h em redor de 20/30 crianças me deixa mais livre, mas gosto de me dedicar a cada uma das que passa por mim, por muito pequeno que seja a interacção.

Em conversa com uma amiga, desabafava a minha timidez e o medo com as crianças. Nunca estive na situação de tomar conta de crianças e bebés; Havia sempre alguém responsável por perto. Tenho pena de não ter o mesmo à vontade que muitas raparigas mais novas, e tenho muita inveja de quem teve e cuidou de primos e irmãos mais pequenos. A única base e confiança que tenho, adquiri com longas observações da interacção de pais com os filhos, com familiares, muitas perguntas, revistas e livros. Ainda assim, hoje a Maria ajudou-me a abrir um pouco mais a porta da confiança, a porta do desejo de ser pai e de ter um filho.
Só o facto de escrever e pensar sobre tudo isto me enche o peito de uma alegria indiscritível que nunca tive a oportunidade de sentir. O seu corpo junto ao meu enquanto se sentava na minha perna ou me fazia perguntas... A dedicação que eu próprio lhe dava, a atenção para os pequenos pormenores que ela não reparava, os deliciosos momentos em que lhe respondia e incentivava a fazer as coisas. O meu lado maternal e paternal a falarem tão alto que eu próprio me sentia e sinto feliz por ser assim.

3 Questions to Ask Your Child Every Night

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Um dia...
Um momento para mais tarde recordar...
Um momento para mais tarde recordar... [2]
A voz que me encanta...
Adivinha o quanto eu gosto de ti...
A criança reconhece...
Entretida no teu colo...
Um presente diferente...
Mamã, mamã!
Mais do que uma história...
Um berço...
Hoje...

sábado, 27 de junho de 2015

Adoro a maneira como me amas...


Adoro a maneira como olhas para mim, com os teus olhos de azul cristalino a brilharem-me no rosto, e o sorriso largo entre lábios vermelhos namorarem-me um beijo. Não desvias o olhar; parece que te desejas perder no horizonte corado de narcisismo à tua imagem. Bela. Os dedos afagam-me as bochechas, onde desenhas uma forma de arte abstracta mas deliciosamente hipnotizante e carinhosa. Conquistas-me com o teu olhar, a tua língua sobre os lábios e um sorriso sincero, afogado em amor e dedicação. Na tua beleza de geometria matemática, vejo a face de um anjo com pele de bebé e corpo de mulher garota, de curvas com prenuncia e entre cobertas numa pose de desejo que me chama para a cama, onde te deitas a dormir com um sorriso entre dentes.
Sonharás comigo? Pergunto-me, enquanto te viras para mim, num sono "profundo". O teu olfacto descobre-me o corpo, as tuas mãos encontram as minhas costas e abraças-te confortavelmente no ninho que se vai construindo à tua volta.
Um aperto cresce-me no coração, para cada toque na pele exposta à tua essência que me acende a chama do desejo e do prazer.
Olha de novo para mim, caprichosa, transbordando saudades, e presta atenção às minhas mãos, às minhas palavras e aos meus lábios que secam num desejo que não tenho de te pedir.
A tua espontaneidade sempre me derreteu o nervosismo. As tuas mãos sempre me acalmaram o pensamento divergente.

Adoro a maneira como olhas para mim, como me agarras e me beijas.
Nunca amar e ser amado soube tão bem!

Obrigado.


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Porquê o "obrigado" e não um "amo-te" no fim?

terça-feira, 14 de abril de 2015

A rapariga que cheirava a pão quente... [2]

O sol voltava a espreitar entre o nevoeiro derrotado pelo vento enquanto devorava o primeiro pão e metade do copo de sumo. À sua frente sentava-se o avô com um voraz apetite por geleias trincando lentamente o pão quente e caseiro cujo cheiro se entranharia na camisola que mais tarde o ajudaria a adormecer no sofá velho em frente à lareira. Penduravam-se na parede pequenas molduras carregadas de memórias e de um pó que fazia parte da história de toda aquela casa, daquela divisão. Pessoas defuntas, filhos emigrados e acontecimentos já esquecidos.
Com as energias recarregadas, calçou as botas de borracha e correu atrás da avó que carregava um pote com comer para os patos e as galinhas. As vozes dos animais mordiam-lhe o peito. Chamavam-na, inquietos, por um pequeno almoço de legumes e vegetais. Já não ficava a olhar de longe, aproximava-se com firmeza daquelas criaturas à solta e atirava um punhado de alimento ao ar,  uma e outra vez, semeando com um pouco mais de destreza que a sua avó, que já curvada sentia dificuldades em fazer tarefa tão fácil.
-- Trás-me seis ovos Sofia. -- apontou a avó para a gaiola das galinhas. A neta entrou devagar, afastando com o pé alguns pintainhos do caminho e procurou no largo ninho. Ao sair, trazia na mão quatro ovos ainda quentes. A tonalidade rosa em contraste com a sua palma da mão e o peso em forma de pêra que quase lhe escapava pela ponta dos dedos fizeram-na bater ligeiramente com a cabeça ao sair do hotel empalhado. De balde numa mão e os ovos noutra, juntou os nós e colocou cada um deles com cuidado no fundo do balde.
A sua avó, sem mais nada a fazer por ali e depois de dar água ao porco, voltou para casa, deixando a neta para trás, que se admirava com o bicar dos patos sobre o milho. Foi seguida durante alguns metros até que os passos se tornaram numa pequena corrida que nenhum dos coelhos se dignou a igualar. Os olhos negros e pequenos, de dentes pequeninos sobre alguns pequenos pedaços de cenoura, observavam-na correr de sorriso gentil no rosto e com os cabelos ao vento, num movimento físico que os deixava hipnotizar. Saltava nas nuvens, assim lhes parecia.

segunda-feira, 2 de março de 2015

A rapariga que cheirava a pão quente...


Ela acordou, pelo cheiro do pão cozido da manhã e da lenha crepitante no fogão negro e pesado. Levantou-se num salto, de olhar faminto e de estômago lambareiro, imaginando-se tão rapidamente a devorar o saboroso pão da sua avó, que ainda lhe faltava calçar os chinelos de algodão. De pijama embonecado e sorriso largo no rosto, agarrou a maçaneta da porta. Estava quente, iluminada por uma fresta nos cortinados que lhe embatia no rosto e numa perna. Como quem nos toca no ombro, voltou-se para o sol e perdeu-se num horizonte sarapintado de cores e flores, num prado verde que se estendia até onde a vista alcançava, limitando-se num muro baixo de pedras velhas e de amizades estranhas com o musgo e os cogumelos. Admirou os patos soltos junto ao lago. Os galos caminharem de peito feito e um fumo cinzento desaparecer com o leve vento que embatia nas árvores altas, e grossas, espalhadas pelo terreno trabalhado pelos seus avós. A casa de férias perfeita para qualquer rapariga da sua idade. Dezasseis anos.
A casa velha, do seu tetra-avô, de teto ligeiramente mais alto que ela própria, acolhia-a sempre com um abraço de nostalgia e conforto. Era o ar, o ambiente, os sonhos, os cheiros, os avós... Aquela era a sua casa. O seu recanto.
Abriu a porta, ultrapassou o avô carregado com um cesto de lenha e correu para a cozinha. Os cabelos castanhos encaracolados voavam numa liberdade e beleza que a sua avó nunca parava de admirar de olhos reluzentes. Lembrava-lhe a mãe quando era mais nova. Alta, sorridente, confiante, bela, apaixonada e quase sempre com a cabeça na Lua. Agarrou então num pão e com a faca cortou-o ao meio, recheando-o com o fiambre e o queixo que a sua avó comprava no mini-mercado ao fundo da estrada, para lá do moinho e da ponte.
Não se bebia leite naquela casa; Não por serem alérgicos, mas porque a vitamina C do sumo de laranja que se preparava na frescura da madrugada, lhes faziam melhor aos ossos e à disposição. Juntavam-se as frutas numa cesta onde a maçã dominava abundantemente de cores garridas, e um doce de abóbora que se deixava devorar pela gulosice do avô de costas cansadas.
Aproximou-se, da janela, quase embaciada, sentindo o frio do exterior com os olhos, aconchegando-se no conforto do lar que parecia acordar e aquecer-se sozinho. Os seus avós, que se moviam lentamente de um lado para o outro, de tarefas decoradas e gentilmente laboradas, pareciam pequenos anões, mágicos, sempre com um sorriso caloroso no rosto.




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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

O sorriso que me aquece... [2]


Viraste-te de peito para cima, de bicos altos por trás de uma fina camisa de dormir e recebeste um frio nos pés. Ele olhou-te, brincalhão com os teus pés tensos e cansados nas suas mãos. Beijou, acariciou e massajou. Lambeu um dedo, introduziu-o na boca e usou-lhe a língua. Voltas-te a tremer.
As provocações faziam-te delirar, obrigando o teu corpo a encontrar uma última fonte de energia no teu corpo conquistado pelo trabalho.
Os dedos dele tocavam-te nos ossos, gentilmente, como uma flauta. O stress acumulado dispersava-se pelos tendões, explodindo no cérebro um intenso prazer de derrota de ti própria, que se aconchegava cada vez mais na cama tão prazerosamente bem feito, vincada e limpa. O cheiro ao lavado entranhado nas forras das almofadas e os cobertores quentes e leves, relembravam-te a manjedoura que um dia foi o colo da tua mãe.
Sorriu para ti, com uma expressão chorosa. Leste-lhe no rosto: "Como eu te amo!".
Sorriste de volta: "Também te amo!".

domingo, 8 de fevereiro de 2015

O sorriso que me aquece...


O dia foi longo e a noite chegou depressa, como um tiro. Chegaste a casa, cansada, de pés doridos e cabeça a latejar de stress. Descalçaste os sapatos de salto alto e deitaste-te sobre a cama, casada e cansada.
Casada com um homem que se debruçava sobre a loiça por lavar na cozinha, depois de ter deitado os garotos, também conquistados pela cansaço das suas brincadeiras; E cansada de um trabalho que te exige o mesmo tempo e dedicação que gostarias de dar aos teus filhos.
Ouves o som da água bater nos pratos e o teu querido usar as mãos na porcelana que escolheram em conjunto, poucos meses depois de terem comprado uma casa e esperarem pelos gémeos. Uma surpresa para toda a família, em forma de prenda, oferecida num dos natais mais frios daquele ano. Mas os abraços souberam tão bem... Era incrível o calor que um simples e breve abraço te proporcionava.
A torneira parou a água. Ele limpou as mãos a uma toalha e dirigiu-se ao quarto. Estavas deitada de barriga para baixo, com os cobertores a cobrirem-te metade das costas e ouviste-o aproximar. O caminhar que reconhecias através das vibrações que surgiam no soalho e subiam pelas pernas da cama até à tua almofada ou à mesinha de cabeceira, deixaram-te ansiosa, apaixonada, deliciada. Sentou-se á borda da cama, ao teu lado, e beijou-te os cabelos, sussurrando-te:
-- Boa noite meu amor. Queres uma massagem nos pés?
Tu sorriste. E ele era largo e jubilante. O teu marido conhecia-te melhor do que ninguém, e estragava-te de mimos sempre que podia. As pontas dos dedos tocaram a pele tensa das costas e tremeste. As mãos quentes massajaram os ossos do pescoço, das omoplatas e desceram pela coluna arrepiada de prazer. Os lençóis descem pelas curvas cansadas do teu corpo, e param sobre o teu rabo, redondo e coberto por uma fina cueca preta que ele te tira com beijos e beijinhos... roças as pernas, num prazer intenso que te cresce e olhas-o.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

As saudades de um tempo...



Crepitava a lareira quente e confortável, aos pés de um sofá ocupado por um homem de grandes barbas brancas. De cachimbo na boca, respirava levemente, apreciando o momento que se fazia acompanhar pelos seus dois netos, um casal de gémeos, tímidos e aventureiros, mas naquele preciso momento, olhavam o seu avô com muita atenção, à espera de mais uma história mágica com um moral que levariam para sempre nas suas mentes.
O fogo dançava, sobre o olhar do velho cansado que descansava os olhos daquele fatídico dia de prendas e surpresas. As crianças olharam-se entre si e, sem exigir histórias ou atenção, deixaram-se levar pela lareira que o seu avô acendera logo pela manhã, para aquecer a casa, de troncos grandes e secos; O aconchego daquele quadrado reluzente, que iluminava uma sala quase às escuras, levava a sua mente a imaginar contos e fábulas, lidos pelos seus pais à hora de dormir.
Não havia televisão, telemóveis, consolas de jogos ou tablets. Aquele pai natal, mesmo que cansado e parcialmente barrigudo, proporcionava-lhes uma diversão que anos mais tarde lhes chamariam: Nostalgia.

O poder mais forte que existe! Não há amor que se equipare, perfumes ou músicas que tenham a mesma força quando usadas sozinhas. A nostalgia, as nossas recordações de infância, são o ponto máximo do nosso amor, do nosso desejo, na futura educação aos nossos filhos, e o respeito pelos sentimentos e memórias dos outros.
As saudades de um tempo... em que o pouco valia tanto!

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Um dia...


Um dia, quando tiver filhos, quero ser assim...

domingo, 14 de setembro de 2014

Um dia quero contar-lhes as nossas histórias de amor...


Vi a tua face no espelho, de olhos distraídos na pia do lavatório, esfregando os dentes com a escova. Os lábios carnudos, onde tanta vez me perdi, cobriam-se da espuma que me fazia lembrar os restos na encosta da praia.
Uma brisa leve bateu nos teus cabelos e abriste os braços, sentindo a força no peito onde tanta vez adormeci. Quiseste voar. Levantar os pés do chão e despires de ti os medos que te prendiam a um planeta que não te compreendia. Olhas-te-me, sorridente. As pequenas ondas cobriam a areia, trepando pelas tuas pernas acima, tocando no teu vestido e na tua essência, como crianças que pedem colo.
De lábios selados, imitaste um beijo. Os olhos fecharam e um sorriso cresceu de novo no teu rosto. Mágico... nem o pôr do sol se comparava à tua presença naquela praia, iluminada de uma maneira que só acontecia uma vez em cada alinhamento celestial.

Aproximei-me, abraçando-te por trás. Um beijo doce no pescoço, uma caricia nas mãos e entrelacei os dedos nos teus. Saboreei a ponta da orelha e segredei ao teu ouvido:
-- Continuas incrível! -- trocámos olhares através do espelho e pousaste a tua mão na minha cara, sentindo a barba.
-- Amo-te!

Um dia quero cantar para os nossos filhos até adormecerem. Contar-lhes as nossas histórias de amor e as recordações que guardamos com tanta dedicação.

Não chores, pelo menos eu vou continuar à tua espera...

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Clepsidra I


A lua espreitava por entre os cortinados semi afastados entre si, esvoaçando com a brisa quente que fazia lá fora, aquecendo o ambiente do quarto perfumado de incenso. Ouvi a maçaneta da porta, e surgiste por trás dela com um sorriso e o cabelo quase seco depois do banho. Atiraste a toalha para cima da cama e caminhaste confiante até mim. Beijaste-me, enrolando os teus braços à volta do meu pescoço.
«Quero-te…» - sussurraste-me ao ouvido, molhando-o.

Sabíamos que se tratava de uma posse vertiginosa de nós. Querermo-nos em nada constituía Razão, era uma busca infindável daquilo que ultrapassa o mundo lá fora, que observava-mos atentamente. E perdíamo-nos como as luzes movimentadas dos carros e das estações de comboio sobrelotadas.
«Tens-me!» - pronunciei-te igualmente ao ouvido. Passando os lábios pelos teus cabelos cujo aroma se confundia com a fragrância ambiente do quarto. Estava escuro. A minha mente iluminava-se de ti. Nada mais somos do que aquilo que sentimos. Os meus dedos estremecem quando te sinto. Sou o estremecer de ti.
O homem do correio chegara e eu despia-te a pele, afogando-te em pétalas de beijos e abraços por toda a tua essência visível. Ignoramo-lo. Que interessavam as cartas? De que nos serviam as palavras quando nos marcávamos daquele modo tão clemente?
Senti que te escorria veneno por entre as tímidas pernas, enquanto te elevava contra a parede que te arrefecia delicadamente a coluna vertebral perplexa de prazer.

Olhavas-me nos olhos, controlando-me as mãos na parede, impedindo a satisfação do tacto. Beijavas o meu peito, sentindo-o na tua pele suave. Sorriste. Levaste a boca ao meu pescoço e mordeste-o de prazer. Um súbdito acorrentado às tuas garras provocantes que me provocavam numa intensa sedução física. Ajoelhaste vagarosamente, serpenteando o teu peito explícito, acelerando o meu coração. Sentiste-o bater forte e quente na mão, que me enregelou. Lambeste a ponta do gelado e devolveste de novo as minhas mãos à parede. Ergueu-se e caiu sobre a tua língua que o esperava.

O carteiro bateu de novo e vi a sua silhueta afastar-se da porta, espreitando a janela aberta. Não sei o que acreditou ter visto. A tua cabeça movia-se, lubrificando horizontalmente a peça importante do meu ser que te enchia de uma energia invisível potente e carente. Olhei para ti, e vi o azul do controlo penetrar-me. Imóvel, tentando partir as correntes em que me deixavas, ouvia a saliva e o ar sair-te da boca, imitando uma lambidela apressada a um gelado que se derretia nas tuas mãos agora quentes e confortáveis.

O estafeta afastou-se. Finalmente livre, beijei-te a boca, sentindo o sabor que resistia nos teus lábios. Troquei de posição contigo e de mãos no teu peito, acariciei a seda limpa pelo lago de onde surgiste. Beijei-te os seios, saltitando por eles até à barriga, segurando-te firme pelo rabo. Beijei-te o pescoço, acalmando os ciúmes ao irmão do lado oposto a quem dei um presente húmido. Rocei-te a barba na delicada tez de ti e agarraste-te a mim, marcando o momento com os vergões vermelhos da tua suplicia vibrante. Despi no teu peito, uma massagem que te aquecia para uma corrida a que já me havias deixado preparado. Dissequei o teu corpo com a ponta da minha língua e cozi o que restava dele com a ponta dos meus dedos frios que te arrepiavam o sensível paraíso que transformaria o santo que sou num diabo eloquente, incapaz de resistir ao doce carnal que escondias timidamente de mim.

Suspiros. Berrávamos o silêncio que ninguém podia escutar. O libido transportava-se exteriormente às paredes pacatas daquele canto. E o canto das aves apoiava-nos com uma força cobiçada. Deixei-a cair em rios de mim. Os rios levavam ao mar que eu tanto queria mergulhar e emergir nela como se lhe fosse os braços, as pernas e a camisa que agora lhe vestia delicadamente. Escrevíamos rosas e violetas em jarros de porcelana chinesas e as abandonadas camélias invejavam-nos. Adormecermo-nos era como despertar para a realidade que não nos queria felizes. O estremecer transformou-se na clepsidra que indesejavelmente tomava-nos em cada amanhecer da vida. Arcadas de beijos. Também te quero assim.

A respiração soprava ao meu ouvido, cansada. Deitada para mim, deixavas-te adormecer numa morte que nos unia no meio dos lençóis. A temperatura do teu corpo subia em cada pedaço de sonho que partilhavas com um toque brusco dos teus dedos no meu braço. O fogo do meu sangue, extinguia-se, esquecido por mim que te maravilhava a face de sorriso confortável. Ver-te adormecer no meu regaço, ao som mudo que se desligava em candeeiros, transportava-me em viagens cujo único destino seriam os teus braços. Fechei os olhos e adormeci, partilhando um sopro dessincronizado. Toquei-te levemente e ali me deixei ficar.

domingo, 1 de junho de 2014

Selei com um beijo...



Sentia a gravata apertar-me a camisa contra o pescoço e uma impressão digital, em forma de peso, nos meus lábios. No peito, o meu coração batia nervoso, recordando-me do sorriso gentil que me lançaste no dia em que te vi pela primeira vez, com o sol a iluminar-te a cara e a reflectir no teu corpo. Ainda me lembro das aventuras, dos sorrisos, das surpresas e dos presentes. Eras mágica! E fizeste-me teu príncipe, enfeitiçando-me a mente com a tua sedução, as tuas mordidelas, os olhares que me fazias à distância e as caretas que me animavam. Reconhecia-te na multidão, mesmo de costas, e abraçava-te sem nunca te perder de vista.
A melodia começava, devagarinho. Os pássaros cantavam e as flores acordavam. Estava na hora. Na porta de entrada vi uma rainha de branco. Sorrias para mim, nervosa, sem nunca perder o brilho contagiante que salpicavas por todos os que te viam desfilar levitando. Estavas magnifica! Elegante e com o mesmo balançar na anca que me deixava louco por ti. Estava entusiasmado e não via a hora de a festa acabar e te levar para o nosso paraíso, onde as águas cristalinas banhavam a praia que chamava por nós e o sol se acanhava um pouco para não nos queimar de amores.

Selei com um beijo nos teus lábios, a promessa que desejava cumprir desde o dia que te conheci. Fazer de ti minha esposa, de anel dourado que te abraçava a mim e me manteria junto de ti. Promessas que fazias com um simples olhar, um pequeno gesto entrelaçado nos meus dedos, uma caricia pela minha cara, a tua presença ao meu lado devorando um livro e sonhando com o futuro, vivendo o presente, com um descalçar dos sapatos à porta de casa e uma massagem nos pés num momento de carência e exigência. Bela! Graciosa! Provocante e deliciosa.

És a melhor prenda que o mundo alguma vez me deu.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Acordar ao teu lado...


Virou-se de novo na cama e levei com os cabelos na cara. Perfumados, gentis, como uma mão leve no meu rosto. Devagarinho, como um murmúrio, abracei-a repousando a minha mão na sua barriga e beijei o pescoço desprotegido. Riu-se. Encolheu os ombros com cócegas e virou-se para mim de sorriso meigo no rosto, uma mão entrelaçou-se debaixo dos cobertores e a outra afastou um cabelo do rosto com dois grandes olhos dorminhocos. Acordei-a. O sorriso acalmava-me, prendia-me à cama que se aquecia entre as cortinas afastadas, por um sol renascido, quente, vibrante e primaveril.
Com a pele exposta, recarregou as energias como um girassol e espreguiçou-se esticando os braços no ar. De barriga exposta, o umbigo redondinho tornou-se alvo de pequenos beijos, lambidelas e algumas cócegas que a fizeram decompor-se em gargalhadas contagiantes. Sentia-mos-nos crianças outra vez.
Os braços caíram sobre os meus ombros, enrolando-se à volta do meu pescoço como tentáculos de peluche e beijou-me a testa, o nariz, as bocejas, os lábios, o pescoço... devorou-me gulosamente. Os seus dedos dançaram sobre o meu rosto, enquanto as minhas mãos decoravam a sua face, criando uma imagem negra da sua cara perfeita. Tenho medo de quando perder a minha visão e deixar de ver a tua cara. Tenho medo quando perder a audição e deixar de ouvir a tua voz. Tenho medo de morrer e deixar para sempre de respirar ao teu lado, de rir, sorrir, beijar, amar-te, conhecer-te, proteger-te, tocar-te, sentir-te, assim como és, perto de mim.

Sabe tão bem acordar ao teu lado...