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segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Sê diferente, mas consciente...



Após a tua morte deixarás o que trouxeste no teu nascimento.
Perante o teu fim irás perceber que o valor da vida não existe. Que não somos nada. Um universo sem humanos seria a mesma coisa. Na mesma belo, na mesma magnífico e incrivelmente fascinante.
Mas se estás aqui, por vontade ou não, encontra um buraco, escava um e faz dele o TEU buraco.

Ainda te lembras de quanto tempo demoraste a aprender a gatinhar? A andar? A distinguir cores? Objectos? Ou quanto tempo precisaste para atar pela primeira vez os sapatos? A escrever as letras ou o abecedário?
Talvez não te lembres, mas todos os dias foram uma luta. Todos os anos te sentias mais alto e mais capaz. Os livros e os filmes, com o tempo, começaram a ter uma história mais interessante com ideias que nunca tinhas percebido.

Por isso chora, esconde-te, grita, mas não tenhas medo, não desistas, estás a crescer. E se errares!? Se errares, aprende com eles. Re-escreve-te.
És um animal magnífico, acredites quer não. Adopta um cão ou um gato. Perceberás mais tarde, que a domesticação foi o melhor que a nossa espécie alguma vez conseguiu alcançar sem tecnologia.

Quando te voltares a sentir triste, pega num livro de receitas de doces e faz um bolo. Se correr mal, faz de novo. Lembra-te: é através das experiências que crescemos! Demoraste anos a aprender a atar os teus próprios sapatos, por isso dá-te um desconto. Estás a aprender, a crescer!

"Se caíres sete vezes, levanta-te oito."

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Se este texto te ajudar, deixa umas palavras, também eu preciso de saber que faço falta neste mundo...

sábado, 23 de agosto de 2014

A centelha da evolução...


Com o punho fechado sobre um osso, atacou o chão, quebrando-o sobre umas pedras. A força do impacto vibrou-lhe pulso acima, contaminando todo o braço como uma fraqueza. A brisa quente bateu-lhe no pêlo com mais força e o Sol escondido pelas nuvens atacou-o fulminantemente nas suas costas. Olhou para trás, desconfortável, bloqueando a luz com a sua mão e viu pairar à sua frente, uma montanha colossal que se rodeava de pequenos reflexos à medida que girava devagar e descia com fogos ardentes na sua base, sobre o solo verde e fresco. O chão tremeu, agitando o animal que se agarrava ao osso com a vida, com o ar que lhe faltava nos pulmões, com o medo da terra debaixo dos pés que não podia controlar... gritou e esbracejou, tentando afastar tamanho monstro, ao mesmo tempo que tentava ganhar coragem para se manter no local, agora coberto por um nuvem de pó.

A presença daquele objecto gigantesco, desconhecido à vista dos olhos ainda em evolução, parecia adormecer, num som gutural leve, continuo, como uma buzina, permanecendo nos ouvidos daquele animal ainda apavorado. Sem esperar, foi atingido no peito por uma nota ligeiramente mais aguda, seguido-se outra e outra, construindo uma melodia desconhecida. Um som pouco elaborado, fácil de ouvir, como uma canção de embalar. De repente, um grito estridente. Não, não era um grito, era uma criança a rir. Seguiram-se outras, formando um aglomerado de felicidade, criando na mente do humano actual, a imagem de dezenas de crianças a brincar no recinto de um infantário. Gradualmente, os risos silenciaram-se, seguindo-se uma ausência profunda de sons. O animal bufou, balançando os ombros sem sair do sítio.

Je t'aime!

Ouviu-se, suave, delicada e feminina. O animal endireitou o tronco, puxou os ombros para trás e olhou de frente a bola de luz que lhe surgia, pairando no ar, dirigindo-se a si. Assustou-se.
Por entre o brilho, apareceu um corpo pálido, caminhando sobre as duas pernas. Uma fêmea, alta, loira, de olhos grandes e azuis com um sorriso ligeiro no rosto. Nua.
O anjo luminoso susteve a marcha à frente do símio, e este a respiração, observando hipnoticamente aquela mulher que se erguia acima da sua cabeça, desprovida de pêlos e de garras, trazendo um perfume convidativo junto ao seu órgão genital, que se rodeava de uma pequena pelugem.
Outra voz surgiu por trás daquela figura misteriosa:

My love, my beautiful creature...

Abriu a mão, deixando o osso escorregar-lhe pelos dedos e aceitou a da fêmea. O caminhar do animal tornou-se mais estável e forte, à medida que se afastava da árvore que lhe dera abrigo e se aproximava da bola de luz. Esticou o braço e o um dedo. Encolheu-se receoso, olhou a fêmea com um sorriso na cara e os olhos dele brilharam. Tocou então a bola de luz e uma calma percorreu-lhe os músculos. Não estava com sono, mas sentia-se calmo, como uma epifania que não sabia compreender.

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Não estava para publicar este texto, mas aqui fica uma experiência...

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Tenho medo de trovoadas... [3]



-- Ana? Vem para dentro! -- ordenou a minha mãe. Os trovões caiam, enquanto a mãe subia os degraus e caminhava até ao meu quarto. Apesar de todo o horror que testemunhava sentada naquela varanda, permanecia ali, numa tentativa de combater os meus medos.
-- Ana. Anda para dentro, estás encharcada! -- pediu ela encostada à entrada do quarto. Olhei para ela. Trazia um avental vestido, e um olhar triste. Entrou, sentou-se ao fundo na cama e deixou-se ficar a olhar para mim, sentindo na cara o vento forte e o frio das gotas da chuva. Não me disse mais nada. Não mexeu a boca nem fez qualquer gesto. Senti o seu corpo entristecer-se a cada raio que lhe iluminava a pele.
Levantei-me, corri a porta e permaneci de pé, pingando o medo que ainda transpirava. Seguiram-se explosões atrás de explosões, criando uma luz tão intensa que iluminava o meu quarto e me fazia o peito parar de respirar. Todo o meu corpo tremia involuntariamente e levei novamente as mãos às orelhas. Fechei com força os olhos e senti alguma coisa apertar-me. Chorei e encolhi-me. Não havia espelhos no quarto para verem aquele momento tão raro de afecto de mãe para filha. E eu... esperava muito mais do seu corpo, do seu abraço. Mais calor e menos choro. Mais força e menos soluçar. Esperava dela outra textura, mas tudo o que podia sentir sobe a minha frágil pele, era o chão liso do meu quarto onde passava os meus dias.
O tiro surgiu de novo nos meus ouvidos e fugi para um canto, destruindo o único momento de afecto que possibilitei à minha mãe ao fim de tantos anos.
-- Mãe! Tenho medo! -- gritei-lhe com o pânico no rosto.

Não é da solidão que tens medo, é de ti!

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Silêncio...



Sentia-se o calor da terra e o chão calmo ser varrido por uma leve brisa. As estrelas caiam com o sol e a escuridão enchia o céu, levantando quem de noite não dorme.
Silêncio. Como uma doença profunda e um sono pesado. O som do mundo cessava, permanecendo melancólico, murmurando aos seres uma melodia harmoniosa, leve ao ouvido, maternal ao toque, reconfortando o pêlo e aquecendo o sangue. A natureza fechou os olhos e adormeceu. Ouvia-se o uivo do vento atravessar a terra como um cobertor, uma nota orgânica, que imitava o som do coração.

Silêncio. Tum-Tum. Tum-Tum. O vento parou, o sol desapareceu e tudo morreu, sem gritos ou rugidos. Sem fugas ou esconderijos. As flores perdiam a cor, as pedras o cheiro. Criava-se, alma a alma, um oceano azul infinito, límpido, calmo, que embalava os sentimentos num corpo sem sentidos. Não havia choros, medos ou tristezas, apenas uma paisagem decorada, bela. Uma musa desceu dos céus, pairando sobre um animal. Não haviam palavras a dizer, ou cânticos de embalar. Uma estrela cadente riscou o universo e a musa olhou-a. Deitando-se sobre a relva, contemplou o tenebroso estrondo que se espalhava invisível até onde a vista alcançava.

Silêncio.
Tum-Tum. Tum-Tum.
Os vulcões explodiram e o chão tremeu.
Despertava assim a vida.

Aqui, onde a terra se acaba e o mar começa...

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terça-feira, 20 de maio de 2014

Tenho medo de trovoadas... [2]


Na varanda, vi a noite queimar o céu como fogo, silenciando devagar o mundo. O vento soprou as folhas do chão e as gotas caíram sobre o meu corpo curvado, fechado sobre os joelhos que segurava num abraço apertado. O vestido tornou-se gelado, pesado, proporcionando-me um momento de melancolia profunda, sentindo-me vazia e sem vida. Estava sozinha, baloiçando no confortável silêncio do universo, perpetuando a fadiga depressiva numa espiral eloquente que me roubava as forças e a mente.
Uma faísca percorreu o horizonte, subindo aos céus numa fuga desajeitada de curvas, tentando escapar aos horrores deste mundo. O meu coração parou, os olhos iluminaram-se e a pele sentiu a força do impulso longínquo. Encolhi-me, segurando fortemente no pouco que restava de mim, para que não fugisse também. E antes que fosse capaz de absorver o susto, uma melodia tenebrosa caiu, intensificando o seu tom de voz aos meus ouvidos, a força das suas mãos sobre o meu vestido e odor em redor dos meus cabelos. Tapei os ouvidos com as minhas mãos geladas, sentindo na cara, as vergas que o vento criava a partir de madeixas do meu cabelo. Chorei. Por medo. Por abandono.
Senti o calor na cara e olhei para a fonte. O pôr do sol surgia brevemente no horizonte e esperei. Esperei que o calor daquele momento único me maravilhasse a mente defunta, e observei, atónita, o arco quente de cor intensa, desaparecer no fim-do-mundo como uma gota que escorre através da pétala longa de uma flor e cai. Morta e inanimada.

Não existe vida, porque eu não a desejo.
-- Todos querem viver.
Mesmo no fundo do poço?

O Universo ainda não explodiu.

Tenho medo de trovoadas... [3]

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Tenho medo de trovoadas...

O sol iluminou de novo a cidade. Aos poucos, casais mascarados e enfeitados conquistavam as ruas com as cores dos seus fatos. Os turistas desciam até aos cafés, tomando um pequeno-almoço acompanhado de uma conversa breve, de uma boa paisagem e de um desfile nunca antes visto, que ganhava força e amplitude com o passar das horas.
Ana, uma menina de 6 anos, de cabelo loiro encaracolado nas pontas, com olhos grandes e azuis, corria por entre a multidão, de saias e máscaras personalizadas, à frente dos seus pais que a vigiavam de perto.
-- Ana! Não vás para longe! -- ordenou o Pai, vendo o sorriso maroto desafiar a ordem. Junto dela, parou um rapazito da mesma idade agarrando com algum imperialismo, uma pequena máscara branca com um sorriso enorme de bobo esculpido. Ana sorriu e sem esperar, foi surpreendida por um beijo.
-- Raquel! Olha... -- chamou o Pai, apontando para a sua filha, com o olhar. A sua mulher, que mexia nalgumas roupas na banca à sua frente, deslumbrou o primeiro beijo da sua mais pequena.
-- Ohhh tão queridos. -- emocionou-se.

Um trovão rasgou o ar, as ruas e o céu.
À medida que corria, sentia o alcatrão áspero debaixo dos pés, a irregularidade da calçada e um forte peso no peito, para além de uma ausência de consciência espacial. A sua mente estava em branco. Recordando-se, vezes sem conta, do barulho, das faíscas e da arma negra que pesava na mão daquele senhor mascarado. Nos ouvidos, levava o grito da sua mãe.


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Escrito a: 04-11-2013
Concluído a: 15-05-2014
Continua...?

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O importante, é descobrires que o podes fazer...



Nós aguentamos estas coisas difíceis, porque existe gente que não o consegue. É preferível que nos aconteçam a nós do que a alguém que não consegue nem sabe lidar com a situação. E é tão fácil a nossa mente criar pensamentos depressivos, negativos ou até mesmo a ideia de suicídio.
O grande problema porém, é esquecermos-nos de nós, de por vezes sermos incapazes de nos tirarmos da equação, deixarmos de ser o centro e passarmos a ser a periferia do problema, ou apenas uma variável. E se o problema às vezes é tornarmos-nos "egoístas" e acharmos-nos a culpa de um problema ou a incapacidade de agir, outras vezes também nos esquecemos de nós, dos nossos sentimentos, memórias, ideias e opiniões, que também têm valor. Ainda que possa não ter valor para o resto do mundo, tem para nós, e isso ajuda a desenvolvermos-nos e a conhecermos-nos. Porque nenhum problema é realmente horrível ou inteiramente culpa nossa.

Por vezes, mais frequentemente do que julgas, esquecemos-nos de nos perdoar, de nos acariciar, louvar e mimar. Mas estas atitudes "egocêntricas", não simbolizam a fragilidade e a necessidade de atenção, mas sim um meio de nos agradecermos, de nos abraçarmos e levantarmos uma auto-estima que não existe de todo no mundo animal. Um animal não desiste de viver só porque perdeu a manada, ele acredita que um dia voltará a encontrá-los e só tem de se manter vivo. Um animal não desiste de viver, fica apenas triste. Os neurónios espelhos ajudam-nos a aprender com os erros dos outros, a sentir a dor dos outros, sem nunca sentir verdadeiramente, ou a dar o valor que estas experiências devem realmente ter. Ajudam-nos a crescer sem nunca sentir aquilo que vemos, na pele. É um corta mato que nos trouxe até hoje, que nos ajudou a sobreviver. É um "boca-a-boca" transformado em imagem.
Esquecemos-nos de agradecer aos nossos pés, com uma massagem, o esforço tremendo a que os colocamos todos os dias. O auto-agradecimento, não é uma fraqueza espiritual ou psicológica. Não é  um desvio ou uma necessidade, é o centro emocional daquilo que nos torna humanos, aquilo que nos molda e inspira. Porque um beijo não é mais do que uma inspiração exterior, assim como o abraço ou nadar. Precisamos de nos perder de nós próprios, de deixar os nossos EUs passear sozinhos, de soltá-los das amarras, das máscaras, dos medos e indecisões. E quando os deixamos ir, precisamos de os encontrar de novo, de os incentivar a voltar, de cantar para eles, e fazê-los apaixonarem-se de novo pela pessoa que muitas vezes não conhecem.

Não preciso de experimentar uma praxe, para dizer não.
Não preciso de comer carne de cão, para dizer não.
Não preciso de violar uma criança, para dizer não.
Porque eu vi ou vivi o suficiente para me consciencializar, para me decidir e formar a minha própria opinião. Ainda que às "vezes", se deva experimentar algo antes de dizer que não, não significa que tenha de passar por algo ou fazer alguma coisa só para me autorizar depois disso, a ter e formar uma opinião. Porque se todos tivéssemos de fazer tudo de novo, de errar onde os outros erraram, de errar onde os nossos pais, amigos e familiares erraram, a palavra evolução não faria sentido. Não faria sentido porque nunca existiria. Aconteceria connosco o que acontece hoje com muitas espécies que existem neste planeta. A única coisa com o qual os animais podem contar é a sua própria memória. Mas a memória só é construída através das experiências. Experiências que foram vividas pelos próprios, como acontece com todas as tartarugas, ursos e leões depois de abandonarem a progenitora.

Nós não somos fracos por errarmos. Não somos horríveis por cometer erros estúpidos ou inconscientes. Somos animais que têm sorte em não viver na selva. Se vivêssemos, mais de 90% de nós estaria com a cara e o corpo cheio de cicatrizes causadas pelos erros que criámos durante a nossa vida. Provavelmente mais de metade de nós não existiria hoje e muito menos sobreviveria à adolescência.
Se sou incapaz de olhar para mim, de me perdoar e agradecer, de me colocar ou tirar da equação de um problema que me corrói, me causa angustia e não me deixa dormir, aquilo em que me torno, é numa pessoa incapaz. Incapaz de criar auto-empatia, auto-felicidade, de me valorizar. E eu tenho valor, tenho voz, tenho-me porque sou. E quem poderei abraçar ou ouvir quando um dia me perder no mundo, no meio da montanha? Se nunca me consciencializar de quem sou e me perdoar, continuarei a fazer parte do rebanho que me guia sem noção de que o sou. Deixo que as minhas opiniões sejam construídas pelos outros e pregadas pelos mesmos, só porque me soam bem ao ouvido ou se conjugam com o caminho que me fazem seguir.

Às vezes, temos de nos afastar para ver a pintura completa. Para observar as várias cores que o compõem, os traços, o plano de fundo, a cena principal, os detalhes e os adereços. Estudar o que se apresenta à nossa frente, não como um grave problema, mas como a oportunidade de aprender, uma vez mais, a derrubar o muro ou passar por cima da árvore tombada. No infinito do universo, os nossos problemas são insignificantes, apesar de terem o seu valor e pressão pessoal/social.
Se não soubermos aprender e crescer com o nosso choro, fracasso, depressão e tristeza, de nada nos adianta perdoarmos-nos. De nada adianta atirar para trás das costas o que nos custa tanto enfrentar. Se não quisermos pensar mais no que nos magoa, incomoda ou odiamos, de nada adianta ser-se e viver. Porque da mesma maneira que precisamos de enfrentar os nossos medos para nos levarmos mais longe, também precisamos de nos ouvir ou de exteriorizar com um ouvido que não ouça apenas, mas que se faça também acompanhar de um cérebro analítico, de uma consciência que decomponha o espinho na realidade estupidamente simples que é.

A minha ultima relação foi difícil. Ela decidiu atirar tudo para trás das costas e esquecer que existimos. Eu aceitei chorar, "passar pelo luto" e autorizar-me a perder-me de mim mesmo, de me esquecer e vaguear como uma sombra, silenciosa. E enquanto ela vivia, no seu mundo já muito melhor, eu regurgitava e recordava todos os momentos, todas as conversas, todos os gestos e carinhos. Percebi um dia, de que toda a culpa que carregava nos ombros desde a separação, não era minha. Que nem sequer era culpa, eram ideias que criara à minha volta, imagens e memórias falsas que denegriam a minha auto-imagem, o meu EU. Aquilo que tinha sentido durante tantos meses, não era culpa, era a minha incompreensão, a minha falta de decomposição dos problemas que achava serem problemas meus, quando nunca o foram. Porque uma erecção durante um beijo e um abraço não eram sinónimo de querer sexo. Pornografia nunca foi uma traição e mentir-lhe vezes sem conta de que não via, demonstravam a insegurança dela por perguntar tanta vez. Era a desconfiança dela e o fraco amor que sentia e tinha por mim. Eram jogos psicológicos e os ciumes obsessivos. Foram as quase proibições de não olhar para as outras raparigas ou sequer para as suas roupas. As tristezas acumularam-se como feridas que um dia voltariam para me atormentar, julgar e criticar. O problema, nunca fui eu, foi ela. Mas um problema mais grave, teria sido aquele momento em que chorar e deprimir-me teria sido apenas uma fase "má" da minha vida e não a CHAVE de toda uma descoberta e re-descoberta de mim próprio, do meu ser, do meu EU, do meu amor e da minha paixão.
Se ela atirou toda a "tristeza" para trás das costas e esqueceu tudo aquilo que "criámos", eu saltei o tronco, subi o muro e deixei para traz o Jardim do Éden que é acarinhado incompreensivelmente e sem fazer muitas perguntas pela grande esmagadora maioria da população neste planeta.

O difícil não foi sofrer, foi puxar-me de novo para fora do poço. Foi o aperceber-me de que se não tivesse chorado por mim e sentado a ouvir-me, teria acreditado para sempre, que tudo tinha sido culpa minha, que era um porco e um merdas. O fácil e gratificante, agradecer aos amigos vezes e vezes sem contas; Foi perdoar-me, abraçar-me e reconhecer que dentro de mim, existe um EU que nunca me abandonou e me ajudou a crescer. Um dia quando eu partir, quero ser o atalho.

O importante não é só ouvires-te, é descobrires que o podes fazer.
Às vezes estamos a errar e nem nos damos conta.

Basta subires para uma cadeira e rapidamente te lembrarás daquilo que procuravas...

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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Quando olhares para trás...


Sou um figurino na história da tua vida. Um adereço que serve simplesmente para entreter os olhos enquanto não desvias o olhar da estrada que segues religiosamente, acreditando que te irá levar ao futuro que programaste meticulosamente durante toda a tua adolescência. Quando olhares para trás, irás deparar-te com uma estrada rodeada por um deserto de nada; e vais-te perguntar para onde foram as flores, a relva, os arbustos, as árvores, os animais e as pessoas que criavam o plano de fundo da tua vida "perfeita".
Quando olhares para trás... já não existes, deixas-te de fazer parte deste mundo. Foste apenas uma recordação egocêntrica, que sem nunca olhar para trás, se desviou da estrada, sem perceber que um dia, seria deixada para trás na emaranhada floresta de fantasias.

No fim, só te terás a ti como a única recordação. Uma recordação que sorri e chora sem saberes; Que se encolhe e agita numa depressão ou numa festa que não controlas. E é então que ao pedires ajuda, tu gritas e soltas do peito a solidão da tua alma aprisionada, sozinha na frieza da tua pessoa, das tuas manhas e tramas. Fazes das tuas histórias um livro, na esperança que te abracem e te digam o que tu própria te tornas incapaz de dizer: "-- És perfeita! És especial! Tenho orgulho em ti! Fazes-me feliz...".
Serras os punhos, os dentes e baixas a cabeça, numa frustração humilhante de viver contigo mesma, sabendo que não podes fugir dela nem voltar para trás. As costas curvam-se numa dor que te aperta o peito e os lençóis arranham-te o corpo. Sentes as paredes conspirar contra ti e o teu cabelo tentar sufocar-te num calor que o teu corpo é capaz de produzir para aquecer duas pessoas. Não és uma delas. Tu queres morrer, desaparecer, voltar à estrada e ser atropelada. Deixada à fome de um carinho na tua cara, de um beijo carinhoso na tua bochecha e de um abraço que te tire o sopro da inocência.
Os suspiros propagam-se, chorando ranhosos pelas paredes do teu EU que teima em continuar a lutar por uma vida que já não te traz alegria. O teu cérebro abandonou-te... proibindo-te de te expressares e de te atraíres. O teu corpo tem inveja... Inveja do mundo que te pode ver, que te pode cheirar e tocar. Tem inveja do que não pode ter e esse ter és tu! O teu Eu que o abandonou na escuridão. O teu Eu egocêntrico viciado numa construção fantasiada por uma menina influenciada no mundo que a julga e a ensina a ser e a tornar-se.

Tenho saudades tuas... do teu sorriso e do teu abraço. Das gargalhadas e das noites abraçados. Da tristeza do teu olhar, dos teus olhos olharem os meus. Dos teus lábios moverem-se ao som da tua voz. Da tua voz, doce, que me embalava e acalmava o turbilhão de desilusões ou dores do passado que me atormentavam o presente. Saudades de acordar contigo e de nos puxarmos para fora da cama, esgrimindo a preguiça com a audácia que tendia em esquecer fazer parte ti.
Tenho saudades de quando olhavas para trás e num só momento, ainda que muito longe de te compreender, me abraçavas, me agradecias, sorrias e perdoavas. Tenho saudades tuas... dos teus sonhos e fantasias, dos teus livros e invenções na cozinha, do sabor na ponta do teu dedo, do cabelo à frente dos olhos e dos teus olhos me olharem no espelho.

Estou aqui, contigo. Agora e até ao teu ultimo momento.

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