sábado, 24 de maio de 2014

Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [11]



Senti o bater do coração nos meus dedos. Não era acelerado mas pujava de força, parando a cada olhar nos teus olhos. As veias sobressaiam da sua pele ornamento os braços com uma força que senti vibrar pelas pernas abaixo. Imaginei-as na minha cintura, levantando-me do chão sem esforço, rodopiando-me como a tua "mais-que-tudo".
-- Desculpe. -- pedi, afastando as minhas mãos. Os dedos deslizaram sobre a mesa e seguraste-me a mão com alguma força. Viras-te a palma para cima e passaste a tua mão sobre a minha, causando algumas cócegas que me arrepiaram a coluna.
-- Tem umas mãos muito suaves. -- disseste. Fechaste-a ligeiramente e pousas-te-a sobre a mesa onde senti o frio contorcer-me. -- Gosto de ter as minhas assim também. São uma parte importante do meu trabalho. -- respondeste com um sorriso, agitando os dedos como uma pequena brincadeira. Joana, suja de ketchup, olhou para as tuas grandes mãos, fortes e confiantes e sorrio também. Aproximaste as mãos da sua cara e ela encolheu-se, aceitando a brincadeira, soltando algumas gargalhadas inocentes e bonitas neste ar sujo e barulhento. Ela, feliz e agora eléctrica, atirou-te as mãozinhas assanhadas, sujas.
-- Joana! Tens as mãos todas sujas! -- gritei por dentro, falando-lhe calmamente, enquanto lhe limpava as mãos. Ficas-te a olhar para ela, um pouco triste por lhe estragar a diversão e não a deixar andar suja, mas uma mulher deve saber comportar-se. Ter maneiras à mesa e saber estar perante um cavalheiro. É meu desejo criá-la como a mãe, bonita, séria, confiante, decidida mas também provocadora. Coisas que virão com o tempo. Como nos costumam dizer: "Santa na rua e Puta na cama".

Eu não fodo com as minhas vítimas. Violo-as. Mas já agora, aproveito que te posso tocar, para te estudar melhor e conhecer os teus limites.
-- Tem um pescoço muito bonito. -- arrisquei. Depressa me confrontas-te de corpo e alma, criando uma barreira invisível à volta da tua filha. Limitaste-te a olhar-me desconfortável, movimentando os olhos de um lado para o outro com alguma preocupação estampada no rosto. -- E uns lábios muito sensuais. -- olhei-te sedutor. Toquei-te de novo a perna e senti o teu desconforto. Lancei a mão sobre a tua, tocando-lhe gentilmente. Senti todo o teu corpo tremer e um nó apertar-se na tua garganta. Procuras-te a Joana com um olhar aflito e retiraste a mão debaixo da minha. -- Peço imensa desculpa... -- pedi, fingindo reconhecer que te tinha deixo desconfortável. -- Eu não queria ser indelicado.
Baixinho, aproximaste-te de mim:
-- A minha filha está aqui, e não acho que sejam conversas que se tenham à sua frente. Aceito as suas desculpa, porque tem sido um cavalheiro.
Adorava ouvir a tua voz baixinha, como uma caricia de amor. Quem de longe te visse, acreditaria que estávamos a ter uma pequena discussão de casal. Essa probabilidade surgiu na minha cabeça, e excitou-me. Os gestos que fazias com as mãos, os dedos que me apontavas e a face que se transformava, excitavam-me. Estava desejoso por te deitar a mão e controlar essa ferocíssima galinha depenada.
-- Tem toda a razão. Mas a sua beleza e o seu corpo deixaram-me... -- sem conseguir acabar a frase, interrompeste-me.
-- Eu reconheço que hoje estou particularmente bem vestida e provocadora. Sou uma mulher que gosta de se vestir bem e de aparecer bem. Ou não fosse o meu trabalho relacionar-me com homens que apreciam boa carne com curvas. Mesmo assim, não acho apropriado comentar os meus lábios à frente da minha filha. Sei o que lhe vai na cabeça, e acredite... -- riste um pouco -- já me passou pela minha. -- fizeste uma breve pausa, sem tirar de mim o olhar -- Agradeço os seus elogios mas por favor, desse tipo, guarde-os para quando não tiver perto de nós.
Por baixo de toda essa imagem, via uma simples mulher "caseira", que de "puta na cama", só mesmo na cama dos outros homens, e de dama só nas posições monótonas que fazias. Não vejo o dia para te tirar à chapada esse nariz empinado e te enforcar a memória com o impensável.

Que carinha de anjo que a Joana tem...

Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [12]


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"That’s because you think about the perhaps five per cent, who actually hurt children. The remaining 95 per cent never live out their fantasies. Think about their suffering.
Sexuality is the strongest force in human beings. To be born with a forbidden sexuality must be agonizing. The paedophile, who manages to get through life with the shame of his desire while never acting on it, deserves a bloody medal." -- Joe in Nymphomaniac Vol II

sexta-feira, 23 de maio de 2014

O viajante solitário...


Hoje (22-05-2014), tive um sonho, que tinha tido quando era muito pequeno. Cerca de 4 a 5 nos de idade. No tempo em que ainda dormia no quarto gigante com os meus pais e o meu irmão, cada um num lado da cama. Lembro-me de dormir sempre o lado direito, para quem olhasse de frente para ela (cama), apesar de o meu pai me garantir que todos os dias trocávamos de cama. Segundo nos veio a dizer mais tarde: Conheceu um senhor que na altura em teve filhos, dormia também com cada um do lado da cama. Mas, com o tempo, foi-se apegando mais ao filho que dormia do lado dele do que dormia do lado da mãe. Como o meu pai não queria que isso lhe pudesse acontecer, trocava-nos; Daí a explicação para um acto que podiam achar "estranho".

O sonho em si, talvez não vos diga nada, mas como vejo as coisas de maneira diferente e tento examinar tudo o que me rodeia, vejo, ouço, digo, sonho, vou ter mesmo de pôr por escrito aquilo que vi e porque razão este sonho, há muito esquecido, me é tão... intrigante.
Poderia dizer que era só mais um dos sonhos recorrentes que todos temos ao longo das nossas vidas. O que é perfeitamente "normal", e há até quem estude isso, como é abordado no documentário "NOVA - What Are Dreams?". A primeira coisa que me surgiu à cabeça, foi um sentimento de déjà-vu. Eu próprio me apercebi de que reconhecia o sonho, aquele cenário e mais importante ainda, das emoções.
Bom, terei de dizer que segundo neurologistas, os déjà-vu são um erro do cérebro. Eu não acredito que o meu cérebro tenha erros ou construa falhas. A nossa capacidade de nos relembrar-mos de certas cenas e emoções, esta directamente ligada à memória e à previsão de eventos, o que é imperativamente importante para a nossa sobrevivência. Portanto, dizer o que cérebro tem falhas a esse ponto de déjà-vu, é para mim um erro.

O sonho transportava-me para o interior de uma nave oval branca, como uma espécie de bola de rugby, mas todo o interior estava vazio e o chão parecia feito de azulejos quadrados mais ou menos do tamanho do meu pé. Tinha algo como 14/16 anos, e conseguia ver o universo através de amplas janelas. Não sabia se a nave estava a andar, porque tudo lá fora parecia parado. Um sentimento de solidão abatia-se sobre mim. Estava sozinho. Não ouvia vozes, não existia mais ninguém. Não havia quartos, balcões de cozinha, mesas, comida. Apenas eu, dentro de uma nave ao qual não sabia o destino.
Numa idade em que nunca tinha visto filmes de guerras espaciais ou sobre o universo, apesar de o meu pai me falar disso e possivelmente ter visto alguma imagem na capa de um livro, não tinha o conceito de viajem no espaço ou sequer de uma nave, apesar de reconhecer que conhecia muito bem a sensação de abandono e solidão. Foi um sonho muito vivido na altura, apesar de não o compreender quando acordei. Hoje, quando voltei a sonhar com o mesmo, senti exactamente os mesmos sentimentos. Principalmente a de vazio. Sei que é difícil compreender, e ainda mais difícil é para mim explicá-lo, mas quer eu queria acreditar quer não, isto, não foi um sonho, mas uma memória de uma vida passada. Não, não sou uma reencarnação, mas este sonho é tão intenso, tão real, tão emocionalmente detalhado, que quando acordei, julguei tratar-se de uma memória verdadeira e não só de um sonho que tive quando era criança.

Este viajante solitário, numa nave desprovida de ornamentos, relembrava-me o filme "2001 Odisseia no Espaço", baseado num livro com o mesmo nome, escrito por Arthur C. Clarke. Um filme que viria, muito pouco, já depois dos meus 14/16 anos, e finalmente aos 22 em mais detalhe. Percebi hoje mais tarde, de uma possível explicação para o sonho. Este viajante nunca poderia ser um organismo orgânico, porque não havia comida na nave, e muito facilmente sucumbiria à paranóia do silêncio e da inexistência de contacto físico, tão característico e necessário nos animais. Seria um robô. Uma supra-inteligência que vagueava pelo espaço, de estrela em estrela, de planeta em planeta, à espera do Big-Crunch. Seria um viajante, construído à milhões de anos por uma espécie já extinta. Um viajante sobrevivente a alguns Big-Crunchs, e que existia com um único propósito: Repopular os planetas. Talvez dê um livro, e posso dizer que já o ando a escrever à algum tempo, mesmo antes de ter este sonho. Foi uma inspiração, não haja dúvida, mas também um momento muito estranho para o meu cérebro, para a minha personalidade e percepção daquilo que é a realidade, as memórias e os sonhos.


Um aparte:
Sonhos são uma outra dimensão "física". Quase como um "13º Andar".
Ou serão histórias criadas por nós, para ocultar o que realmente se fez do outro lado?
Outra teoria é a de que nos sonhos, todos nos juntamos.
Serão memórias de vidas passadas?
Talvez também uma maneira de manter o relógio biológico actualizado?

Fui capaz de dissecar o sentido emocional e psicológico de dois sonhos, e todos tinham uma razão. Todos me fizeram re-viver emoções ou aprendizagem, como acontece no dia-a-dia. Cada conversa, cada expressão, cada cena e cenário tinham uma razão psicológica de ser. Como já o disse: mostravam-me coisas que já tinha vivido, visto, ouvido, e situações de interacção humana.
Acredito que sirvam para nos ajudar a continuar a evoluir, errar e aprender. Servirão também para nos ajudar a compreender melhor um problema, visto que o nosso cérebro está mais imaginativo e mais activo durante os sonhos.
Não estamos a dormir, estamos a evoluir.
É também uma forma de treinarmos as nossas capacidades para lidar com situações de stress, violência, vergonha, saudade e felicidade. E podemos revivê-lo várias vezes, sem nunca morrer realmente.

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quinta-feira, 22 de maio de 2014

Silêncio...



Sentia-se o calor da terra e o chão calmo ser varrido por uma leve brisa. As estrelas caiam com o sol e a escuridão enchia o céu, levantando quem de noite não dorme.
Silêncio. Como uma doença profunda e um sono pesado. O som do mundo cessava, permanecendo melancólico, murmurando aos seres uma melodia harmoniosa, leve ao ouvido, maternal ao toque, reconfortando o pêlo e aquecendo o sangue. A natureza fechou os olhos e adormeceu. Ouvia-se o uivo do vento atravessar a terra como um cobertor, uma nota orgânica, que imitava o som do coração.

Silêncio. Tum-Tum. Tum-Tum. O vento parou, o sol desapareceu e tudo morreu, sem gritos ou rugidos. Sem fugas ou esconderijos. As flores perdiam a cor, as pedras o cheiro. Criava-se, alma a alma, um oceano azul infinito, límpido, calmo, que embalava os sentimentos num corpo sem sentidos. Não havia choros, medos ou tristezas, apenas uma paisagem decorada, bela. Uma musa desceu dos céus, pairando sobre um animal. Não haviam palavras a dizer, ou cânticos de embalar. Uma estrela cadente riscou o universo e a musa olhou-a. Deitando-se sobre a relva, contemplou o tenebroso estrondo que se espalhava invisível até onde a vista alcançava.

Silêncio.
Tum-Tum. Tum-Tum.
Os vulcões explodiram e o chão tremeu.
Despertava assim a vida.

Aqui, onde a terra se acaba e o mar começa...

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terça-feira, 20 de maio de 2014

Tenho medo de trovoadas... [2]


Na varanda, vi a noite queimar o céu como fogo, silenciando devagar o mundo. O vento soprou as folhas do chão e as gotas caíram sobre o meu corpo curvado, fechado sobre os joelhos que segurava num abraço apertado. O vestido tornou-se gelado, pesado, proporcionando-me um momento de melancolia profunda, sentindo-me vazia e sem vida. Estava sozinha, baloiçando no confortável silêncio do universo, perpetuando a fadiga depressiva numa espiral eloquente que me roubava as forças e a mente.
Uma faísca percorreu o horizonte, subindo aos céus numa fuga desajeitada de curvas, tentando escapar aos horrores deste mundo. O meu coração parou, os olhos iluminaram-se e a pele sentiu a força do impulso longínquo. Encolhi-me, segurando fortemente no pouco que restava de mim, para que não fugisse também. E antes que fosse capaz de absorver o susto, uma melodia tenebrosa caiu, intensificando o seu tom de voz aos meus ouvidos, a força das suas mãos sobre o meu vestido e odor em redor dos meus cabelos. Tapei os ouvidos com as minhas mãos geladas, sentindo na cara, as vergas que o vento criava a partir de madeixas do meu cabelo. Chorei. Por medo. Por abandono.
Senti o calor na cara e olhei para a fonte. O pôr do sol surgia brevemente no horizonte e esperei. Esperei que o calor daquele momento único me maravilhasse a mente defunta, e observei, atónita, o arco quente de cor intensa, desaparecer no fim-do-mundo como uma gota que escorre através da pétala longa de uma flor e cai. Morta e inanimada.

Não existe vida, porque eu não a desejo.
-- Todos querem viver.
Mesmo no fundo do poço?

O Universo ainda não explodiu.

Tenho medo de trovoadas... [3]

domingo, 18 de maio de 2014

Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [10]



A tua voz mudou e o olhar tornou-se mais sedutor. A minha perna tocar, tornara-se num dos meus acidentes favoritos. Poder tocar-te finalmente, cravou com força em mim, o desejo de te possuir naquele momento, no meio de um bosque abandonado e iluminado apenas pela luz do Luar. E quando a Lua desse lugar às estrelas, sentir a vida sair-te do corpo ao mesmo tempo que atingia o clímax. A corda que trago no carro, há muito tempo que não sente a pele de uma mulher. Está sedenta de sangue e desejosa para criar a marca fúnebre no teu pescoço sedutora-mente escondido por detrás desses longos cabelos loiros.

Era incrível a sensação de ser observada com tanta atenção pelo teu olhar masculino. Conseguia sentir-me dominada pela tua simples postura e maneira como seguravas no copo da coca-cola. Voltas-te a tocar-me na perna e sei jeito, tentei disfarçar um sorriso colocando uma madeixa de cabelo por trás da orelha enquanto ajeitava a gola do vestido da Joana.

As tua mãos dançavam sobre a pequenita, que permanecia distraída de toda esta cena incrivelmente perturbadora e aliciante. Não costumo brincar com as coisas de fodo... muito menos sentar-me na mesma mesa que elas. Vais ser a minha morte.
Olhaste-me de novo, com um sorriso controlado e a face rosada. Anseio o momento em que te tire as expressões dessa cara de anjo. Comeste e bebeste mais um pouco, apenas para disfarçar uma fome que já não existia à mais de dez minutos e preparaste-te para dizer algo; Mas antes que dissesses alguma coisa, fui distraído pelo som de sapatos altos de uma segunda mulher que parecia dirigir-se a mim, confiante e com um ligeiro decote. O teu olhar trespassou as pessoas, descamuflando daquele ambiente caótico e barulhento uma mulher decidida. Isto vai ser interessante...

O som do seu caminhar aproximava-se num compasso metódico, como o tic-tac de um relógio antigo da casa dos meus avós que sempre odiei desde pequena. Aquele som oco entrava-me pelos ouvidos debaixo da almofada, enquanto tentava dormir ou descansar. A raiva cresceu no meu peito.
Estando eu no meu período fértil, o meu cérebro disparou uma reacção violenta por todo o meu corpo, espalhando pelo ar hormonas de aviso a outras Fêmeas. Este macho alpha, incrivelmente perfeito para gerar rebentos bonitos e saudáveis, seria só meu. Agarrei-lhe imediatamente na mão que poisava na mesa fria e recebi o seu olhar surpreso. Este macho, rapidamente controlado depois de me apertar confortavelmente a mão e sorrir, caíra na minha teia de sedução. A competição reparou no toque íntimo que dava ao meu suposto marido e continuou a caminhada de ombros caídos.
-- Você tem umas mãos muito bonitas! Adoro ver homens com as unhas limpas. -- disse, fitando os olhos da víbora que passava por trás deste homem encantador.

Hoje vai ser a minha noite de sorte!

Adoro ouvir-te, ver-te e cheirar-te... [11]

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Tenho medo de trovoadas...

O sol iluminou de novo a cidade. Aos poucos, casais mascarados e enfeitados conquistavam as ruas com as cores dos seus fatos. Os turistas desciam até aos cafés, tomando um pequeno-almoço acompanhado de uma conversa breve, de uma boa paisagem e de um desfile nunca antes visto, que ganhava força e amplitude com o passar das horas.
Ana, uma menina de 6 anos, de cabelo loiro encaracolado nas pontas, com olhos grandes e azuis, corria por entre a multidão, de saias e máscaras personalizadas, à frente dos seus pais que a vigiavam de perto.
-- Ana! Não vás para longe! -- ordenou o Pai, vendo o sorriso maroto desafiar a ordem. Junto dela, parou um rapazito da mesma idade agarrando com algum imperialismo, uma pequena máscara branca com um sorriso enorme de bobo esculpido. Ana sorriu e sem esperar, foi surpreendida por um beijo.
-- Raquel! Olha... -- chamou o Pai, apontando para a sua filha, com o olhar. A sua mulher, que mexia nalgumas roupas na banca à sua frente, deslumbrou o primeiro beijo da sua mais pequena.
-- Ohhh tão queridos. -- emocionou-se.

Um trovão rasgou o ar, as ruas e o céu.
À medida que corria, sentia o alcatrão áspero debaixo dos pés, a irregularidade da calçada e um forte peso no peito, para além de uma ausência de consciência espacial. A sua mente estava em branco. Recordando-se, vezes sem conta, do barulho, das faíscas e da arma negra que pesava na mão daquele senhor mascarado. Nos ouvidos, levava o grito da sua mãe.


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Escrito a: 04-11-2013
Concluído a: 15-05-2014
Continua...?

terça-feira, 13 de maio de 2014

Não são sonhos...


Os horrores que dizes sonhar, que dizes ver e imaginar durante a noite, não são imaginações ou fantasias que desconheces a origem. Não foi um sonho, foi uma experiência que viveste. Estiveste lá. Foste a personagem principal e sentiste no teu cérebro todos os arrepios do corpo. Sentes a tristeza, a saudade, o ciúme, a ansiedade e o medo. Não são apenas sonhos, são memórias do teu outro eu, perdido algures noutro universo. Não são previsões, são o passado de um eu que não recordas. Que não te faz mas que se torna e vai tornando, na fantasia irrealista da vida que levas de olhos abertos. Aquilo que és não existe nesta escuridão que te surge de olhos fechados. Não cresce, mas morre, perseguido e afogado, medroso e ranhoso, fugitivo para sempre do teu próprio Eu, que não sabes ouvir ou ver. É de ti quem foges quando te perseguem.

Não são invenções "estranhas" na tua cabeça. São emoções e recordações do monstro horrendo que foste antes de fechar os olhos, e na personagem dos sonhos dos outros cada vez que os abres. Não existes verdadeiramente, até sentires na garganta o sopro da vida e o medo em forma de adrenalina acordar o teu corpo do sono profundo, que muito lentamente, deixaste substituir a realidade ilusória. É uma falsa ideia que te cresce na mente, e não a criação de liberdade. Não são teus, porque nunca foste verdadeiramente deles.

Encontrei beleza na escuridão...