quinta-feira, 15 de maio de 2014

Tenho medo de trovoadas...

O sol iluminou de novo a cidade. Aos poucos, casais mascarados e enfeitados conquistavam as ruas com as cores dos seus fatos. Os turistas desciam até aos cafés, tomando um pequeno-almoço acompanhado de uma conversa breve, de uma boa paisagem e de um desfile nunca antes visto, que ganhava força e amplitude com o passar das horas.
Ana, uma menina de 6 anos, de cabelo loiro encaracolado nas pontas, com olhos grandes e azuis, corria por entre a multidão, de saias e máscaras personalizadas, à frente dos seus pais que a vigiavam de perto.
-- Ana! Não vás para longe! -- ordenou o Pai, vendo o sorriso maroto desafiar a ordem. Junto dela, parou um rapazito da mesma idade agarrando com algum imperialismo, uma pequena máscara branca com um sorriso enorme de bobo esculpido. Ana sorriu e sem esperar, foi surpreendida por um beijo.
-- Raquel! Olha... -- chamou o Pai, apontando para a sua filha, com o olhar. A sua mulher, que mexia nalgumas roupas na banca à sua frente, deslumbrou o primeiro beijo da sua mais pequena.
-- Ohhh tão queridos. -- emocionou-se.

Um trovão rasgou o ar, as ruas e o céu.
À medida que corria, sentia o alcatrão áspero debaixo dos pés, a irregularidade da calçada e um forte peso no peito, para além de uma ausência de consciência espacial. A sua mente estava em branco. Recordando-se, vezes sem conta, do barulho, das faíscas e da arma negra que pesava na mão daquele senhor mascarado. Nos ouvidos, levava o grito da sua mãe.


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Escrito a: 04-11-2013
Concluído a: 15-05-2014
Continua...?

3 comentários:

  1. Este pequeno texto merecia uma continuação. Merecia a exploração dos sentimentos da Ana.

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