domingo, 12 de maio de 2013

Eu não quero morrer... II



Agarrou-me com força a mão, e senti-lhe nos dedos, o horror de me perder.
-- O que se passa mãe? Porque estás a chorar?
-- Não é nada filha. -- respondeu limpando à pressa as lágrimas, trocando-as por um grande sorriso. -- Foi o Sol. Não te preocupes, sim?
Acenei ligeiramente com a cabeça, enquanto a minha mãe tentava manter aquele sorriso estranho.
-- Daqui a pouco estamos em casa! -- sorriu, soltando uma lágrima.

Passou-me a mão pela cabeça. Trémula. Dos megaphones, suou a voz víbora, que todos em meu redor escutaram com toda a tenção. Pareciam tensos, muito concentrados à medida que os senhores fardados percorriam aquele longo amontoado de pessoas, com paus e pistolas compridas. A minha mãe apertou-me com força, à medida que lhe sentia o olhar ficar mais pesado e repleto de medo, foi então que um senhor à minha frente levou com um pau na cabeça. Assustei-me, encolhi-me. Senti-lhe a dor na voz. Ao meu lado, agarrado às saias da sua mãe, estava uma criança muito pequenina, com pouco mais de 6 anos, a chorar. Soluçava com o medo estampado no rosto, nos olhos, nas mãos pequeninas que seguravam com força a única pessoa que lhe poderia dar protecção, carinho, compreensão, alimento.

Tão rápido como todos nos tínhamos encarcerado, afastámos-nos. Apertando com força a minha mão, mantendo-me sempre com ela, colada, levou-me. Colocaram-nos numa fila só para mulheres e crianças. Havia rapazes mais velhos com olhares sérios mas com uma expressão irreconhecível. Talvez medo... disfarçado de coragem. Olhei para trás, para a fila serpenteante, e vi uma senhora dar um bocadinho de pão às escondidas, a uma criança.
Olhava para a minha mãe de vez em quando, mas ela não desviava a sua atenção da mesa que recebia as pessoas, para outros pais, para outras crianças, para outras mães, e a sua expressão séria, confundia-se com a de dor, com a mesma expressão de incapacidade. Os seus dois cristais, largavam lágrimas que lhe percorriam a face, o nariz, o queixo e que caiam no meu cabelo ou no meu vestido. Depois de várias dezenas de minutos à espera, sem água, sem comida, e ao sol intenso, chegara finalmente a nossa vez. A situação nova, não me recordava as filas de espera para o comboio, para o dentista ou para a casa de banho. Havia demasiado no meu horizonte que me causava desconforto. Eu própria desconhecia se compreendia o que estava a acontecer. Não existem histórias tão horrendas, como aquela em que se tornou a minha vida, como aquela que estava presente a assistir. O silêncio de todo aquele grupo de pessoas, desfazia-se com a voz vibrante dos soldados.

Chegámos-nos à frente e entregou os papeis de identificação. Olhava para ela, que não limpava as lágrimas, e para o senhor do qual não entendia a língua. Escreveu qualquer coisa numa folha já meia preenchida, com estranhos traços, falou para minha mãe que acenou a cabeça e me levou de novo para outro local desconhecido. O senhor levantou o olhar, e com raiva mandou que o próximo se aproxima-se. Não foi preciso entender. Os seus gestos curtos e brutos demonstravam violência, ordens que nem eu própria me atreveria a desobedecer. Lembrei-me do papá, quando ele costumava ficar zangado comigo por deixar as bonecas espalhadas pelo chão da sala.
-- Quero que te mantenhas com a mamã. Vai correr tudo bem. Não precisas de ficar assustada. -- senti na voz da mãe, um aperto, um arfar, uma dificuldade em respirar. Estava com medo. O que se passa? Foi alguma coisa que eu fiz? O que fizeram estes senhores ou aquelas crianças para estar aqui? O que fez de mal aquele homem para levar com um pau na cabeça? O que querem de nós? Porque fazem isto? O que está a acontecer?
Seguimos em frente, onde vi o que me arrepiou o corpo. Um senhor fardado, que estava parado de arma na mão, caminhou até a um rapazito que trazia um pequeno brinquedo nas mãos. Assustado, olhou para o senhor, muito branco e de cabelo rapado, jovem e com cara carinhosa...ZÁS! Com uma chapada nas mãos, tirou-lhe o brinquedo, gritando de seguida ao seu ouvido. A minha mãe tremeu, cessando o passo por momentos, e a dele, puxou-o para si, passando-o para o seu lado esquerdo. Tive um suor frio pela espinha a baixo. Sentia a mesma mão pesada nos meus neurónios espelho. Chorei. O monstro aproximou a sua cara da minha. Cheirei-lhe o mesmo hálito bêbado que tanto decorei da boca do meu pai, sempre que me dava as boas noites, e com um grande aperto na cara, encolhi-me entre as roupas daquela mulher que me obrigava a acompanhar as suas largas passadas, apressadas, pesadas e breves num chão sem vida. Morto.
Por trás da vedação, começavam a surgir edifícios de betão, baixos, feios, grosseiros, assustadores e intimidantes. Vapor saía de umas chaminés, e por breves momentos, a mão da minha mãe perdeu as forças.

O problema deste lugar, é que eu sou daqui...

Eu não quero morrer... III

Question: "At Auschwitz, tell me, where was God?"
Answer: "Where was man?"
William Styron em Sophie's Choise

Uma organização anti-natura...


Hoje, na fila do supermercado, vi um garotito ajoelhado, a mexer nuns pequenos pacotes de balões. O que me intrigou. Não por estar a mexer, interessado, a "brincar" com aquelas embalagens individuais espalhadas pela caixa, fora do ferro de exposição, mas sim a "dedicação" com que se sentou a tentar arrumar.

Veio-me uma pergunta à cabeça, comparando-me a ele com a mesma idade. Será que ele em casa faz o mesmo com gosto, com dedicação? Ou fá-lo apenas para arrumar, porque está aborrecido, não tem nada para fazer, e... aquilo até está tirado do sitio. À primeira, até pensei que fosse voltar a colocar nos ferritos, mas deixou estar. Pôs-se antes a atirar uns para cima dos outros, para um canto, sem ordem, sem organização de tamanhos ou feitios. Diria até que ele é mais um daqueles que desiste assim que percebe que as coisas demoram a fazer, a concluir. Pelo esforço que fez em organizar convenientemente aquilo, foi fácil perceber que não está minimamente interessado em fazer as coisas da forma correcta. Apenas fazer.
O cérebro dele ainda não tem ordem, não tem regras nem ordens vincadas pela sociedade, mas tê-las à um dia.
O interessante e mais curioso daquela breve observação, foi o facto de ele estar programado socialmente, para "arrumar". Não significa que o faça em casa, com os seus brinquedos, mas arrumou. Sentiu-se impelido, no meio daquele aborrecimento todo à espera na fila. Já entende programaticamente o que é "desarrumado" e o que é "organizado". O facto de não se ter importado com a maneira como empilhava as coisas, demonstrava também que, ou ainda não tinha tacto para tal pensamento, ou o próprio cérebro ainda não estava desenvolvido o suficiente para se sentir obrigado em fazer as coisas de uma certa forma mecanizada, absorvida pelo exemplo e repetida.

Temos o gosto de ter as coisas perfeitas, de ver as coisas perfeitas, direitas, limpas, rectas, lisas, brilhantes, bonitas, arranjadas, corrigidas, sem imperfeições, sem riscos, sem erros, sem defeitos, sem dobras, sem amolgadelas. Tudo muito anti-natura. Imperfeitamente "correcto".
Não será a nossa mania algo que não existe nem pertence à natureza? O chamado "caos"? Mais nenhum animal é tão "organizado" como nós. Talvez uma das razões para isso tenha surgido na Roma e Grécia antiga, quando as casas passaram a ter paredes direitas, com cantos, com roda-pés e portas, para apanhar o pó, ou diminuir a sua acumulação. Segundo vi num documentário sobre vírus/saúde no Odisseia à coisa de 1 ano.
Foi a partir do momento em que colocámos portas e separámos divisões que antes davam acesso a tudo. Por exemplo, na antiguidade, fazia-se sexo em qualquer lado, mesmo nas casas, e tomava-se banho, fazia-se as necessidades, sem qualquer tipo de divisórias ou privacidade. Não havia "vergonha". A "mania" do individualismo, surgiu em parte, teorizo eu, como uma tentativa de separar e fechar, potenciais riscos que cada ser humano trazia e espalhava onde quer que toca-se. Nas casas de banho, fecha-se a 4 paredes, filtra-se o ar, e o próprio cheiro ou resíduos são eliminados todos os dias. Não é como nas nossas casas de banho, que são limpas talvez... 1 vez por semana? O que estou a tentar dizer é que nós nunca fomos "organizados". A própria roda não tinha traços rectos, não era um rectângulo, era uma roda, uma imperfeição perfeita e evolutiva.
Mas as lanças... essas tinham de ser o mais direitas e "perfeitas" possíveis, para voar mais longe e melhor. As roupas não tinham necessidade de serem tão grandes em certas zonas do corpo e até do chão das casas começámos a exigir que ficassem mais secas, ao invés de molhadas, lamacentas, poeirentas ou pedrosa para os pés. Tinha de ser lisa, pois os nossos pés perdiam a capacidade de caminhar sobre terreno acidentado como antes.
Com a industrialização, modernização e estandardização do mundo que nos rodeia, tornámos-nos naquilo que somos melhores. Fanáticos pelo "correcto", pelo "organizado". Odiamos caos e incoerência. Odiamos confusão visual, barulho e sabores que não estamos preparados, quer física como psicologicamente para decifrar e trabalhar.
Vê-mos esse resultado de organização cerebral e interpretativa, nas revistas, nos placares e posters de publicidade. Na organização das letras e de um texto. Nas imagens de modelos, na composição de um texto, de uma fotografia, de um conjunto de cores, efeitos e feitios numa roupa ou numa página da internet. Nos icons, nas cores da fruta, de sinais de transito ou universais. Somos organizados compulsivos, e tornámos-nos sem saber, em arquivadores.
Somos viciados em "perfeição", e exigimos-lo instintivamente perante fêmeas ou machos aptos a procriar. Uma guerra microscópica que dura à milhares de milhões de anos. Somos assim, não por termos deixado de ser animais "irracionais", descontrolados e selvagens, mas precisamente por termos deixado de ser como os animais "irracionais", descontrolados, selvagens e preparados para o mundo selvagem e animalesco, duro, frio, seco e exigente.

A criança fez, o que está social e comercialmente preparada. Para o que foi "programada" psicologicamente  Não é por necessidade, porque os brinquedos ficarão no chão, ao monte, espalhados, até causarem desconforto e ocuparem espaço para outros tipos de actividades. E quando digo que não foi por necessidade, porque nada daquilo lhe pertencia, significa apenas que a necessidade, foi implantada pelo cérebro ordeiro, pela força do hábito. A mesma força ordeira, que temos para enrolar um novelo de lã, corda ou dobrar umas calças. Porque aprendemos, é eficaz e economicamente temporal.
Seremos animais com hábitos que se tornaram "obrigatórios" para a nossa sobrevivência psíquica e social, ou hábitos que levámos ao extremo? Acredito que somos animais, que, neste pequeno mundo de organização caótica que aqui abordei, melhorámos o que se tornou insuportável, e aperfeiçoámos o que já havia. Mas não somos melhores. Psicologicamente, exigimos menos esforço, e isso.... é o pior de toda esta organização. Facilidade/facilitismo.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

A chuva faz-me companhia...

[2561 by ~Amatorka]

A chuva batia na janela com força. Parecia que alguém do outro lado me gritava para ir até ela, ver a natureza do vento torcer os ramos das árvores e a fúria da água ensopar os jardins e matar os canteiros. Aquele som picado, trespassava a janela. Já não eram gritos, eram murmúrios acompanhados por grandes relâmpagos que rasgavam o céu negro, pesado, sombrio e obscuro.
A criança tremeu dentro de mim, à medida que me aventurava até à janela. Senti o cheiro da terra e da água nas tábuas velhas da janela. Senti um frio percorrer-me os pêlos dos braços e dançar nos ossos das minhas costas. Arrepiei-me e um relâmpago desfez o chão. Os tambores ressoaram pelo quarto, pelos meus ossos e ouvidos. Caí no chão ao lado da cama, e sem tempo para me acalmar, a escuridão transforma o meu quarto. A luz falta, ninguém está em casa. Sinto-me sozinha...

Entre as nuvens, aparece uma Lua pálida de morte. O forte brilho tornou-se meu companheiro, meu amigo. Uma personagem imaginária, sem cara ou voz. Que zela por mim, pelo menos por enquanto...
Os grossos lençóis forram-me as pernas geladas, as almofadas protegem-me do desconforto dos relâmpagos e assim fico, deitada, neste quarto vazio e despido. Aperta-me nas mãos, não o frio, mas a saudade do calor; A saudade de não ter, mãos que me aqueçam os dedos presos e o coração apertado. Quase consigo associar os raios a memórias difíceis, a tristeza que tento esquecer, em vão, de um passado que me é todos os dias presente e não sai, não acaba, não expira. As lágrimas da saudade, da pena de não ter na cama mais uma fonte de calor e um grande abraço para me aconchegar como me fazia a mamã quando eu era mais pequenina... brotam e deixam a marca de um pensamento que temo ser real, que se torne verdadeiro, em mais um sapo e num momento difícil onde certamente irei tropeçar, rasgar as calças e ser gozada.

O tempo acalmou e faz agora dançar o seu som nos meus ouvidos.
A natureza cortou-me a comunicação. A minha língua não mexe, apenas gagueja. O meu corpo não respira, não trabalho. Fechou por motivos que desconheço e que já não sonho.  Esqueci ou afastei dele, daquela pequena maça cinzenta que me pesa na testa, a realidade. Já não lembro nem penso. O piloto automático controla o medo e faz trabalhar os membros enferrujados, esquecidos, como as palavras que posso apenas ler. Ouvir? Fechou-se longe e lá se mantém  até que o traga de novo pela mão, prometendo pela viagem, um grande doce e um carinhoso beijinho.
Quero ser amada de novo, agarrada com força e sentir nas palavras, o que tenho medo de nunca vir a ter.
Não quero que este dia acabe, a chuva faz-me companhia.

Eu não quero morrer...


O ambiente estava pesado, ninguém falava. Entre os tambores que ressoavam na locomotiva lá mais ao fundo e do metal que rangia com a fúria da velocidade, do peso da sua carga, ouvia-se a tosse e os espirros de caras fantasma. O choro das crianças e os gritos já quase roucos dos bebés esfomeados. Cada vagão compunha em conjunto, uma melodia mecânica, continua e cadenciada. Parecia um galopar. Através de uma pequena fresta naquele contentor de metal, podia adivinhar quando se aproximava a próxima curva apertada, ou o próximo solavanco através das pedras que batiam por baixo dos nossos pés. Espalhava-se por aquele espaço apertado, o cheiro à urina, ao suor, ao sujo. Um odor forte que não conseguia sair, tornando-se a pouco e pouco, reciclado pelos pulmões de quase uma centena de pessoas esfomeadas, cansadas, doridas, ensardinhadas, defuntas.
A luz iluminava tão pouco aquele interior já tão fechado, que até a luz do sol parecia ter sido economizada para nós.
Através do peso que se apertava e caia sobre mim, senti o comboio travar durante vários metros. No meio dos sons a vapor, de cães a latir e de um chiar estridente, ouvi indistintamente o que me parecia ser um homem a falar. A travagem seguinte foi brusca e todas as pessoas que seguiam naquela besta de metal, comprida e esguia, gritaram numa cacofonia que pareciam pequenos murmúrios. No seu folgo breve, sentiu-se o medo. Ficámos parados, trancados por breves segundos, enquanto várias vozes se aproximavam. Senti uma risada forte do outro lado da chapa. Destrancaram os portões, correram-nos e afastaram-se da imundice ensopada. Agarrei com força a mão da minha mãe e olhei para ela.
-- Não tenhas medo filha, vai correr tudo bem. Está tudo bem. Em breve estaremos em casa.

Um raio de sol bateu-me na cara, e senti o seu calor, senti a paz e o sossego que me faziam recuar no tempo. Estava na casa do campo, a brincar na relva verde com o meu cão "Puffy". Lembrava-me do vestido vermelho e daquele laço tão boni...
Puxaram-me pelo pequeno braço enquanto absorvia um grito gutural junto à minha cabeça. Saltei da carruagem e fizeram-nos alinhar em frente a centenas de homens fardados, grande maioria sentados, a rirem-se e a beber. Estavam à espera de nós. Olhavam-nos com gonzo, tocando nos corpos das mulheres como se fossem suas esposas. Estavam bêbados, contentes e com muita raiva nos seus rostos.
Senti na barriga, um desconforto, uma azia que me subiu pela garganta, à medida que via serem descarregadas, de malas e filhos nas mãos, mulheres e crianças, recebidas à chapada e ao ponta-pé, pelos senhores de língua feia.
A minha mãe levava-me pela mão, carregando na outra a malinha pequena que tinha preparado em casa antes de sairmos com a policia e sermos levados até estes comboios que não tinham destino, mas um fim. Olhei para ela. Preocupada, assustada e cheia de dor, do que quer que estivesse a testemunhar à altura dos seus olhos. Os encontrões tornaram-se frequentes até ao ponto de mais ninguém se conseguir mexer. Estava espezinhada e entornicada às pernas dela, que num momento violento e confuso como aquele, se mantinham suaves, lisas e com cheirinho a sabonete de perfume. Agarrou-me com força a mão, e senti-lhe nos dedos, o horror de me perder.
-- O que se passa mãe? Porque estás a chorar?
-- Não é nada filha. -- respondeu limpando à pressa as lágrimas, trocando-as por um grande sorriso. -- Foi o Sol. Não te preocupes, sim?
Acenei ligeiramente com a cabeça, enquanto a minha mãe tentava manter aquele sorriso estranho.
-- Daqui a pouco estamos em casa! -- sorriu, soltando uma lágrima.


Eu não quero um fim... quero o meu final.

Eu não quero morrer... II


terça-feira, 7 de maio de 2013

Adivinha o quanto eu gosto de ti...



Seguro-te nos braços com a vontade de nunca te deixar partir. Desejo para mim, que fiques para sempre assim, pequeno o suficiente para te segurar, atirar ao ar e levar pelo dedo.
Os olhos profundos que herdaste da tua mãe, olham-me acompanhado de um grande sorriso e do riso mais carinhoso que me encanta todas as vezes que te fazemos uma careta. A tua mãe, ela que te é tão dedicada, derrete-se ao ver-me mudar-te a fralda, a brincar com os teus brinquedos junto de ti ou a ouvir-me ler-te umas histórias de animais encantados.
Tornas os ombros do pai, num cavalo que orgulho em te fazer cavalgar e conquistar o mundo em redor.
À noite permaneço ao teu lado até adormeceres, enquanto a tua mãe te canta uma canção de embalar. Enches de alegria, uma vida já tão rica em abraços e beijinhos. Exiges e aventuras-te por sítios,  que sendo-te completamente desconhecidos, não temes em apalpar, agarrar e conquistar.

A caminho do super-mercado, cantamos as cantigas que aprendes na escola que eu e a tua mãe fazemos um esforço para aprender. Já lá vai o tempo em que as sabia de cor... Danças sem medo e cumprimentas sem vergonha, todos os meninos e meninas com que te cruzas. Atiras-te à fruta e gritas-lhes os seus nomes. Já sabes tirar o saco e escolher as cores da roda dos alimentos que a tua mãe tanto te ensina durante as horas do banho. Corres de um lado para o outro, e só paras quando encontras a tua secção favorita, ou a dos brinquedos ou a dos livros enfeitiçados com criaturas e personagens mágicas. Desfolhas livros medievais, de astronomia. Debruças-te sobre os de pintora, anatomia e de lendas antigas. Mostra-me o que descobriste, ensina-me o que aprendeste...

Tocas em tudo, aprendes e devoras o feitiço do desconhecido. Sento-te ao meu colo, e contamos as nuvens, rimo-nos para a mamã e beijas-nos com um grande abraço nos nossos pescoços. O perfume da mãe "cheira sempre muito bem" e não te cansas de dizer o quando gostas de nós. Fico com ciumes, e às vezes medo, que ela me troque por um príncipe perfeito que tanto me esforço em afastar dos sapos.

-- Papá! -- Não me vês chorar, mas é o que acontece cada vez que te vejo receber-me empolgado de braços abertos. Corres de mim no recreio do ATL para junto das outras crianças, mas assim que o Sol troca com a Lua, sabes que as cócegas e os aviões de colher estão a chegar. Largas tudo o que estás a fazer e corres para nós, que te esperamos impacientemente, orgulhosos e completos, ao portão que serve de entrada para o teu pequeno reino.
A tua mãe, quando sai mais cedo do trabalho, aparece de surpresa no escritório do pai, onde acabas sempre por fazer as delicias de toda a gente, enquanto te observo ao longe, com a mãe galinha sempre por perto.
Levar-te a navegar pelas ruas, pelos monumentos, museus e bibliotecas, delicia-nos. Colas-te aos vidros e tentas sempre mexer em tudo. Queres descobrir, saber o porquê e como funciona. Já seguras na máquina fotográfica, aplicas os dotes que a tua mãe te costuma ensinar e tiras as fotos mais trémulas e engraçadas que inocentemente te esforças em tirar.

Que traquina! Todos os fins de semana saltas e abraças os pais já cansados. Já não temos a tua energia, mas esforçamos-nos para te acompanhar em tudo o que desejas e te empenhas em fazer. Sabes o abecedário e contar até 20. Deixas todos de boca aberta quando lhes respondes de onde vêm os bebés ou como aparecemos na Terra. Não te escondemos nada e esforçamos-nos para que compreendas tudo.
Lá me vês então, eu ou a tua mãe, a desfolhar nos livros grossos o significado de alguma coisa, quando as perguntas que antigamente eram tão fáceis de responder, se tornam autênticas demandas do conhecimento.
Ensino-te a pintar e a desenhar. Já não deixas que te segure na mão como antigamente... és tu, por ti, sozinho. Demos-te liberdade e ensinamos-te que a vida nem sempre é fácil. Tu escolhes, tu decides. Demos-te opinião. Mostramos-te e explicamos-te para que decidas e aprendas por ti. Mas és cabeça dura, sais à tua mãe...

Odeio quando ralho contigo e te ponho de castigo, e até a tua mãe sofre cada vez que te dá uma palmada nas mãos. Deixamos-te sozinho durante um bocado, que para nós parece uma eternidade, a pensar no que fizeste. Conversamos contigo, abraçamos-te e beijamos-te.
És uma criança cheia de vida e sempre com amor para dar. Ensinas-nos o que fingimos por vezes esquecer, só para teres o prazer de ensinar e explicar. De poderes por breves momentos, seres tu o pai e a mãe.

Amo-te com todas as forças que tenho e ensino-te tudo o que aprendi e aprendo, cada vez que te vejo crescer...

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Deixa que todos pensem aquilo que na verdade não és...

[Lunch by *gerezon]

Há pessoas que parecendo estranhas, confusas e pesadas na mente dos outros, um dia ainda vão espantar e admirar muita gente.
Há humanos que parecendo não se encaixar na sociedade, tanto pelos pés como pela cabeça, um dia vão deixar muitos de boca aberta.

Deixa que todos pensem que és "estúpido/a", "idiota", fraco e ignorante, até ao dia em que proves o contrário e lhes demonstres que sempre foste mais do que eles. Porque até saber estar calado, saber ouvir, saber aprender e ter paciência é uma virtude que muito pouca gente tem.
E mesmo que não tenhas qualidades nenhumas, está então na altura de deixares de ser vítima e passares a controlar as tuas palavras, as tuas acções e a tua vida pessoal. É melhor agarrares na pouca ou nenhuma personalidade que te resta e moldares o que ambicionas educar e amar. Não nos outros, mas em ti, para os teus filhos e a tua "futura" mulher.

E se te servir de consolo, pensa sempre que há de haver alguém pior do que tu ou em pior situação, no entanto, isso não é desculpa para deixares de tentar e de realmente fazeres por ti, o que nunca quiseste saber.

"Vejo putos a fumar ganzas. Eu ainda vou ao Continente comprar Cerelac."

sábado, 4 de maio de 2013

Alguém como tu...


Bastou aquele pequeno momento para me olhares nos olhos, daquela maneira tão peculiar que nunca tinha visto numa rapariga.
De manha acordei a olhar-te para mim...

Ao olhar-te nos olhos castanhos que não vislumbro, que não costumo reparar nem pensar na dor e sofrimento que já viste e viveste no teu mundo infelizmente imperfeito e sempre contra ti, senti o calor do carinho, o amor e aconchego de me ter ao teu lado e do teu lado.
Partilhas o choro e o sorriso, com um desconhecido que te é tanto. Partilhas noites frias e quentes, com o rapaz que é apenas amigo, te deu mais que um namorado, no qual consegues imaginar o futuro bonito mas que não consegues abrir as mãos, os braços, o peito e o coração para uma emoção que não queres ver no teu cérebro.
Ouvir-te conversar ou simplesmente ver-te trocar de roupa, faz-me sentir e reconhecer a relação e a intimidade que nunca tive com quem achava ser minha, mas que nunca foi  uma amiga. É a pena de não te ter e de não ter tido que me pesa no peito. A tristeza de achar que nunca terei o que tanto batalhei para ter. Alguém como tu...

Beijar-te os lábios, sentir o teu cheiro, o peso do teu corpo sobre o meu peito e o teu abraço às minhas mãos, provocam no meu cérebro algo que não sei explicar, mas garanto-te que sei apreciar, que abraço e aperto com força para gravar na memória. Tudo o pouco que me dás, emolduro com os maiores dos cuidados e tento trocar os álbuns tristes de fotografia que guardo com tanto rancor e sofrimento, pelos momentos únicos e modestos nos quais não precisas de te esforçar.
As mãos sobre o teu corpo cansado, os teus pés doridos e costas chicoteadas pelos anos de amores e amassos incorrespondidos, fazem-te à alma o mesmo que fazem as prendas... surpresas que agradam. Dedicação e carinho que já sentiste no corpo, mas que nunca te foi realmente sincera. Que nunca foi por vontade própria ou com agrado.
Nós que demos tanto, nada tivemos em troca a não ser sapos e abre-olhos que nos ensinam a crueldade da vida. E parece que os outros, mais dia menos dia, acabam sempre com a pessoa "perfeita" para o resto da vida. Tiveram de passar por nós para saberem o que era realmente amar alguém? Para darem mais tarde, valor ao que sempre lhes demos e fizemos?
Gostava de ser um desses felizardos e de te encontrar mais tarde, na mesma livraria onde passámos tão pouco tempo, que parecia uma eternidade. De te descobrir numa caminhada e finalizá-la contigo, lado a lado como sempre estivemos.

Tens um coração enorme... e espero não ser o único a ter a caixa para o guardar e proteger.